Emily Kask / The New York Times
Emily Kask / The New York Times

Em ritmo de jazz, Nova Orleans dá adeus à chef Leah Chase

No funeral da famosa chef creole, que morreu aos 96 anos, músicas alegres e danças catárticas escantearam qualquer tom fúnebre  

Richard  Fausset, The New York Times

27 de junho de 2019 | 06h01

Quando Leah Chase, a famosa chef creole, morreu no dia 1.º de junho, aos 96 anos, indubitavelmente Nova Orleans lhe diria adeus com um funeral ao som do jazz, segundo o ritual mais emblemático da cidade. Este tipo de funeral com uma banda de metais permanece como um ritual poderosamente transcendente, e é a cerimônia preferida da população negra de Nova Orleans em homenagem aos seus mortos mais reverenciados. E poucos o foram mais do que Leah Chase.

Na tarde de 10 de junho, quando o seu caixão saiu carregado da Igreja católica de São Pedro Claver, centenas de pessoas estavam reunidas ali para se despedirem dela. O funeral com a banda de jazz data do fim do século 19. Assim como a cozinha creole de Leah, o ritual sobreviveu graças à fusão da tradição com a mudança.

É também uma celebração do ressurgimento. Pausados cantos fúnebres dão lugar a músicas alegres aceleradas e a danças catárticas, enquanto o corpo se desprende e a alma ascende aos céus. A reabertura do Dooky’s Chase, o restaurante da família Chase, em 2007, depois da inundação provocada pelo Furacão Katrina, foi um momento marcante  no vagaroso renascimento da cidade. O restaurante costumava ser um ponto de encontro dos líderes nacionais do movimento pelos direitos civis. E o funeral quis homenagear uma compatriota, chef, empresária, uma personagem heroica.

O seu caixão foi colocado no carro fúnebre, e a multidão formou o cortejo. A Original Royal Players Brass Band, em trajes de luto com capas e tudo, tocou o hino Savior, Lead Me Lest I Stray, lento e triste.

A multidão seguia atrás da banda, a segunda linha, era uma mescla de raças e de idades, algumas pessoas em trajes de luto, outras totalmente à vontade. Havia os Mardi Gras Indians, figuras tradicionais em trajes comuns, e outros vestindo seus costumes alegres, enfeitados de miçangas. As Baby Dolls igualmente tradicionais acompanhavam o cortejo movendo-se ao som da música.

Logo a banda  mudou o ritmo, atacando o ruidoso Over in the Glory Land, outro hino alegre, brilhante. Depois de Katrina, temeu-se que as tradições afro-americanas de Nova Orleans - seus funerais, suas Baby Dolls, seus Mardi Gras Indians - desaparecessem, porque os moradores da cidade foram obrigados a se espalhar pelo país. Mas as tradições sobreviveram, em alguns casos mais fortes do que nunca. No entanto, há um novo temor de que possam sucumbir à pressão pela assimilação à nova sociedade e ao desaparecimento dos bairros tradicionalmente negros.

Há evidências de adaptação, e abordagens novas em formas atemporais. “Cada geração precisa definir isto, gente!”, afirmou Willie Birch, artista visual e amigo de Leah. “Tudo muda continuamente”. 

O antigo reinterpretado ficou evidente na presença marcante das Mystic Seven Sisters, vestidas com roupas brancas flutuantes e grandes turbantes que evocavam as antigas praticantes do Vudu. Há alguns anos, elas se limitam a desfilar pelas ruas. A parada andou até o restaurante, depois a família se separou do cortejo para sepultar Leah em uma cerimônia privada. Outros participantes subiram em ônibus fretados, com faixas que diziam “A última viagem de Leah rumo à liberdade” e dirigiram-se para o Museu de Arte de Nova Orleans, onde Leah ocupou o cargo de administradora.

A banda e os acompanhantes enlutados dançaram em volta do museu. Funcionários do Dooky Chase’s, o restaurante da família, serviram em seguida frango frito, feijão vermelho e arroz. A família de Leah abriria o restaurante para os clientes no dia seguinte. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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