Gianni Cipriano para The New York Times
Gianni Cipriano para The New York Times

Empreendedores temem pelo futuro da China

O pessimismo é tão forte que alguns chegam a comparar o potencial chinês ao da Venezuela

Li Yuan, The New York Times

01 de março de 2019 | 06h00

O empreendedor imobiliário chinês Chen Tianyong, de Xangai, embarcou num voo para Malta em janeiro, sem planos de voltar tão cedo. Depois de aterrissar, Chen, ex-juiz e advogado, compartilhou nas redes sociais um artigo de 28 páginas explicando seus motivos. "Por que deixei a China", dizia o título, que continuava, "A reprimenda de despedida de um empreendedor".

"A economia da China é como um imenso navio apontado para um precipício. Na ausência de mudanças fundamentais, o navio vai naufragar e os passageiros morrerão. Meus amigos, se puderem partir, preparem-se para fazê-lo o quanto antes", escreveu.

Não se sabe ao certo quantas pessoas viram o artigo antes que ele sumisse da internet chinesa, alvo de pesada censura. Mas Chen disse publicamente aquilo que muitos empresários da China dizem em particular: a liderança chinesa errou na administração da segunda maior economia do mundo, e a classe empreendedora da China está perdendo a confiança no futuro do país.

Por mais de uma geração, a China foi impulsionada por um otimismo para o qual o amanhã seria sempre melhor do que hoje, independentemente dos problemas atuais. Agora, a opinião majoritária pode ser resumida em um meme divulgado na internet por Wang Xing, fundador e diretor-executivo da Meituan Dianping, empresa online de entrega de alimentos. O meme mostra que 2019 pode ser o pior ano da década atual, mas será o melhor ano da década seguinte.

A economia da China está desacelerando, e a guerra comercial com os Estados Unidos abafou seu crescimento. Mas, de maneira geral, muitos empreendedores se mostram mais preocupados com a possibilidade de a China não implementar as reformas de abertura econômica e política de que necessita. Ao contrário, depois que Xi Jinping assumiu o controle do Partido Comunista em 2012, o partido ampliou seu domínio de cada aspecto da sociedade chinesa.

Poucos preveem uma quebra, mas cresce a preocupação com as perspectivas da China para o longo prazo. O pessimismo é tão forte, na verdade, que alguns comparam o futuro potencial da China ao de outro país onde o governo assumiu o controle da economia e não recuou mais: a Venezuela.

Apenas um terço dos chineses ricos se diz confiante nas perspectivas econômicas do país, de acordo com um levantamento recente com 465 participantes ricos realizado pela firma de pesquisas Hurun, com sede em Xangai. Dois anos atrás, quase dois terços se diziam muito confiantes nesse futuro. Aqueles que não acreditam nem um pouco no futuro da China chegaram a 14%, mais do que o dobro do número observado em 2018. Quase a metade deles disse pensar em imigrar para outro país, sendo que alguns já tinham iniciado o processo.

"A China enfrenta muitos desafios internos e externos no momento", disse Fred Hu, fundador da empresa de investimentos Primavera Capital Group. "Precisamos entender que todas as nossas realizações dos últimos 40 anos foram resultado da abertura e da reforma econômica, e não por causa de alguma característica única do modelo de desenvolvimento chinês".

Em particular, alguns empresários falam em termos mais agressivos e temerosos. Eles pediram que suas identidades não fossem reveladas.

"As causas mais importantes para o pessimismo deles são a má política e a má liderança", disse o professor Minxin Pei, da Universidade Claremont McKenna, na Califórnia. "Não estamos falando de um governo que respeita a lei. Tudo pode mudar de uma hora para a outra".

Muitos integrantes da elite empresarial estão insatisfeitos com as políticas econômicas da liderança, que favorecem as empresas estatais, mesmo sendo o setor privado o principal responsável pelo crescimento. Estão furiosos com a intenção do partido de vestir uma camisa de força ideológica digna da era de Mao em uma economia impulsionada pelos empreendimentos privados e jovens consumidores. Estão frustrados com o fato de o partido ter eliminado os limites à reeleição no ano passado, aumentando a possibilidade de Xi se tornar um presidente vitalício.

Os empresários sentem uma crescente insegurança, especialmente diante do "desaparecimento" de certos empreendedores nas mãos do governo como parte de campanhas de combate à corrupção.

Xi parece estar ciente da inquietação. Pequim adiou a adoção de novas regras que aumentariam os impostos para empresas com o objetivo de financiar benefícios sociais e relaxou suas políticas monetária e fiscal.

Ainda assim, o partido parece ter outras prioridades. Em seu discurso de dezembro celebrando os 40 anos da abertura da economia da China, Xi defendeu que não se deve desviar de sua receita de crescimento guiado sob a rigorosa tutela do Partido Comunista. Em outro discurso feito ao alto escalão do partido em janeiro, o líder chinês identificou sete grandes riscos à segurança nacional, lista encabeçada pela política e pela ideologia, pedindo um controle mais rigoroso dos jovens e da internet.

Executivos desiludidos afirmaram que um controle mais rigoroso do governo significa um aumento na burocracia e na sua interferência em questões de negócios, o que só faz a corrupção assumir novas formas.

Será possível deter esse processo? Alguns empresários se mostram pessimistas. Chen diz que a solução é ir embora. É impossível dizer quantos concordam com ele.

Mas o número de chineses se mudando para os Estados Unidos com vistos de investidor aumentou muito nos últimos anos. Dos cerca de 1 milhão de estudantes estrangeiros nos EUA, um terço é chinês.

Chen, agora com 53 anos, decidiu no início de 2013 que deveria procurar lugares para viver fora da China continental. A decisão foi motivada por uma diretriz do partido amplamente divulgada insistindo em uma ofensiva contra os valores e ideais políticos liberais.  "Foi um sinal aterrorizante", disse ele.

Primeiro ele obteve status de residência permanente em Hong Kong, região administrativa especial da China, mas as preocupações com a autonomia local aumentaram depois que Pequim reagiu com mão pesada aos protestos de 2014. Chen contou ter decidido se mudar para Malta por causa do clima quente, da bela paisagem e da participação na União Europeia, o que significa que ele poderia viajar para outros países do bloco.

Para ele, deixar a China é a melhor maneira de a classe empreendedora resistir ao governo comunista. Segundo Chen, eles podem voltar para casa quando as circunstâncias mudarem, como fizeram muitos chineses que viviam no exterior nos anos 1980 e 1990.

Chen ainda tem negócios na China, mas não pensa em administrá-los pessoalmente. Ele disse desejar apenas encontrar um lugar seguro para proteger a família de uma catástrofe que ele acredita estar no futuro da China a não ser que ocorra um milagre.

"Não imaginei que meu artigo teria um público tão amplo. Por enquanto, talvez seja melhor eu permanecer fora da China", disse.

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