Daniel Dorsa/The New York Times
Daniel Dorsa/The New York Times

'Em um Bairro de Nova York' se equilibra entre fantasia e realidade

A equipe criativa de Lin-Manuel Miranda, Quiara Alegría Hudes e Jon M. Chu explicam o que foi preciso para criar um espetáculo eufórico que se mantivesse fiel às suas raízes culturais

Carlos Aguilar/The New York Times-Life/Style, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2021 | 05h00

Lin-Manuel Miranda ainda acredita que foi um milagre que Em um Bairro de Nova York, homenagem musical à cultura latina da perspectiva do bairro de Washington Heights, em Nova York, tenha chegado à Broadway. Em 2008, antes que a luta pela inclusão se tornasse o padrão da indústria do entretenimento, ele e a dramaturga Quiara Alegría Hudes eram desconhecidos tentando emplacar uma narrativa alegre sobre pessoas invisíveis.

O espetáculo exuberante, inspirado na família deles e em vizinhos, finalmente alcançou a telona (e a HBO Max), depois de ter passado por vários estúdios. A Warner Bros. e o diretor Jon Chu (Podres de Ricos) foram os responsáveis pelo projeto.

Miranda disse que foi ingênuo pensar que seria fácil levar o espetáculo dos palcos da Broadway para as salas de cinema. Demorou mais de uma década. "Alguns dos obstáculos estavam relacionados à falta de vontade de Hollywood em se arriscar com novos talentos e investir nisso. Quando você assiste ao filme, que Jon dirigiu tão lindamente, vê uma tela cheia de estrelas de cinema, mas talvez você não tivesse ouvido falar de algumas delas antes. Eram estrelas de cinema sem os papéis de que precisavam para se tornarem estrelas de cinema".

O filme apresenta um elenco de talentos em ascensão e experientes, incluindo Anthony Ramos no papel de um dono de bar que sonha em retornar à República Dominicana, Melissa Barrera como uma aspirante à estilista e Leslie Grace no papel de uma estudante da Universidade de Stanford em dificuldades. Foi filmado no bairro, com toda a pompa que um orçamento de US$ 55 milhões pode alcançar. Para Miranda, infelizmente o espetáculo e agora o filme continuam sendo um ponto fora da curva. Ele espera pelo dia em que Em um Bairro de Nova York não precise mais "carregar o peso da representatividade" à medida que mais produções de seu tamanho e de sua relevância cultural recebam apoio e exposição iguais.

Em uma recente videochamada com Miranda, Hudes e Chu, as três mentes criativas conversaram sobre o espetáculo animado com comentários sociais incisivos sobre imigração, assimilação e gentrificação. A seguir, trechos editados da conversa.

Nesse processo de adaptação, foi muito difícil abrir mão de canções, eliminar personagens e mudar alguns elementos da estrutura da história para que ela funcionasse como filme?

Quiara Alegría Hudes: Eu sabia que teríamos de fazer alguns cortes para diminuir o tamanho e aumentar o foco. Amo todos os personagens e todas as canções, por isso foi difícil. Mas essas músicas viajaram pelo mundo, e já passaram por apresentações em colégios, teatros profissionais e teatros comunitários. Tiveram uma vida independente do filme. Isso me liberou para dizer: "Vou tentar acrescentar algo novo à experiência deles."

Lin-Manuel Miranda: Do ponto de vista musical, todas as canções aparecem no filme, mas podem estar na trilha de fundo, como "Sunrise". Na mesma linha das atualizações muito inteligentes feitas por Quiara, colocamos no filme cada pedacinho das músicas que as pessoas amam no espetáculo, de uma forma ou de outra.

Jon, fale sobre como foi entrar nesse mundo que já teve uma história.

Jon Chu: Entrei nisso de maneira um pouco bombástica, mais ou menos assim: "Ei, não desenvolvo filmes. Posso ajudar a fazer esse filme." Mas o que eles criaram não é só um espetáculo. É uma força vital. Eles me disseram: "Aguente firme e confie na gente." Aceitei isso com cautela e passamos por muitos obstáculos e dificuldades no caminho, mas chegamos lá. Sempre que havia um conflito, eles pensavam: "Vamos encontrar o caminho." Então a pandemia chegou e pensei: "Vocês não estavam de brincadeira." Quem diria que estaríamos prontos justamente no momento em que o mundo começa a se abrir novamente. As pessoas de Em um Bairro de Nova York lutam pelas coisas, estão lá umas para as outras, e também são elas que vão mostrar ao mundo como voltar a se erguer. Essa força vital encontrou um lugar perfeito.

