Bryan Denton para The New York Times
Bryan Denton para The New York Times

Em uma China remota, habitantes de cavernas mantêm estilo de vida

Autoridades alegam que as famílias não cuidaram da região, que está protegida por uma agência de turismo local, e oferecem US$ 9,5 mil para que os aldeões se mudem para projetos habitacionais, mas poucos aceitaram a oferta

Bryan Denton, The New York Times

24 Maio 2018 | 15h15

GEBENG, CHINA - Quando bandidos vagavam por este trecho remoto da província de Guizhou, sudoeste da China, nos caóticos anos que precederam a fundação do país moderno, os aldeões da etnia Miao se escondiam nas enormes cavernas da região.

E ali eles permaneceram, mesmo depois que a China foi unificada pelo governo comunista.

A área fica em uma das províncias mais pobres da China. O único elo com o mundo exterior passa por uma trilha pela montanha, uma difícil caminhada de uma hora por um vale íngreme, chegando a uma estrada próxima.

Mas, nos 20 anos mais recentes, as cavernas se tornaram menos reservadas por causa de um constante e crescente fluxo de turistas, que chegam para vivenciar o que a mídia local descreveu como a última caverna habitada continuamente na China.

Os moradores da caverna recebem dinheiro extra alugando quartos em seus lares, que, com o tempo, acabaram centrados na caverna Zhong, uma formação de calcário grande o bastante para abrigar quatro campos de futebol. A caverna é tão grande que as residências feitas de madeira ou bambu formam um vilarejo subterrâneo construído ao longo das paredes ondulada.

A caverna é preenchida com os sons de vacas e galos. Nas tardes de sexta feira, ecoa o riso das crianças e o ar frio e úmido se enche do aroma das fogueiras e panelas, em contraste com o calor do vale abaixo.

O governo do país quer que os moradores se mudem para um quarteirão habitacional nas proximidades: apartamentos de pé-direito baixo construídos há quase 10 anos.

As autoridades dizem que os moradores não tomaram conta da caverna, deixando-a em más condições para a habitação, sugerindo que o governo assuma o controle do vilarejo porque a comunidade está na lista das protegidas pela agência de turismo local Getu River Tourism Administration. Foi oferecido a cada morador a soma de 60 mil renminbi, ou aproximadamente US$ 9.500, para fazer a mudança.

Apenas cinco famílias aceitaram partir. As 18 famílias restantes insistiram em permanecer nos seus lares atuais.

Elas dizem que os novos apartamentos são pequenos demais, e temem perder o acesso a suas terras. Além disso, por seu elo histórico com a caverna, somente eles deveriam ter o direito de administrar com independência esta pequena economia turística.

“Os moradores dessa caverna deveriam ser os administradores do turismo local, independentemente de sermos remunerados", disse Wang Qiguo, líder do vilarejo local, que fundou o primeiro hostel no local.

Enquanto ele falava, sua mulher preparava uma série de pratos fumegantes feitos com porco defumado caseiro e verduras da região cultivadas no vale.

Até os moradores que pensam em se mudar parecem concordar que US$ 9.500 por pessoa é pouco dinheiro, especialmente porque muitos já têm idade avançada e não falam muito mandarim, o que significa que podem se sentir isolados se abandonarem a caverna. Eles ainda dependem de suas terras nas imediações para cultivar as verduras e milhete necessários para sua subsistência.

A maior mudança na história da caverna foi a introdução da eletricidade, que só chegou em 2002, graças a Frank Beddor Jr., um americano rico de Minnesota.

Beddor também construiu uma escola e um banheiro comunitário, além de trazer animais e outras formas de assistência.

Mas, em 2011, a escola foi fechada pelo governo local, obrigando os moradores a enviar seus filhos de até 5 anos para o internato da região, a cerca de 2 horas de distância.

Beddor morreu aos 83 em 2007. Seu elo emocional com o vilarejo ainda é um mistério para os moradores.

Wang Qicai, 39 anos, agricultor que também administra um mercado em seu lar na caverna, disse que os jovens podem se mudar e optar pela vida de trabalhadores imigrantes, mas muitos acabam voltando para constituir suas famílias. Ele disse que, na caverna, “nós nos sentimos em casa". E acrescentou, “O clima dentro da caverna é muito agradável. Parece que estamos no paraíso.”

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