Daro Sulakauri para The New York Times
Daro Sulakauri para The New York Times

Em sua cidade natal, Stalin é um herói, não um vilão

Inaugurado em 1957, museu está repleto de quadros, fotografias e objetos pessoais

David Segal, The New York Times

03 de julho de 2019 | 06h00

GORI, GEÓRGIA - Estes são alguns dos fatos sobre os quais os turistas são informados em uma visita guiada no Museu Stalin em Gori, a pequena cidade georgiana onde nasceu o antigo líder soviético. ‘Joseph Stalin foi um bom cantor. Escreveu poemas. Durante o seu reinado, foram criadas nove mil empresas estatais.’

Inaugurado em 1957, quatro anos depois da morte de Stalin, o museu está repleto de quadros, fotografias e objetos pessoais. O tom é de admiração, a história é comovente e fala do pobre garoto que, contra todas as probabilidades e apesar das inúmeras condenações cumpridas em prisões czaristas, chegou ao ápice do poder. Os pisos são acarpetados de vermelho. 

A máscara mortuária de Stalin repousa sobre um pedestal de mármore, como um líder amado, no seu monumento definitivo. Espremida entre a Rússia e a Turquia, a Georgia é um pequeno país com uma culinária fabulosa, paisagens maravilhosas - e escassas atrações turísticas famosas. Uma das poucas, infelizmente, é o homem nascido Ioseb Besarionis dze Jughashvili, filho de um sapateiro, que se tornou um dos maiores criminosos da humanidade.

De fato, é um dilema para as autoridades georgianas. Como é possível que um país venda ao resto do mundo um monstro nascido no seu território? Em parte a resposta está no que a excursão não mostra. Não há nenhuma referência ao gulag, aos campos de escravos e às prisões que ceifaram mais de um milhão de vidas. Nem um vislumbre do Grande Terror, a campanha de expurgos de Stalin e as execuções realizadas nos anos 1930.

Há uma referência rápida à coletivização das fazendas soviéticas, que levaram à morte por inanição cerca de quatro milhões de ucranianos. Entretanto, se nós nunca tivéssemos ouvido falar desta atrocidade, poderíamos pensar que o seu sucesso foi obtido por muito trabalho, apenas ofuscado por alguns deslizes. “Muitos erros foram cometidos na União Soviética durante a coletivização”, disse um guia, seguindo adiante rapidamente. “Não obstante, foram criadas fazendas coletivas”.

Stalin permanece uma grande inspiração, particularmente entre os chineses e os russos. No ano passado, 162 mil pessoas, aproximadamente, visitaram o Museu de Stalin, segundo Taia Chubinidze, uma funcionária do museu. “Mais do que qualquer outro museu do país”, ela acrescentou sorrindo de satisfação. Stalin inspira profundas emoções na Georgia. Particularmente em Gori, onde muitos, principalmente os mais velhos, o reverenciam como o homem que construiu um império e derrotou os nazistas na Segunda Guerra Mundial.

“Ele foi um gênio”, declarou um admirador. Para muitos georgianos mais jovens, visões pró-Stalin como esta são preocupantes. Stalin vitimizou este país por dezenas de anos. Mais de 400 mil georgianos foram deportados no meio tempo, a maioria, fuzilada. Décadas depois que o governo stalinista acabou, a Rússia mantém aqui uma presença nefasta.

Em 2008, Gori foi uma das cidades russas bombardeada e ocupada durante uma breve e desastrosa guerra que deixou 20% do país - mas não Gori - nas mãos da Rússia. Muitos dos moradores aparentemente não se importam. O que importa é que Stalin proporciona o ingresso de muitos lari, a moeda georgiana.

Em frente ao museu, há uma coleção de lojas de souvenirs, que vendem tchotchkes com a imagem de Stalin - pratos, canecas, bustos em miniatura, sacolas e pesos para papéis. Joshen Dieckmann, um visitante alemão, não ficou impressionado com a apresentação. “Aqui ele é um herói!”, afirmou, abanando a cabeça. “Eles não entendem que Stalin mandou toda essa gente para o gulag e a exterminou”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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