Beth Coller / The New York times
Beth Coller / The New York times

Em busca de energia limpa no furacão do aquecimento global

Empresas criaram a Iniciativa Climática do Petróleo e Gás para investir em tecnologias de baixas emissões de carbono e reduzir gás metano do efeito estufa

Stanley Reed, The New York Times

21 de outubro de 2019 | 06h00

Há 20 anos, John Browne chocou a indústria petrolífera afirmando que “não se pode descartar a possibilidade” de um elo entre as emissões de carbono produzidas pelo homem e o aquecimento global, e que estava na hora de “agir”. Em 1997, Browne, então diretor executivo da British Petroleum, a companhia petrolífera sediada em Londres, foi, na época, a voz única voz entre os seus pares.

A maioria das grandes petrolíferas já não nega a relação entre os combustíveis fósseis e a mudança climática. Na realidade, elas procuram posicionar-se a fim de serem vistas como parte da solução do que os cidadãos encaram como uma grave ameaça.

A Royal Dutch Shell, a petrolífera europeia, a Total da França e outras estão investindo consideráveis recursos em projetos de energia limpa. Várias delas criaram a Iniciativa Climática do Petróleo e Gás para investir em tecnologias de baixas emissões de carbono e reduzir o poderoso gás metano do efeito estufa.

As companhias tentam preparar-se para o que consideram uma grave ameaça aos seus negócios: as exigências da sociedade, principalmente na Europa, de uma redução substancial do consumo de gás e petróleo que constituem a própria vida destas organizações.

Entretanto, atualmente, está se queimando cerca de 33% a mais de petróleo do que no fim da década de 90, em grande parte por causa do aumento do número de consumidores em países como China e Índia que passaram a dirigir automóveis, a voar de avião e a comprar produtos de plástico fabricados a partir do petróleo.

Além disso, há um grande ceticismo do público quanto à eliminação gradativa de combustíveis como petróleo, gás e carvão em todo o mundo, como se exige para manter as temperaturas globais dentro de limites considerados seguros. “Seriam necessários trilhões de dólares” para substituir os atuais sistemas de fornecimento de energia por outros produzidos pelos ventos e pelo sol, afirmou Neil Beveridge, analista da Bernstein, empresa de pesquisa de Wall Street. E acrescentou que a indústria do petróleo e gás deverá ser rejeitada dentro em breve  pelos ambientalistas e por alguns investidores, embora seja, por outro lado, “essencial para o mundo continuar girando”, afirmou.

Energia limpa

A Shell montou então uma operação para a produção de eletricidade, adquirindo partes de uma pequena companhia britânica e uma start-up holandesa de veículos elétricos, e investiu em energia eólica em alto mar. Estes investimentos visam posicionar a Shell para uma nova era da energia ancorada em energia elétrica limpa para veículos e outros usos e não em combustíveis fosseis.

Aparentemente, a Shell decidiu deixar de ser uma empresa petrolífera. A americana Chevron não pensa assim. Ao que tudo indica, está preocupada em tornar as suas operações de petróleo e gás mais eficientes de modo a reduzir as suas emissões. A Chevron afirma que seria um erro obrigar companhias bem administradas a reduzir sua produção de petróleo e gás. Na realidade, elas poderão ser a razão para as mais eficientes aumentarem sua produção, embora cumprindo as metas da mudança climática, acrescentou a companhia.

Segundo os críticos, ainda que estas empresas estejam investindo em energia limpa, uma proporção muito maior dos seus gastos destina-se a projetos com petróleo e gás, causadores de emissões de gases do efeito estufa. “Ainda não vimos os seus investimentos corroborarem as suas afirmações e refletirem o reconhecimento de que terão de aderir à transição”, disse Fred Krupp, presidente do Environmental Defense Fund.

Valentina Kretzschcmer, analista da Wood Mackenzie, empresa de pesquisa de mercado, calculou que de 2016 a 2018 sete entre as maiores petrolíferas, como Shell e Exxon Mobil, gastaram US$ 5,8 bilhões na aquisição de energia alternativa, cerca de 5% dos seus desembolsos com acordos de petróleo e gás e em novas empresas. A Shell informou que planeja gastar US$ 2 bilhões ao ano no que chamou de investimentos em nova energia, uma soma pequena se comparada aos US$ 25 bilhões ou mais em gastos gerais de capital.

Por que somas relativamente tão insignificantes? Kretzschmar disse que as companhias ainda tateiam em um território que não é familiar para elas. Por outro lado, é cada vez maior o número de acionistas que hesitam investir em companhias petrolíferas, por desaprovarem o papel que os seus produtos exercem na mudança climática ou por temerem que o petróleo deixe de ser utilizado no futuro. Neste caso, as preciosas reservas de petróleo e gás cujos direitos as companhias detêm permaneceriam abandonadas no solo.

As companhias, entretanto, acreditam que afastarão alguns investidores e as suas ações despencarão se eles considerarem que o seu dinheiro está sendo desperdiçado ou for colocado em negócios que não produzem lucros satisfatórios e dinheiro vivo para pagarem polpudos dividendos. “Dificilmente, os acionistas aceitariam investimentos maiores”, ressaltou Kretzschmer. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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