Rebecca Conway para The New York Times
Rebecca Conway para The New York Times

Emergentes são os que mais sentem o impacto da alta nos custos

Com o crescimento dos juros básicos americanos, países pobres sofrem com as consequências

Peter S. Goodman, The New York Times

01 de janeiro de 2019 | 06h00

KADI, ÍNDIA - Vikram Singh está acostumado com uma vida sob a tirania de elementos que ele não pode controlar, desde a chuva que demora a cair até os insetos que devoram sua colheita. Recentemente, sua família passou a ser afetada por um problema constante: a alta nos preços.

“Tudo aumentou", disse Singh recentemente enquanto os membros da família colhiam uma safra insuficiente de algodão em suas terras no estado indiano de Gujarat. Ele fez uma rápida lista dos artigos cujo preço aumentou: as lentilhas na qual a dieta da família se baseia; os bolos de óleo de algodão que ele usa para alimentar suas vacas leiteiras; fertilizante; óleo diesel para o trator; roupas; e a mensalidade da escola das quatro crianças.

Em todo esse país de mais de 1,3 bilhão de habitantes, como ocorre em muitos dos países em desenvolvimento, versões desse tipo de aflição estão piorando as perspectivas. O peso dos preços mais altos reflete uma mudança global de ânimo conforme o Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos - e, consequentemente, do mundo - eleva gradualmente sua taxa básica de juros, como ocorreu no dia 19 de dezembro.

Os investidores estão tirando seu dinheiro de países em desenvolvimento, onde o risco é mais alto, e transferindo-o para economias mais seguras e bem estabelecidas. Isso provocou uma desvalorização na moeda de países como Argentina, Turquia e Índia, tornando as mercadorias mais caras e aumentando as dívidas. “Os agricultores estão perdendo dinheiro", disse Singh. “Apenas conseguimos sobreviver. Estamos ganhando menos e gastando mais.”

Com o dinheiro abandonando os mercados emergentes, a atividade comercial está desacelerando, ampliando as preocupações com um retrocesso mais generalizado da economia global. Preocupações desse tipo têm agravado os problemas dos mercados de ações de todo o mundo, com os investidores se preparando para a probabilidade de tempos mais difíceis.

Quando os juros estavam muito próximos de zero, os investidores rodaram o mundo em busca de retornos maiores, fazendo apostas em países que apresentavam alto risco e prometiam grandes recompensas - entre eles a Índia -, sustentando assim o valor de suas moedas. Agora, com o Federal Reserve seguindo no rumo oposto, o dinheiro está voltando para os EUA, valorizando o dólar americano e provocando uma depressão nas moedas de muitos países emergentes.

No ano passado, investidores globais entregaram US$ 315 bilhões em capital novo para os mercados de obrigações e ações de economias emergentes, excluindo a China, de acordo com uma análise da Oxford Economics, de Londres. Este ano, o fluxo caiu para US$ 105 bilhões até outubro. Economias como Turquia, Argentina, Índia, Indonésia, Malásia, Tailândia e África do Sul tiveram declínios.

“Temos uma mistura perfeita de riscos para os mercados emergentes", disse Nafez Zouk, principal economista da Oxford para mercados emergentes. Na Turquia e na Argentina, uma desvalorização acentuada da moeda deixou empresas que se endividaram em dólares diante de montantes impossíveis. A Argentina foi obrigada a aceitar um resgate de US$ 50 bilhões oferecido pelo Fundo Monetário Internacional.

Na Índia, dados oficiais mostram uma expansão econômica da ordem de mais de 7% ao ano, embora o ritmo esteja desacelerando. A inflação, abaixo dos 4%, não é uma emergência a ser resolvida. Mas o país importa mais mercadorias do que exporta. Qualquer alta no custo, qualquer fator capaz de dissuadir as empresas de contratar representa um desgaste para a Índia, onde um quinto da população sobrevive com até US$ 1,90 por dia, de acordo com o Banco Mundial.

“A Índia é um país muito vulnerável às consequências do reajuste das taxas de juros globais", disse Joseph E. Stiglitz, que já foi economista-chefe do Banco Mundial. O país importa mais de 80% do seu petróleo. Embora o preço do barril do tipo Brent (padrão global) tenha caído recentemente, este valor aumentou mais de 100% desde o início de 2016.

