Andrew Testa para The New York Times
Andrew Testa para The New York Times

Emoção com a chegada de uma duquesa negra na Inglaterra

Tshego Lengolo, 11, filha de uma sul-africana e moradora de um bairro majoritariamente negro de Londres, está animada com a entrada de Meghan Markle para a família real, principalmente pela identificação racial

Ellen Barry, The New York Times

17 Maio 2018 | 15h15

LONDRES – Qualquer pessoa que queira criticar a atriz americana por casar com um membro da família real britânica terá de lidar com Tshego Lengolo, uma menina de 11 anos, a mais recente monarquista.

Tshego mora no lado sudeste de Londres, com a mãe sul-africana, com a qual muitas vezes briga carinhosamente porque gostaria de ser chamada pelo nome do meio, Tiffany, menos africano.

Se Tshego neste verão se apaixonou pela realeza, é porque a noiva – Meghan Markle, ou Rachel Meghan Mountbatten-Windsor, depois que se casar com o príncipe Harry e se tornar duquesa – é de etnia mista, sendo filha de uma mulher sul-africana e de um homem branco. Quando ela olha para Meghan, Tshego vê uma versão de si mesma, recém-chegada à Inglaterra, tentando encontrar um lugar entre os códigos raciais do país.

O precedente aberto pelo casamento é minimizado. Os monarquistas brancos declaram que o racismo já não constitui um problema grave à sociedade britânica. Na opinião de muitos negros, por sua vez, o casamento real não passa de uma manobra diversionista para desviar as atenções do aumento da intolerância na Grã-Bretanha do Brexit.

Os cidadãos negros constituem 3% da população britânica, segundo o censo mais recente, de 2011, muitos deles enclausurados nos bairros da diáspora, como New Cross, onde mora Tshego.

Não muito longe da casa dela, há um monumento à divisão racial. Em 1981, a casa onde se realizava uma festa, em New Cross Road, acabou destruída por um incêndio no qual morreram 13 jovens negros. Um inquérito policial não levou a nenhuma conclusão e ninguém foi acusado, o que deu origem a tumultos populares.

Kemi Moore, 17, disse que a campanha de 2016  para a saída da União Europeia provocou o surgimento de sentimentos nacionalistas entre os britânicos  brancos.

“Isto traz de volta muitas coisas que considerávamos já superadas”, observou. Quanto ao casamento, ela simplesmente deu de ombros. “Ninguém da nova geração está preocupado com a família real”, disse. “Acho que é mais uma atração turística”.

Enquanto sua amiga fazia trancinhas no cabelo em um salão de beleza, Theresa Ikolodo, 45, gerente de escritório, disse: “É mais importante para a família real do que para nós. Realmente importante que eles tenham permitido isto“.

Mas Afua Hirsch, autora de “Brit(ish): On Race, Identity and Belonging” encontrou menos indiferença.

“Praticamente para todas as pessoas negras e mestiças que eu conheço este é o primeiro casamento real pelo qual se mostram pelo menos remotamente interessadas”, afirmou às vésperas do evento. “Até os republicanos. Eles não conseguem evitar. Inclusive contra seu julgamento mais racional, estão muito curiosos com o fato de que muita gente negra estará presente”.

Para Tshego, o casamento é algo emocionante. Ela mal pode esperar pelo primeiro filho do casal, porque a criança será em parte africana, como ela mesma.

“Não há nada que os racistas possam fazer”, comentou toda feliz. “Terão de se acostumar”.

A mãe de Tshego, Carol Lengolo, que cresceu na África do Sul, foi criada com o amor pelos reais ingleses.

“Vamos estar do lado dela”, afirmou. “Porque achamos que ela está sozinha. Ela precisa do apoio da gente, precisa que a gente diga: ‘Irmã, estamos aqui, você não está só. Nós estamos aqui. Vamos defender você”.

Tshego Lengolo fica irritada com qualquer crítica ao novo membro da família real.

“No começo, eu ficava furiosa: ‘Por que vocês criticam as mínimas coisas?’ ” “Quero dizer a ela: ‘Não deixe que a incomodem. Não deixem que atrapalhem o que você está fazendo’”.

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