Foto: T.J. Kirkpatrick para The New York Times.
Foto: T.J. Kirkpatrick para The New York Times.

Em Baltimore, cresce o orgulho cívico depois de ataques de Trump

Além de atacar o deputado Elijah E. Cummings, o presidente americano disse que a cidade é 'uma bagunça nojenta, infestada de ratos e outros roedores'

Nicholas Bogel-burroughs, The New York Times

07 de agosto de 2019 | 06h00

No dia 27 de julho, cerca de 15 mil pessoas se reuniram no centro de Baltimore, Maryland, para assistir a uma luta de boxe válida para o campeonato, e o favorito incontestável da multidão só poderia ser Gervonta Davis, nativo de Baltimore. Ele não teve dificuldade para esquivar-se dos golpes de um adversário de fora.

Horas antes, fora deflagrada outra guerra, na página do presidente Donald J. Trump no Twitter. Novamente Baltimore em peso se uniu em defesa de um campeão local: o deputado Elijah E. Cummings, democrata e ícone dos direitos humanos que está no 13º mandato na Câmara dos Representantes.

Trump prosseguiu o seu ataque contra Cummings e o seu distrito no dia seguinte, chamando Cummings, que é preto, de ‘racista’.

Em resposta, os habitantes nascidos em Baltimore, os recém-chegados e as celebridades elogiaram os seus pontos favoritos da cidade, do Inner Harbor, o Porto Interior, à sua universidade e escola de medicina, mundialmente famosa pela pesquisa, a Johns Hopkins. A hashtag #WeAreBaltimore rapidamente se tornou uma das expressões mais populares no Twitter.

Não há como negar que Baltimore está lutando, principalmente contra o crime violento - este ano, a cidade registrou 32 assassinatos a mais do que Nova York, apesar de ser muito menor. Mas os moradores atribuem estas lutas a uma longa história de segregação da cidade e, na opinião da comunidade, ao descaso do governo federal.

Davis, um peso superpena que manteve o seu título, levara para a cidade a sua primeira luta pelo título em quase 50 anos. Houve uma ruidosa celebração de orgulho cívico, logo depois dos primeiros tuítes do presidente, que chamou partes da cidade de “uma bagunça nojenta, infestada de ratos e outros roedores”, transformada em ‘um lugar imundo e muito perigoso,” onde “nenhum ser iria querer viver”.

Em uma resposta que foi amplamente compartilhada, Victor Blackwell, um âncora da CNN que passou a infância em Baltimore, se emocionou  ao responder à afirmação de Trump de que ninguém iria querer morar no distrito de Cummings. “Sabe quem quis, Sr. Presidente? Eu quis”, afirmou.

“As pessoas crescem e trabalham aqui”, acrescentou. “Elas sustentam suas famílias. Amam os seus filhos, prometem fidelidade à bandeira, assim como as que vivem nos distritos de congressistas que o apoiam, Sr. presidente. Elas também são americanas”.

O chefe de gabinete da Casa Branca de Trump, Mick Mulvaney, defendeu o presidente na TV e insistiu que no seu ataque ao distrito de Cummings e às condições do local não tinha nada de racista. “Já viu algumas fotos na internet?” perguntou.

O jornal The Baltimore Sun escreveu em um editorial enfurecido que Trump “acha que atacar membros do Congresso afro-americanos é uma boa política, porque afaga o orgulho dos supremacistas brancos que o adoram, e faz urrar de revolta muitas pessoas sérias que não o adoram”.

E encerrou o artigo afirmando: “É melhor ter animais peçonhentos morando no nosso bairro do que ser um deles”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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