Adam Dean para The New York Times
Adam Dean para The New York Times

Em Bangcoc, pessoas sufocam por causa da poluição

Mais de 400 escolas fecharão na quinta e sexta-feira devido à poluição

Hannah Beech, The New York Times

07 de fevereiro de 2019 | 06h00

BANGCOC - As monções não estão mais castigando Bangcoc, naquela estação das chuvas em que meus filhos às vezes precisam andar com a água até o peito para ir treinar futebol. Então, por que fiquei encharcada no mês passado, andando na capital tailandesa? A água, que logo inundou um dos cruzamentos mais movimentados de Bangcoc, vinha de canhões ativados com a finalidade de abrandar a poluição que envolve a capital há semanas.

Os pedestres gritaram quando os jatos foram disparados pelo ar. Um vendedor ambulante de sorvete não conseguiu parar a tempo o seu carrinho que virou perto de um bueiro. Um rato escapuliu veloz e depois começou a nadar. Algumas das gigantescas mangueiras foram ligadas a caminhões que contribuíam para o péssimo ar que aflige Bangcoc. A fumaça saiu cuspindo dos canos dos escapamentos. As autoridades do Departamento de Combate à Poluição da Tailândia calculam que as emissões dos veículos representam cerca de 60% da fumaça química que paira sobre a cidade.

Há dez anos, a capital tailandesa era uma raridade na Ásia, um lugar onde o ar ficara mais limpo graças à proibição da maioria dos veículos poluentes. Mas aquele tempo passou. No mês passado, Bangcoc estava na lista das dez cidades com o ar mais sujo do planeta. A escola do meu filho, assim como as mais de 400 da capital tailandesa, foi fechada recentemente por causa do smog.

Assim como muitas megalópoles asiáticas, Bangcoc sofre em razão de uma mistura tóxica: a industrialização e a urbanização sem limites, um povo louco por automóveis e a regulamentação permissiva. As queimadas nos campos e a estação seca com ventos escassos agravam a crise. Enquanto os monitores do controle da poluição afirmam que estão eliminando os motores a diesel mais poluentes, uma caminhada por uma rua de Bangcoc pode ser uma experiência sufocante. Os ônibus urbanos vomitam fumaça. Há excesso de automóveis para poucas ruas, e escasso interesse nos transportes públicos.

“Na nossa sociedade, um automóvel não é apenas um automóvel”, afirmou Tara Buakamsri, diretora pela Tailândia do Greenpeace Southeast Asia. “É a representação da afluência e um símbolo de propriedade. Será muito difícil convencer as pessoas a desistirem dos seus automóveis”.

Minha família, que viveu muitos anos na China, sabe como é respirar ar poluído. Eu costumava brincar que nós saímos de Pequim em 2014 como refugiados da poluição. Estava cansado de prender máscaras com fita adesiva no rosto dos nossos meninos quando iam e voltavam da escola de transporte público. Muitas vezes, eles não podiam brincar ao ar livre. A Organização Mundial da Saúde afirma que a poluição do ar externo causou 4,2 milhões de mortes prematuras em 2016, e anualmente acaba com muito mais vidas do que a AIDS, a tuberculose e a malária juntas. Os cientistas concordam que lançar jatos de água não ajuda a dispersar completamente o smog de Bangcoc.

“Algumas agências governamentais estão dispostas a contribuir para reduzir a poluição, mas talvez esta não seja a melhor solução”, afirmou Pralong Dumrongthai, o diretor geral do Departamento de Controle da Poluição da Tailândia, falando sobre o uso de canhões de água. O primeiro-ministro Prayuth Chan-ocha da Tailândia, chefe da junta militar que assumiu o controle do país em 2014, minimizou o problema da poluição em Bangkok, e os comerciantes foram avisados de que poderiam pegar até sete anos de cadeia pelo armazenamento de máscaras.

O recorde da poluição atmosférica está sempre nas primeiras páginas dos jornais daqui - eclipsando notícias, como a do mês passado, sobre os corpos de dois dissidentes tailandeses encontrados no Rio Mekong com os abdomes cheios de blocos de concreto. Em vez disso, os editoriais exigiam respostas da junta sobre as péssimas condições do ar. Apesar de tudo o que atrai os turistas a Bangcoc - as orquídeas, as massagens baratas, a manga e o arroz grudento - esta cidade não mima os seus habitantes. Grande parte da fauna cada vez mais numerosa, como baratas, ratos do tamanho de gatos e uma ou outra jiboia que sai do vaso sanitário nas casas, é de uma variedade alarmante.

Enquanto voltava a Bangcoc no mês passado, meu coração teve um baque quando o avião desceu no meio de uma neblina de cor castanha. No táxi, indo para casa, o motorista usava uma máscara. Quase imediatamente, ficamos parados no meio do trânsito. Mas como muitos motoristas de Bangcoc, ele tinha pendurado uma guirlanda de jasmins no espelho retrovisor. O perfume adocicado misturava-se ao cheiro da fumaça. Eu estava de novo em casa. Em uma cidade louca por automóveis, combate-se o smog com canhões de água.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.