Emile Alain Ducke para The New York Times
Emile Alain Ducke para The New York Times
Neil MacFarquhar, The New York Times

08 de maio de 2019 | 05h00

LISTVYANKA, RÚSSIA - Quando Andrei Sukhanov viu que o hotel de propriedade chinesa sendo erguido no terreno ao lado estava prestes a bloquear a bela vista do Lago Baikal de seu pequeno motel rústico, ele buscou coragem em uma dose de vodca, pegou a serra elétrica e derrubou oito pilares de madeira que sustentavam a construção.

Nada desabou, mas Sukhanov foi tratado como herói por enfrentar os chineses, cuja presença cada vez mais expansiva ao redor do Lago Baikal tem sido fonte de ressentimento. Os atos dele se tornaram um grito de união em meio a uma série de petições, protestos e casos nos tribunais com o objetivo de bloquear o acesso dos chineses ao lago e seus arredores.

“Se permitirmos, os chineses tomarão conta de tudo", disse Sukhanov, 57 anos, que deixou São Petersburgo décadas atrás em busca de uma vida bucólica no lago siberiano, o maior e mais profundo volume de água doce do mundo. “Eles vão ficar com todo o dinheiro, e não sobrará nada para a população local.”

O presidente Vladimir Putin promoveu uma aproximação com a China cinco anos atrás, depois que a anexação da Crimeia azedou as relações com o Ocidente. A China se tornou aliada da Rússia graças ao comércio, à diplomacia e à cooperação militar. Ainda assim, essa dita nova era de amizade sino-russa mostra sinais de desgaste em Listvyanka, antigo balneário às margens do lago, conforme uma onda de turistas e empreendimentos chineses incitam temores de uma invasão e trazem preocupações com a poluição.

Ao mesmo tempo, as autoridades locais enxergam nos visitantes a melhor oportunidade de gerar novos empregos e trazer algum desenvolvimento econômico para uma região empobrecida. Mais de 1,6 milhão de turistas, em sua maioria russos, visitou a região no ano passado, de acordo com a Agência de Turismo de Irkutsk; os 186.200 chineses constituíram o maior grupo de estrangeiros. O número de chineses aumentou 37% em relação a 2017, e a tendência deve se manter. Pequim fica a duas horas de avião, enquanto a viagem até Moscou leva seis.

Emoldurado entre florestas de pinheiros e montanhas distantes, o lago atrai turistas no verão e no inverno. Mas a infraestrutura de Listvyanka não consegue lidar com o esgoto e o lixo gerados pelo número atual de visitantes. As autoridades processaram os proprietários de pelo menos 10 hotéis construídos com financiamento chinês, acusando-os de terem construído ilegalmente em terrenos destinados a lares de famílias individuais e outras infrações. Um tribunal ordenou a demolição de dois hotéis, e outros oito podem sofrer o mesmo destino.

Nesse inverno, a construção de uma instalação de envasamento da água para exportação para a China a partir de um vilarejo perto de Listvyanka levou mais de 1,1 milhão de russos a assinar uma petição denunciando-a na internet. Um tribunal distrital de Irkutsk citou preocupações ambientais ao interromper os planos para a construção da instalação em março.

Mas o mais irritante parece ser o fato de os chineses não pagarem impostos. “Eles não deixam um centavo conosco", rosnou Sukhanov. “Se eles pagassem os 20% exigidos no orçamento local, teríamos dinheiro para a infraestrutura e as escolas de que necessitamos.”

Aleksandr A. Shamsudinov, prefeito de Listvyanka, cidade com 2.122 habitantes, passou boa parte de 2018 sob prisão domiciliar, acusado de exceder sua autoridade ao emitir alvarás de habitação para terrenos destinados a famílias individuais. Muitos desses terrenos foram convertidos em pousadas ilegais para turistas chineses. Ficou claro que os edifícios de três andares e 14 quartos não eram moradias comuns, disse Shamsudinov.

A personalidade do vilarejo começou a mudar quando os chalés azuis de madeira com acabamento branco foram demolidos. Imensos cartazes, alguns deles em chinês, anunciavam estabelecimentos como o Las Vegas Strip Club. A cidade não tem sistema central de água ou esgoto. O lixo se acumula, as ruas continuam sem asfalto, e há um jardim da infância que carece de encanamento interno. Poluentes que chegam ao lago provocam surtos de proliferação de algas.

Ainda assim, os turistas trouxeram vida nova à rua Karl Marx, principal endereço comercial de Irkutsk. Uma placa em chinês promete um brinde para quem gastar mais de US$ 1.200. “As pessoas entendem que a China é um país muito mais poderoso, cuja economia produz números que a Rússia não pode sonhar em imitar", disse Yuri Pronin, editor de uma revista semanal publicada em Irkutsk. “Sentimos seu hálito quente por perto.”

Indagados a respeito do motivo de sua viagem, um casal chinês em lua de mel usou um celular para tocar uma música de sucesso do pop chinês, “Às margens do Lago Baikal", que fala em levar a cara metate até o lago. A canção inspirou incontáveis visitas. No ano passado, um empresário russo nascido na China, Alexei Dzhao, 37 anos, e um cidadão russo construíram duas casas perto de Listvyanka. Sua Pousada Foca do Baikal deveria ser um lar, disse ele. Mas ele afirmou que seu alvará de construção foi revogado, e agora aguarda uma ordem de demolição. 

Muitos proprietários chineses esperam vender antes da chegada das escavadeiras. “As coisas não estão calmas em Listvyanka", disse Dzhao, que planeja se mudar para Moscou. “Há uma tensão nacionalista no ar.” / Ivan Nechepurenko contribuiu com a reportagem / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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