Felix Brüggemann para The New York Times
Felix Brüggemann para The New York Times

Em Düsseldorf, floresce uma pequena Atenas

À medida que a Grécia se recupera, a maioria dos que partiram planeja permanecer no exterior

Liz Alderman, The New York Times

23 de junho de 2018 | 10h45

DÜSSELDORF, ALEMANHA - Depois de dez anos de dificuldades econômicas, a Grécia finalmente parece estar a caminho da recuperação. Mas experimentem dizer isto aos gregos que deixaram o seu país e não têm planos para regressar, como Constantine Kakoyannis.

Erguendo um copo de cerveja, ele brindava à sua namorada, Kalliope Rapti, em um café em Düsseldorf, na Alemanha, com mais 40 amigos. O grupo, de um clube de engenheiros gregos expatriados, recepcionava vários recém-chegados.

“Quando você se dá conta de que o seu país se tornou um cemitério de sonhos, deve buscar os sonhos em outro lugar”, disse Kakoyannis.

Cerca de meio milhão de gregos tornaram-se migrantes econômicos desde o início da crise, em um dos maiores êxodos de um país da zona do euro.

E continuam partindo.

Entre eles, médicos, técnicos, arquitetos e outros profissionais qualificados, bem como universitários recém-formados, que continuam procurando o norte próspero da Europa à procura de trabalho. Kakoyannis conseguiu um emprego cobiçado na área de engenharia, e a sua namorada, que tem um site de línguas, o seguiu até aqui.

Enquanto em agosto, Atenas se prepara para sair de oito anos de dependência da ajuda financeira internacional, e pagar estas dívidas, o primeiro-ministro Alexis Tsipras declarou a recuperação do país. O crescimento mostra alguns sinais de retomada. Recentemente, Tsipras apresentou um novo projeto econômico para o país, e instou os gregos a regressarem para ajudar a reconstruir a Grécia. Os líderes europeus anunciam o simbólico fim de uma crise grega que começou em 2010.

Entretanto, 20% dos gregos continuam desempregados, e a economia continua menor do que há dez anos. Além disso, a incerteza política na Itália, que lança uma sombra sobre o destino do euro, poderá minar o progresso obtido pela Grécia.

“Quando uma economia foi destruída, leva muitos anos para se reconstruir”, afirmou Vasilis Kapoglou, que fundou o Clube dos Engenheiros Gregos da Renânia do Norte-Vestfália depois de deixar a Grécia em 2013. “A ajuda econômica pode estar acabando, mas os problemas que levaram as pessoas a ir embora não desapareceram”.

Na Renânia do Norte-Vestfália, uma região florescente que inclui Düsseldorf e Colônia, cerca de 130 mil gregos trabalham em empresas de tecnologia, telecomunicações e da construção.

Há tantos gregos estabelecidos em Düsseldorf que na cidade surgiu uma próspera mini Atenas. Tabernas e cafés gregos estão lotados de jovens gregos cosmopolitas, uma cena que lembra a de qualquer praça ateniense.

Uma butique de gregos que vieram na onda de trabalhadores estrangeiros dos anos 50, oferece roupas de bebê brancas de tafetá e amêndoas cobertas de açúcar, símbolos tradicionais  do batismo grego ortodoxo. No Cafe Bysantio, gregos saboreiam doces de massa baklawa.

Na linha de frente desta constante migração estão os engenheiros. Embora os investidores estejam mostrando um renovado interesse na Grécia as áreas de construção, desenvolvimento e tecnologia ainda lutam para se recuperar.

“Os engenheiros têm tudo a ver com o desenvolvimento de um país”, disse Martha Ouzounidou, engenheira química de Tessalônica, que veio para Düsseldorf no final do ano passado para trabalhar em uma fabricante alemã de baterias para automóveis elétricos. “Mas na Grécia não se vê nenhum desenvolvimento”.

Há uma amarga ironia para as famílias que ficaram na pátria. A Alemanha era vista como a principal defensora da austeridade na Grécia, exigindo cortes debilitantes das aposentadorias, salários e do setor público em troca de uma ajuda de cerca de US$ 380 bilhões para reduzir a montanha de dívidas do país. Muitos gregos agora culpam a chanceler Angela Merkel da Alemanha por sua situação calamitosa.

Entretanto, os gregos que partiram estão mais revoltados contra o seu governo, que responsabilizam pela péssima administração da economia, por não ter conseguido acabar com a corrupção, reduzir o Estado onipresente e restabelecer os investimentos.

Na Alemanha, a transição nem sempre é fácil. Os céus chuvosos de Düsseldorf, o jeito direto dos alemães e a dificuldade de fazer amigos alemães - mesmo depois de aprender a língua - podem se tornar obstáculos para a adaptação.

Kapoglou e sua esposa, Katerina, pertencem ao grupo reduzido dos que poderiam regressar. 

“Gostaríamos de fazer parte do grupo dos cérebros que retornam”, ela disse.

Kakoyannis contou que sua mãe pergunta continuamente quando eles retornarão. “Voltar para que?” comentou. O casal desistiu de ter filhos na Grécia. Agora, planeja ter pelo menos um  - mas não lá. “Na Alemanha, podemos ter esperança no futuro”, disse Rapti. “E também o nosso filho”.

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