Lauren Justice para The New York Times
Lauren Justice para The New York Times

Em Davos, elites discutem automação das indústrias

Inteligência artificial é considerada o caminho para executivos economizarem dinheiro

Kevin Roose, The New York Times

05 Fevereiro 2019 | 06h00

DAVOS, SUÍÇA - Muitos dos seus executivos nos altos escalões querem que as máquinas substituam a sua mão de obra o mais rápido possível. Na reunião anual do Fórum Econômico Mundial realizada em Davos, as respostas dos executivos às indagações sobre a automação dependiam de quem estivesse ouvindo. Em público, muitos deles lamentaram as eventuais consequências negativas da automação para os trabalhadores. E falavam sobre a necessidade de oferecer uma rede de segurança aos que perdessem o seu emprego.

Mas em particular, eles contavam uma história diferente: na realidade, eles estão acelerando a instalação da automação para superar a concorrência, com total menosprezo pelos trabalhadores. E estão gastando bilhões de dólares para transformar as suas empresas em operações altamente automatizadas. A inteligência artificial é considerada o caminho para economizar dinheiro.

“Inicialmente, o seu objetivo era reduzir de 5 a 10% da força de trabalho”, disse Mohit Joshi, presidente da Unfosys, uma empresa de tecnologia que ajuda outras empresas a se automatizarem. “Agora, estão dizendo: ‘Por que  não podemos fazer isto com 1% do pessoal que temos?’”

Uma pesquisa da empresa internacional Deloitte em 2017 constatou que 53% das companhias já haviam começado a usar máquinas para realizar tarefas anteriormente desempenhadas por seres humanos. Os números deverão aumentar para 72% até o próximo ano. Kai-Fu Lee, autor de “AI Superpowers”, executivo da área de tecnologia, prevê que a inteligência artificial eliminará cerca de 40% dos empregos mundiais em 15 anos. Segundo ele, os diretores executivos são pressionados pelos acionistas e pelos conselhos de direção a maximizar os lucros no curto prazo.

Outros especialistas previram que a I.A. criará mais empregos do que os que ela destrói, e que as perdas de empregos provavelmente não serão catastróficas. Eles destacam que algum tipo de automação ajuda os trabalhadores melhorando a produtividade e liberando-os para se concentrarem em tarefas criativas.

Mas em uma época de grandes movimentos contra as elites tanto do lado da esquerda progressista quanto no da direita nacionalista, toda esta automação ocorre sem estardalhaço. Em Davos, vários executivos não quiseram informar quanto economizaram automatizando os empregos.

Os líderes asiáticos frequentemente não procuram esconder as suas metas. Terry Gou, chairman da Foxconn, fabricante de produtos eletrônicos de Taiwan, informou que a companhia planeja substituir 80% dos seus funcionários por robôs nos próximos cinco a dez anos. Richard Liu, o fundador da companhia de comércio eletrônico chinesa JD.com, disse no ano passado que espera que sua companhia “seja totalmente automatizada algum dia”.

Um argumento comum é que os trabalhadores podem ser “requalificados” a fim de realizarem outras tarefas. E apresentam exemplos como a Accenture, uma empresa de consultoria da Irlanda, que em 2017 declarou ter substituído 17 mil empregos de processamento na área administrativa sem nenhuma demissão, treinando os funcionários para trabalharem em outro setor. Jeff Bezos, o diretor executivo da Amazon, afirmou em 2018 que mais de 16 mil trabalhadores dos seus armazéns haviam recebido treinamento em áreas de grande demanda como enfermagem e mecânica de aviões, e que a companhia arcara com 95% dos seus gastos.

Não há muitas evidências de que a requalificação funcione em escala. O Fórum Econômico Mundial calcula que do 1,37 milhão de trabalhadores que deverão ser realocados na próxima década, somente um em cada quatro pode ser requalificado lucrativamente por programas do setor privado. As escolhas feitas pela elite de Davos - e a pressão exercida sobre ela - determinarão se a IA está sendo usada como uma ferramenta para aumentar a produtividade ou para infligir sofrimento.

“Não se trata de escolher entre automação e não automação”, disse Erik Brynjolfsson, diretor da Iniciative on the Digital Economy do Masschusetts Insttute of Technology. “Ela ocorre tanto se você usa a tecnologia de maneira a criar uma prosperidade compartilhada, quanto  uma maior concentração da riqueza”.

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