Caitlin O’Hara para The New York Times
Caitlin O’Hara para The New York Times

Em meio a testes, empresas buscam uso prático para veículos autônomos

Serviços autônomos para passageiros demorarão dez anos, diz diretor da Kodiak Robotics

Cade Metz, The New York Times

01 de janeiro de 2019 | 06h00

SCOTTSDALE, ARIZONA - Recentemente, na cidade de Scottsdale, no deserto do Arizona, um pequeno carro robótico virou numa rua e parou diante de uma casa. Com menos da metade do tamanho de um Volkswagen, o veículo não tinha motorista e nem passageiros. Mas transportava seis pacotes da Fry’s Food Store.

Projetado por uma start-up chamada Nuro, o veículo estava sendo testado em parceria com a Fry’s para um serviço autônomo de entregas. Este mês, informou a Nuro, dois destes pequenos carros elétricos começaram a percorrer as ruas a uma velocidade não superior aos 40 quilômetros horários para entregar mantimentos nas casas da vizinhança.

Pareceria um pouco ridículo, porque o veiculo autônomo é ainda uma tecnologia em busca de uma utilização. Como os serviços sem motoristas oferecidos por empresas como Waymo, Uber e General Motors estão demorando a se tornar uma realidade, a indústria de veículos autônomos busca empregos práticos.

Outras start-ups decidiram retirar a tecnologia sem motorista das estradas e levá-la para as calçadas, evitando os riscos do trânsito. (Mas aqui também há obstáculos na questão da legislação.) Em dezembro, a Postmates, uma start-up de entregas de San Francisco, anunciou o seu plano de operar com um serviço que emprega um carro robótico para fazer compras que se desloca pelas calçadas. Outras companhias estão de olho no transporte de caminhão em longas distâncias, em que veículos sem motorista transportariam produtos, mas não passageiros.

“Depois, talvez, de procurarem abocanhar mais do que podiam, agora as pessoas estão se concentrando em uma parte específica do problema com a qual podem realmente ganhar dinheiro”, disse Tarin Ziyaee, que trabalha na área de tecnologias autônomas na Apple e recentemente saiu da Voyage, uma empresa que está levando os carros autônomos para comunidades de aposentados.

Os veículos sem motorista ainda estão distantes três ou quatro anos do ponto em que poderão realizar viagens regulares sem motoristas de segurança, disse Don Burnette, diretor executivo e fundador da companhia de transportes por caminhão sem motoristas, Kodiak Robotics. Os serviços autônomos para passageiros, acrescentou, provavelmente demorarão ainda dez anos.

“Quanto mais as pessoas trabalham no transporte urbano autônomo, mais elas se dão conta de que ainda há um longo caminho pela frente”, observou. A Nuro foi fundada em 2016 por Dave Ferguson e Jiajun Zhu, dois engenheiros fundamentais do projeto autônomo da Google, que acabou se tornando a Waymo. (Ambos têm a mesma controladora, a Alphabet.) A Nuro, baseada na Califórnia, captou 92 milhões de dólares em recursos, e decidiu concentrar-se na criação de pequenos veículos autônomos - com 2,65 metros de comprimento por 1,10 metro de largura e 1,80 de altura - que farão exclusivamente entregas locais.

Ferguson disse que existe a oportunidade para automatizar todas as viagens que os americanos fazem até as lojas para comprar bens e serviços - por exemplo, fazer compras em mercearias e buscar a roupa na lavanderia - e citou estatísticas segundo as quais estas constituem a parte mais significativa de todas as viagens de carro. “Se pudermos reduzir o custo destas entregas e fazê-las com maior rapidez do que qualquer um de nós poderia fazer não haverá motivo para se pegar o carro”.

Embora o final do jogo não esteja absolutamente perto da realidade, segundo Ferguson está mais próximo dos serviços autônomos de passageiros. Isto é porque a Nuro não precisa se preocupar com o conforto e a segurança dos passageiros. Por outro lado, fabricar veículos menores do que os carros normais para fazer entregas, também poderá aumentar a margem de erro nas estradas. “Há uma diferença qualitativa quando você não precisa se preocupar com os passageiros”, afirmou.

A Nuro disse que uma entrega por um dos seus mini veículos autônomos custa 6 dólares. Quando conseguir dispensar a maior parte do trabalho humano nas entregas, afirmou Ferguson, a companhia poderá reduzir ainda mais os custos e atender pessoas que hoje não têm condições de solicitar entregas.

Mesmo assim, não se sabe ao certo qual será a demanda para este serviço. Joe Scott, 60, que viu o carro recentemente, disse que seria ideal para a sua irmã, que não pode andar. “É muito difícil para ela buscar mantimentos com o carro”, afirmou. Mas Keri Diggins, 45, que faz compras na Fry’s, questionou até que ponto o serviço será útil para os idosos ou os que têm dificuldades físicas. “Um carro não pode levar a comida até a sua porta”, ela ponderou.

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