Ksenia Kuleshova para The New York Times
Ksenia Kuleshova para The New York Times

Em Casablanca, o café ainda é um café

Rick's Café, inaugurado em 2004 por uma ex-diplomata americana, é uma homenagem ao filme 'Casablanca', e um testemunho do poder duradouro da grande arte ao afetar os destinos na vida real

Rod Nordland, The New York Times

14 Julho 2018 | 10h15

CASABLANCA, MARROCOS - Algumas coisas ficam melhores com o passar do tempo. Talvez o Rick’s Café seja uma delas. Chris Kelley de Bath, Inglaterra, entrou lá recentemente para almoçar e disse que ficou impressionado com a cuidadosa restauração desse velho local. Exatamente como aquele do filme “Casablanca”.

Como muitos visitantes, Kelley ficou surpreso ao saber que o Rick’s Café Americain nunca existiu, salvo no cenário hollywoodiano, onde foi rodado o clássico do cinema estrelado por Humphrey Bogart e Ingrid Bergman. Era o ano de 1942, e a cidade estava ocupada pelas potências do Eixo. O Rick’s foi a ambientação fictícia criada pela imaginação de um escritor.

A proprietária do Rick’s Café real em Casablanca é uma diplomata americana aposentada, Kathy Kriger. “Nós quisemos reconstruí-lo como era no cinema, e tem mais” afirmou.

Uma dezena de arcos brancos sustentados por colunas adornam o principal salão do restaurante, sob uma abóbada octogonal de três andares. Lustres de latão, abajures de mesa com pingentes e um piano de meia cauda sob um arco reproduzem o autêntico cenário do período. Kathy Kriger pode ser encontrada no bar. Muitos clientes a chamam “Madame Rick”.

A diplomata era há muito tempo fã de “Casablanca”, um filme que costuma ser incluído na lista dos dez maiores filmes de todos os tempos  segundo a crítica. Quando ingressou no Departamento de Estado, foi destinada a este porto do Atlântico. Ao chegar, ficou espantada ao constatar que não havia nenhum Rick’s na cidade.

Então ocorreram os ataques de 11 de setembro e, na sua opinião, a dura reação dos Estados Unidos contra os muçulmanos. Decidiu então procurar uma forma de luta para mostrar que uma mulher americana, sozinha em uma sociedade muçulmana, poderia abrir um empreendimento como o Rick’s Café. Retirou o dinheiro da sua aposentadoria e descobriu uma velha e imponente mansão em ruínas na Ancienne Medina, a cidade velha. Contratou o designer de interiores Bill Willis para ajudá-la a restaurá-la, obteve um empréstimo e pediu a colaboração de alguns amigos.

Ela estava entrevistando candidatos marroquinos quando descobriu Issam Chabaa. Ele disse que sabia tocar piano. “Pedi que mostrasse para mim; ele sentou e tocou ‘As Time Goes By’”, contou. “Foi contratado.” E está com ela desde a inauguração do local, há 14 anos. Não passa uma semana sem que algum cliente peça para ele: “Toque novamente, Issam”.

O Rick’s Café é um sucesso. Em uma noite de sexta-feira, entre os clientes havia italianos, ingleses, americanos, chineses, colombianos, chilenos e franceses. A embaixadora da Sérvia em Marrocos estava na mesa da roleta, que só está lá como parte do cenário. “Eu conheço a história”, disse Sladjana Prica, “mas ainda prefiro acreditar que este é o lugar real”.

Kriger, 72, divorciada, disse que pretende passar o resto dos seus dias no Rick’s Café. “Esta é a minha clínica de repouso”, brincou. Ou como o personagem de Bogart, Rick Blaine, afirma no filme: ‘Vou morrer em Casablanca. É um ótimo lugar para isto’”.

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