Andrew Spear para The New York Times
Andrew Spear para The New York Times

Em uma reunião de ventríloquos, quem manda são os bonecos

A arte está voltando a cair no gosto do público após a vitória de uma menina de 13 anos em um reality show nos EUA

Elisabeth Vincentelli, The New York Times

12 Agosto 2018 | 10h45

ERLANGER, KENTUCKY - Há anos, o ventriloquismo é visto, na melhor das hipóteses, como uma coisa boba, sinistra. A arte também lembra os filmes de horror com um boneco assassino, ou um ventríloquo homicida ou ambas as coisas. Estamos longe da era de ouro dos anos 1930 e 1940, em que Edgar Bergen e seu boneco Charlie McCarthy eram tão amados que Bergen recebeu um prêmio honorário da Academia.

Mas o clima era de otimismo, no mês passado, entre os 525 presentes (todos pessoas) à Convenção Internacional de Ventríloquos de Vent Haven deste ano. Se a ventríloqua Darci Lynne Farmer, uma garota de 13 anos, pôde vencer a edição de 2017 do programa "America's Got Talent", talvez sua paixão tenha futuro. 

"A situação está um pouco melhor por causa de Darci", disse Daniel Jay Robinson, 57, de Warren, Ohio. "Agora, as crianças ao menos sabem o que é ventriloquismo".

Esta forma de arte, na realidade, não vai tão mal no campo do entretenimento hoje em dia. Jeff Dunham, cujos personagens populares são Peanuts, Bubba J e Achmed, o Terrorista Morto, já teve nove programas especiais na televisão. Seu nome está no Livro dos Recordes Guinness como o comediante que vendeu mais ingressos para um show de standup.

"Lembro da primeira vez em que vim à convenção, em 2009, despenquei no meu quarto e chorei por 10 minutos", contou Dirk Golden, 59, da Califórnia. "Não acreditei quando vi o povo na minha frente".

A reunião está ligada ao incrível Museu Vent Haven, na vizinha Fort Mitchell, onde estão 9 mil bonecos. A convenção anual é o evento mais importante, quando os "vents", como eles se apelidaram, falam de sua arte e mostram as respectivas habilidades em uma apresentação aberta. Dunham, que participou da primeira convenção, em 1975, quando tinha 13 anos, fez uma palestra sobre "o poder do que é engraçado", tema deste ano.

O ventriloquismo é, basicamente, uma dupla exibição em que uma única pessoa representa o homem como ele é e o homem engraçado - um retorno feliz em uma época em que as duplas cômicas saíram da cena do standup.

"Nós temos uma vantagem em relação ao stand-up - bom, talvez não uma vantagem, mas é certamente algo diferente -, porque podemos criar tudo aquilo sozinhos. Assim, fica muito mais interessante. Você é toda a sua comédia no palco", disse Dunham.

Com exceção de alguns corajosos artistas, como o boca-suja Otto Petersen, que morreu em 2014, o moderno ventriloquismo tem fama de ser um tanto conservador. Ao contrário da manipulação de bonecos e da mágica, o ventriloquismo não foi reavaliado nos modernos círculos teatrais, mesmo que alguns que o praticam queiram testar seus limites.

A convenção não esclareceu muito quais são os caminhos que o ventriloquismo poderia explorar. "Não poderia dizer qual seria o ventriloquista alternativo", comentou Dunham, "apenas a coisa interessante que virá. Talvez bonecos estranhos fazendo coisas estranhas. Essa é uma porta aberta para alguém".

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