Nana Kofi Acquah para The New York Times
Nana Kofi Acquah para The New York Times

Em Gana, educação gratuita tem seu preço

Um programa do governo cujo objetivo é expandir o ensino médio gratuito exige que as turmas se alternem no período letivo; matrículas registram alta de quase 40%

Sarah Maslin Nir, The New York Times

28 de junho de 2019 | 06h00

ACCRA, GANA - Ao raiar do dia, Jane Newornu, 18, vestiu o uniforme azul, colocou os livros na mochila e correu para a escola. Sua irmã gêmea, Jennifer, ainda de pijama, assistia a tudo com inveja. Jennifer ficaria em casa, cumprindo um hiato escolar obrigatório de dois meses previsto pelo governo. Como todos os estudantes do ensino médio de Gana, as gêmeas precisam se revezar.

Esse é o resultado da implementação de um novo programa do governo voltado para a expansão do acesso ao ensino médio gratuito. Quando o presidente Nana Akufo-Addo assumiu o governo,em 2017, cumpriu uma de suas principais promessas de campanha: ensino médio gratuito para todos.

A iniciativa era parte de um esforço mais amplo para tornar Gana um país competitivo do ponto de vista do ensino internacional, da agricultura e do turismo. Mas o programa se mostrou tão popular - 430 mil alunos estão matriculados neste ano letivo, uma alta em relação aos 308 mil matriculados em 2016, de acordo com o ministério da educação - que a demanda sobrecarregou a capacidade.

O escalonamento de estudantes já foi usado em muitos países para reduzir a superlotação, incluindo Japão e Austrália. 

Enquanto o ensino infantil e fundamental são compulsórios e gratuitos em algumas partes da África Ocidental, o ensino médio gratuito é raro. Um punhado de países, como Burkina Faso, oferece ensino médio gratuito para estudantes pobres se eles conseguirem manter as notas altas. No ano passado, Serra Leoa também iniciou o ensino médio gratuito para 1,1 milhão de estudantes. Mas alguns dos alunos não foram admitidos por falta de espaço.

O novo sistema de Gana conseguiu levar mais estudantes às salas de aula. Seus defensores dizem que a situação é apenas temporária enquanto mais professores são contratados e mais escolas são construídas.

Mas muitos pais estão insatisfeitos. Alguns dizem que se as crianças na fila acabarem prejudicadas nos estudos, o custo do ensino gratuito será alto demais.

"Não estou satisfeita com esse sistema", disse Jennifer Newornu enquanto a irmã saía. "Passo muito tempo em casa. É entediante, e não me ajuda em nada".

Mas o governo não dá sinais de vacilo no apoio ao novo sistema, dizendo que este oferece ensino adequado a um maior número de jovens. Antes do programa, 67% das crianças que frequentavam o ensino infantil chegavam ao ensino secundário. Mas, após o início do novo programa, essa proporção aumentou para 83% em 2018.

Em Gana, o ensino infantil e fundamental é gratuito e compulsório desde 1995, com 90% das crianças matriculadas. Mas o ensino médio exigia o pagamento de mensalidades, mesmo sendo administrado pelo governo. Os internatos do governo tem custo de aproximadamente US$ 289 por ano letivo, e nos externatos, o custo é de aproximadamente US$ 120. São valores significativos em um país onde a renda per capita anual média é de aproximadamente US$ 1.900, de acordo com o Banco Mundial.

O governo diz ter planos para a construção de mais escolas, eliminando o sistema de escalonamento em cinco ou sete anos. Mas os educadores se mostram céticos. Eles dizem que o ensino gratuito nada significa sem mais professores e materiais, e grandes reformas nas escolas do país, que estão caindo aos pedaços.

O pai das gêmeas, James Newornu, agradece ao programa de ensino gratuito do presidente por permitir que suas filhas frequentem o ensino médio. Recentemente, ele perdeu o emprego de taxista e disse que não teria dinheiro para pagar pelo ensino delas. Mas ao ver Jennifer mexendo no celular ou passando o tempo com outros estudantes que aguardam sua vez, ficou preocupado. Para pais como ele, que não têm condições de pagar por aulas particulares, o sistema ainda mantém o abismo entre ricos e pobres.

"Esse sistema não está ajudando", disse ele. "Eles tendem a esquecer o que já aprenderam". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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