AFP PHOTO / Hamza Al-Ajweh
AFP PHOTO / Hamza Al-Ajweh

Em meio a bombardeios, crianças sírias se distraem com brinquedos

Escondidas em porões e túneis úmidos, crianças nascidas durante a guerra encontram conforto em bonecas e bichos de pelúcia

Megan Specia e Hwaida Saad, The New York Times

08 Março 2018 | 15h00

Os ataques aéreos não dão trégua em um bairro de Damasco, na parte leste de Ghouta, onde esqueletos de edifícios bombardeados se erguem em ruas fantasmagóricas.

Centenas de vidas foram perdidas desde o início do cerco, em meados de fevereiro. Muitas crianças estão entre os mortos.

O cerco foi considerado “uma das hecatombes mais cruéis desta guerra civil longa e brutal” pelo representante da Comissão de Direitos Humanos da ONU, Zeid Ra’ad al-Hussein.

As famílias buscaram refúgio em porões e túneis úmidos, carregando pequenos fogões, farinha e roupas quentes. As crianças, nascidas nesta guerra, trazem o que elas amam, os seus brinquedos.

Maya, 5, trouxe suas bonecas e seu gato de pelúcia, Tiki. Outros trouxeram blocos de madeira, jogos de mesa e carrinhos, e brincam enquanto os adultos recolhem madeira para queimar. Estas são as histórias de crianças que driblaram a morte, contadas em parte através do que elas puderam carregar para os abrigos, descritas por seus pais por telefone e mensagens em aplicativos.

Maya agarrava as suas bonecas, os olhos fixos nos seus rostos. A mãe, Nivin Hotary, tirou uma foto. “Cada boneca tem um nome e ela ama todas”, disse Nivin, 38. “Quando pedi a ela que as deixasse em casa, ela se recusou e insistiu para trazê-las conosco no porão”.

Maya nasceu dois anos depois do início da guerra, seus dias foram definidos pelo conflito que se desenrola. Sentada sobre um acolchoado que a isola do frio do piso de concreto, Maya preparava o “jantar” com suas panelinhas de plástico.

“Talvez esteja tentando compensar as privações que está vivendo dando para os outros”, escreve Nivin.

Em um porão do outro lado da cidade, Ahmad, 2 anos, chorava e pedia à mãe que buscasse os seus carrinhos em casa.

Há dias, a mãe, Maram, 24, não consegue pegá-los porque corre risco de morte. Maram, que não quis ser identificada, disse que, no começo, não pensou em levar os carrinhos: com 150 pessoas compartilhando o espaço sem janelas, ela imaginou que não haveria tempo nem espaço para brinquedos. Mas os seus filhos estavam ficando inquietos.

Além disso, Omar, o filho de Maram de oito meses, estava irritado. Estava nascendo o seu primeiro dente ali, no abrigo, notou a mãe.

Depois de mais de uma semana no subterrâneo, os ataques aéreos pararam e Maram fez questão de buscar os brinquedos.

Uma bomba havia despedaçado as janelas da sua casa e danificado as portas. Porém, ela encontrou os carrinhos, roupa limpa para os dois meninos e um analgésico para Omar, por causa dos dentes que estavam nascendo.

Mas dentes que nascem e brinquedos são as suas menores preocupações. Como alimentar as crianças?

“Não sei o que posso dar para ele, não temos vitaminas nem comida boa”, afirmou.

Há pouco tempo, Marwan Habaq e sua filha de seis meses, Yasmina, passavam horas olhando o peixinho dourado nadando em um tanque em casa. Yasmina adorava o seu brinquedo de pelúcia, um zangão vermelho que o pai comprara para ela.

“Em geral, os bebês reagem a coisas coloridas, como Yasmina”, ele disse.

Quando os ataques aéreos se intensificaram, Habaq e a esposa pegaram a filha e fugiram para o subterrâneo, deixando o aquário e o zangão no andar de cima.

No dia 23 de fevereiro, sua casa foi bombardeada. A voz dele ficou embargada ao descrever a destruição.

“Cada canto da casa era precioso para mim, mas as coisas de Yasmina eram mais preciosas ainda”, disse Habaq. Ele encontrou o zangão, meio chamuscado.

Quanto ao aquário: “Só encontrei um peixe queimado no meio dos destroços, o resto virou cinzas”.

Mais conteúdo sobre:
criançaSíria [Ásia]brinquedo

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.