Mohamed Sadek/The New York Times
Mohamed Sadek/The New York Times

Em seu recente espetáculo de dança, coreógrafo Jamar Roberts e bailarinos encontram linguagem comum

'Estava pensando muito em Balanchine', disse Roberts, coreógrafo residente de Ailey, que está fazendo seu primeiro trabalho para o New York City Ballet

Marina Harss, The New York Times - Life/Style

27 de fevereiro de 2022 | 05h00

NOVA YORK - Tanta coisa aconteceu desde a prometida estreia coreográfica de Jamar Roberts no New York City Ballet, em maio de 2020. Antes mesmo de entrar no estúdio com os bailarinos, a pandemia fechou tudo. Então veio um período nacional de exame de consciência em torno da questão racial provocada pelo assassinato de George Floyd.

Para completar, em dezembro, aos 39 anos, Roberts se aposentou das apresentações no Alvin Ailey American Dance Theatre, onde é coreógrafo residente desde 2019. Não é de admirar que seu balé há muito adiado tenha pouca semelhança com o que ele havia planejado originalmente.

“A primeira música que eu escolhi” - do compositor de música ambiente Kyle Preston - “era uma espécie de desgraça e melancolia, e a peça era basicamente sobre o fim do mundo. Eu apenas pensei, não posso fazer isso ”, disse Roberts em uma conversa pelo Zoom. “Estamos nisso há tanto tempo, eu queria fazer algo que realmente nos tirasse disso.”

Em entrevista por telefone, Jonathan Stafford, diretor artístico do City Ballet, disse que ficou impressionado com a beleza do movimento de Roberts. “Suas obras são musicais e interessantes em sua estrutura”, disse Stafford, “mas são simplesmente lindas”.

E Roberts é um coreógrafo muito mais experiente do que era há dois anos, alguém que aprendeu a se adaptar às circunstâncias. À medida que estúdios e teatros começaram a fechar, ele passou a criar trabalhos para a câmera. Seu solo Cooped, criado isoladamente e filmado em um iPad para a série Works & Process no Guggenheim, foi amplamente admirado como uma evocação da claustrofobia e alienação causada pela pandemia.

Ele fez solos virtuais, lidando com a identidade negra para o Fall for Dance, o Center for Ballet and the Arts e o March on Washington Film Festival, bem como trabalhos em conjunto maiores para o Vail Dance Festival e Ailey. (Um deles, Holding Space, foi apresentado ao vivo durante a temporada de inverno de Ailey no City Center, interrompida pela onda da variante Ômicron.)

Assim, ao abordar seu projeto para o City Ballet em novembro, seu primeiro balé para uma grande companhia, ele chegou em um estado de espírito diferente, talvez mais pragmático. “Eu comecei a pensar sobre quais são meus pontos fortes como coreógrafo e quais são as coisas que eu geralmente gosto”, ele disse. “E eu senti que a música era uma dessas coisas.” Sua nova peça, Emanon - em Dois Movimentos, tem duas seleções, Pegasus e Prometheus Unbound, do álbum Emanon de Wayne Shorter (2018).

“Sinto que abrange toda a vida”, disse Roberts sobre a música, para quarteto de jazz e orquestra. (O balé será acompanhado pela gravação original.) “Há tristeza, romance, ferocidade e solidão. A peça está constantemente mudando de tom ao longo de seus 24 minutos.”

A dança que emergiu corresponde ao alcance e ao impulso da música. Os bailarinos devoram o espaço, deslizando, curvando-se e desequilibrando-se sem medo. Às vezes, eles parecem mal tocar o chão.

Roberts não facilitou as coisas para seu elenco de oito pessoas (quatro homens e quatro mulheres), que inclui os bailarinos principais recentemente promovidos Indiana Woodward e Unity Phelan, bem como os membros do corpo de balé Jonathan Fahoury e Emma Von Enck.

Nesta peça, Roberts está fazendo pleno uso do vocabulário do balé: arabescos, saltos em que as pernas batem juntas no ar, o tamborilar das sapatilhas de ponta deslizando pelo palco. Mais especificamente, ele está explorando qualidades pelas quais o City Ballet é conhecido: velocidade, acuidade musical, nitidez de execução.

“É muito claro e preciso e, na verdade, muito técnico”, disse Phelan. “De certa forma, é muito Balanchine.” Ela estava se referindo a George Balanchine, o coreógrafo que fundou o New York City Ballet, moldando-o em torno de seu estilo ágil, claro e nada sentimental.

Quando Roberts chegou para coreografar os bailarinos do City Ballet, sua familiaridade com o estilo da companhia ajudou a criar uma linguagem comum e um senso de reconhecimento. Mas tanto Roberts quanto os bailarinos tiveram que ir além do que sabiam.

Para os bailarinos, tratava-se de usar o corpo de uma forma mais solta, mais 3D, o que significava abrir mão, até certo ponto, de seu perfeccionismo. “Eu perguntaria ao Jamar: meus joelhos estão retos, minhas pernas estão cruzadas, estou sendo levantada no lugar certo?” Phelan disse: "e ele dizia: 'Tudo o que me importa é que seu corpo esteja na música e pareça confortável e divertido'".

Para Roberts, o desafio estava em explorar a dinâmica do trabalho com a ponta, não uma habilidade que ele encontra em seu trabalho diário. (Muito de sua experiência envolve dançar descalço e coreografar para bailarinos descalços.) Dançar na ponta não apenas muda o alcance e a amplitude de movimento do corpo, mas também requer um senso diferente de tempo.

“Achei que seria mais fácil”, disse Roberts, “mas, na verdade, há um tempo de execução que eu nunca tive que considerar antes. Leva um certo tempo para alguém ir de plié”, em que o corpo desce sobre as pernas dobradas, “para o passé relevé”, em que o corpo sobe em uma ponta com o outro pé levantado até o joelho. Para alguém com inclinação musical como Roberts, esses pequenos ajustes são importantes.

Depois de contabilizar essas mudanças, ele disse, o que mais lhe interessava era encorajar os bailarinos a se permitirem mais liberdade e individualidade em sua resposta à música de Shorter. Como ele disse, sua própria assinatura coreográfica estava “muito em segundo plano”. Ele estava mais interessado em ver o que eles eram capazes do que impor seu próprio vocabulário de movimento.

Com seus humores contrastantes e a paleta fluida de cores criada pelo cenógrafo e designer de iluminação Brandon Stirling Baker e pela figurinista Jermaine Terry, o balé reflete as mudanças de humor na música de Shorter. Como disse Roberts, ele pretendia levar o público e os bailarinos a um lugar diferente e mais profundo. “A arte tem essa maneira de realmente mudar sua vida pelos 20, 15 ou 10 minutos em que você a assiste”, ele disse. “E agora, isso é muito importante para mim.”

A outra coisa que importava para ele, disse, era muito simples: homenagear os bailarinos. Tendo acabado de se aposentar, ele sabe exatamente como eles se sentem neste momento de incerteza, depois de meses ensaiando em suas cozinhas, depois retornando ao estúdio, apenas para serem mandados para casa novamente por causa da chegada de um novo surto de covid.

“Com tudo o que eles passaram”, ele disse, “só de ver os bailarinos aqui parece realmente triunfante”. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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