Andre Penner/Associated Press
Andre Penner/Associated Press

Embora esquecido, o vírus Zika continua sendo uma ameaça

A doença causada pela fêmea do mosquito Aedes foi relacionada a graves defeitos de nascença em milhares de recém-nascidos brasileiros cujas mães foram infectadas na gravidez

Andrew Jacobs, The New York Times

10 de julho de 2019 | 06h00

SÃO PAULO - Enquanto o sarampo e o ebola dominam as manchetes, é fácil esquecer o pânico provocado pela ameaça do vírus Zika para a saúde, em 2016. A doença foi relacionada a graves defeitos de nascença em milhares de recém-nascidos brasileiros cujas mães foram infectadas na gravidez. As autoridades da saúde tiveram muita dificuldade para deter a epidemia, mas o vírus varreu a América Latina e o Caribe. Então, aparentemente, da noite para o dia, a epidemia desapareceu e a atenção do público se dispersou. Mas o Zika não desapareceu totalmente.

“O vírus Zika saiu completamente do radar, mas a falta da atenção da mídia não significa que ele tenha desaparecido”, disse Karin Nielson, pediatra especialista em moléstias infecciosas que estuda os efeitos do vírus no Brasil. “De certa forma, a situação é um pouco mais perigosa porque as pessoas não têm consciência dela”.

O vírus, que se propaga principalmente por meio de mosquitos, mas também por relações sexuais com uma pessoa infectada, ainda circula no Brasil e em outros países que estiveram no centro da epidemia, e, dois anos atrás, a mesma cepa proveniente das Américas chegou pela primeira vez ao continente africano.  Outra preocupação é em relação aos lugares em que o mosquito responsável pela propagação do vírus - a fêmea do Aedes - é endêmico, mas até o momento foram poupados de casos de Zika transmitidos localmente.

No início deste mês, a Organização Mundial da Saúde divulgou uma lista de 61 destes países, entre eles China, Egito e Paquistão, bem como grande parte da África. O Brasil continua vulnerável: as temperaturas mais amenas associadas à mudança climática deverão ampliar o alcance do Aedes, colocando em risco dezenas de milhões de outras pessoas. Embora até o momento o número de novos casos de Zika seja reduzido - no ano passado, foram registradas cerca de 20 mil pessoas infectadas no Brasil, comparadas a mais de 200 mil no pico da epidemia. Países como Angola, Tailândia, Vietnã e Cabo Verde informaram casos de microcefalia em recém-nascidos relacionados ao Zika, defeito que faz com que os bebês nasçam com a cabeça malformada e profundos danos neurológicos.

Os pesquisadores temem que o mundo esteja despreparado para o próximo surto. As condições fundamentais que permitiram a explosão da epidemia - bairros urbanos superpopulosos cujos moradores são demasiado pobres para poderem comprar repelentes de insetos ou telas para as janelas a fim de afastar os mosquitos - continuam sendo um problema na maior parte do mundo em desenvolvimento. O aedes criou uma preferência peculiar pelo sangue humano e se adaptou tão bem à vida urbana que pode proliferar rapidamente em tampinhas de garrafas viradas para cima e em outros resíduos, após a chuva.

As esperanças iniciais em uma vacina contra o Zika vírus também se frustraram. Embora estejam em estudo muitos tipos de vacinas potenciais, a redução da epidemia tornou difícil testar sua eficácia em campo. “Nós pensávamos que o Zika vírus fosse uma doença sem consequências, mas então ocorreu sua explosão no Brasil com efeitos devastadores”, lembrou Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional da Alergias e de Doenças Infecciosas dos Estados Unidos. “A principal lição para nós é que devemos sempre estar preparados para o surgimento e o ressurgimento de vírus e micróbios”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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