Miranda: Jon também assimilou a experiência de ser filho de primeira geração de imigrantes e ter pais que fizeram um milagre, abrindo um caminho que não existia até então. Eu sabia que seria valioso trazer isso para nosso espetáculo.

Havia alguma parte que vocês consideravam fundamental e não aceitavam tirar do filme?

Hudes: Em certo momento, por várias razões artísticas ou de orçamento, muitas partes da história corriam grande risco de ser cortadas. Precisamos argumentar muito bem para explicar por que o filme precisava delas. Como o vendedor de piragua [sobremesa gelada ao estilo porto-riquenho] é um personagem periférico, a certa altura a música "Piragua" estava a ponto de ser cortada. Tentei falar com Lin suavemente sobre isso. Ele ficou realmente com o coração partido, e pensei: "Tenho uma ideia de como o estúdio nos deixaria manter essa música." Então eu o convidei para interpretar o vendedor e foi assim que a música ficou no filme.

Lin, por que você sentiu que o vendedor de raspadinha era tão importante para a história?

Miranda: Essa talvez seja a música que escrevi mais depressa, embora eu não saiba se sou mesmo o autor. Acho que acabei de perceber. A metáfora de todo o musical está nessa música. O vendedor de piragua é a síntese de todos os personagens do filme. Eles estão dando seu melhor, por mais improvável que possa ser. Respiram, depois continuam caminhando. É uma música de um minuto e 45 segundos, mas de alguma forma o DNA de toda a obra está nesse um minuto e 45 segundos.

Fiquei muito orgulhoso por aquilo ter ficado. Foi uma homenagem a meu avô. Ele faleceu uma semana depois da estreia de Em um Bairro de Nova York na Broadway. Foi o único membro da minha família que não viu tudo o que aconteceu depois daquela noite de estreia. Por isso, ando com seus espejuelos [óculos de leitura] pendurados no pescoço, estou com as meias esticadas e uso o mesmo tipo de camisa que ele costumava vestir. Realmente, estou fazendo cosplay do meu abuelo (avô).

O conceito de sonho, ou sueñito, é diferente para cada personagem. O musical parece dizer que você pode realizar seus desejos sem deixar de ser quem é em favor da assimilação. É uma noção profunda para os imigrantes e seus filhos.

Miranda: É tão simples e tão complicado. Você está falando com autores de primeira geração cujos pais nasceram na ilha de Porto Rico. Você cresce assistindo De Caso com o Acaso e pensando: "E se eles tivessem ficado? Quem eu seria se crescesse em Vega Alta, Porto Rico?" Lutamos para poder dizer: "Posso aceitar o sacrifício dos meus ancestrais. Posso aceitar a responsabilidade que me deram e, ainda assim, encontrar meu caminho no mundo." Não é algo excludente. Não preciso dizer que eles devem se esquecer dos seus sonhos, porque os sonhos agora são meus. O importante é pensar: "Aceito a incrível jornada que vocês tiveram de percorrer para que eu estivesse aqui e, ainda assim, meu trabalho é trilhar um caminho próprio no mundo e definir meu lar pelo que ele é para mim."

Hudes: Às vezes, a cultura de massa americana se concentra demais no individualismo em detrimento do cuidado e da experiência da comunidade. Mas o outro lado da moeda não é necessariamente melhor. O foco excessivo na responsabilidade da comunidade pode ser sufocante e você terá dificuldade em encontrar seu caminho individual. Os personagens desse filme estão em busca desse equilíbrio. Encontrar o equilíbrio entre os sonhos individuais e os sonhos conjuntos da comunidade é o caminho da trama de Em um Bairro de Nova York. Eu me identifico com isso de forma muito pessoal. Esse é o caminho que estou trilhando, também, para honrar minhas raízes culturais e usar essas coisas para encontrar novas maneiras de ser um indivíduo e respeitar meus desejos.

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