O preço do petróleo é definido em dólares. Sua alta, somada a uma desvalorização de 10% da rúpia este ano, aumentou o custo de produtos derivados do petróleo usados na indústria indiana. São cada vez maiores as preocupações com o crescente endividamento enquanto o governo do primeiro-ministro Narendra Modi leva a cabo gastos destinados a conquistar o voto do povo antes das eleições no ano que vem. 

As preocupações são inspiradas por empréstimos ruins que estrangulam um sistema bancário dominado pelo governo, que confrontou o Banco Central da Índia, indicando que este deveria se desfazer de parte do seu dinheiro para financiar os gastos públicos. O drama teve o impacto de um ataque à independência do Banco Central, sensação ampliada pela recente renúncia do seu presidente, Urjit Patel.

Tudo isso levou os investidores a tirarem seu dinheiro da Índia, o que gerou uma desvalorização da rúpia. Numa concessionária da Mercedes no centro de Ahmedabad, onde o sedã mais barato é vendido a 35 milhões de rúpias (mais de US$ 486 mil), a equipe de vendas teme o efeito que o enfraquecimento da moeda indiana teve no preço dos veículos. Os modelos principais são importados da Alemanha.

A dois quarteirões dali, cerca de 600 pessoas vivem sem eletricidade em barracos feitos de madeira, chapas de plástico e alumínio corrugado. As mulheres lavam a louça com água trazida uma vez por dia por um caminhão-pipa municipal. Por falta de brinquedos, as crianças enterram gravetos na terra.

A maioria das famílias é de imigrantes vindos de vilarejos, que sobrevivem como catadores de lixo, ganhando menos de US$ 3 por dia enquanto percorrem as cidades em busca de materiais descartáveis que possam vender.

Laxman Gohel, 38 anos e pais de dois, poupou o bastante como catador de lixo e conseguiu abrir uma casa de chá. Ele ferve a água numa fogueira, e consegue cerca de 1,5 mil rúpias por dia (aproximadamente US$ 21) em vendas. Mas o preço do carvão usado por ele aumentou mais de 100% ao longo do ano, fazendo com que lhe restem até 300 rúpias de lucro diário. Ele não consegue repassar a alta nos custos. “Os clientes pobres não podem pagar mais", disse ele. 

Atravessando um beco, Shahbaz Ansari, 17 anos, trabalha meio período consertando pneus na borracharia de beira de estrada do pai. Está no último ano do ensino médio. Depois de se formar, ele se imagina trabalhando num escritório com ar-condicionado. Gohel riu. “Você tem dinheiro para pagar um suborno e conseguir seu emprego?” disse ele. “Ninguém arruma emprego depois de terminar o ensino médio.”

Até os filhos de lares de classe média estão preocupados com a falta de oportunidades. “A rúpia está se desvalorizando diariamente", disse o estudante de administração Vatsal Thakkar, 18 anos. “Os salários estão em queda e, por isso, estou pensando em ir para o Canadá.”

Ao noroeste de Ahmedabad, na cidade de Kadi, o destino da família Singh está ligado à sua terra. No ano passado, chuvas torrenciais destruíram sua safra de algodão. Este ano, uma infestação de insetos a reduziu pela metade.

Recentemente, a mulher de Singh, Sonal Ben, suportava o calor de 35°C colhendo o algodão dos pés. Singh vai usar seu trator para levar a colheita a um comerciante na cidade. O diesel que abastece o veículo teve alta de 20%. Mas, quando traz seu produto ao mercado, ele não consegue recuperar a diferença no custo. “São os comerciantes que decidem o preço", disse ele. “Não decido nada.”

Os comerciantes insistem que estão à mercê de forças globais, aceitando o preço das commodities conforme definido nos mercados globais de Nova York, São Paulo e outros. “No momento, estamos perdendo dinheiro", disse Prahlad Bhai Patel, dono de um engenho de algodão em Kadi.

Normalmente, a empresa de Patel vende metade da produção a fábricas domésticas de algodão, exportando a outra metade para China, Bangladesh, Vietnã e Paquistão. Ultimamente, ele apenas empilha os fardos, à espera de dias melhores. No momento, o valor das exportações é baixo demais para cobrir os custos, disse ele.

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