Benjamin Quinton para The New York Times
Benjamin Quinton para The New York Times
Elizabeth Paton, The New York Times

19 de outubro de 2018 | 06h00

STOCKTON-ON-TEES, INGLATERRA - O condado de Durham, na extremidade noroeste da Inglaterra, outrora florescente e conhecido durante algum tempo como a Rainha do Norte, foi o ponto de partida, em 1825, da primeira ferrovia do mundo para o transporte de passageiros.

Foi também o lugar, nos anos 1880, em que Michael Marks, que imigrara da Polônia sem um centavo no bolso, começou trabalhando como ambulante nos mercados, negócio que se tornaria uma das marcas mais conhecidas do país, a Marks & Spencer. Em Stockton, ele abriu uma das primeiras lojas da Inglaterra.

A M&S é parte integrante da cultura e da vida diária de milhões de cidadãos britânicos. A maioria das jovens compra seu primeiro sutiã na M&S. Um terço do país vai à loja para comprar roupa íntima feminina.

Seus bolos 'Colin the Caterpillar' não podem faltar nos aniversários de crianças e adultos, e a bala de goma Percy Pig, o doce nacional da companhia, é vendida na base de 10 porquinhos por segundo, ou 300 milhões ao ano.

Mas no dia 11 de agosto, a loja Marks & Spencer da cidade fechou. Com a queda dos lucros e o ingresso no mercado do comércio eletrônico, a companhia planeja fechar 100 lojas até 2022 - uma reestruturação da empresa que ocorrerá em pequenos centros.

"É de fato o fim de uma era - que coisa triste!", lamentou Joe Harland, 84, empurrando seu carrinho de supermercado ao sair da loja, antes que ela fechasse.

A M&S não é o único comércio britânico que se encontra em dificuldades. A House of Fraser faliu no mês passado, e pediu um resgate financeiro. A Debenhams parece prestes a seguir seu exemplo. O lucro da John Lewis caiu 99% no primeiro semestre deste ano.

É que a M&S está sendo atacada de todos os lados. Os concorrentes vendem roupas mais baratas e mais modernas; os supermercados melhoraram a qualidade de seus produtos alimentícios, e as compras online se tornaram a norma.

"Se você estivesse construindo do zero, não combinaria moda a preços médios com alimentos de alta qualidade e alguma mobília", disse Natalie Berg, consultora da NBK Retail. "A M&S ficou presa a um modelo de negócio que não é mais relevante".

Em maio, a cadeia anunciou uma queda de 62% nos lucros antes dos impostos para menos de 67 milhões de libras, algo em torno de R$ 333 milhões.

A Marks & Spencer quase foi eliminada do FTSE 100, índice de 100 ações da Bolsa do Financial Times, uma reviravolta terrível para uma companhia que foi um dos primeiros membros da lista, em 1984. Com o preço das ações em torno de 282 pence, a M&S se mantém em último lugar, no número 100.

"Este negócio precisa de uma mudança radical", observou o chairman da Marks & Spencer, Archie Norman, na reunião anual deste ano (Ele e Steve Rowe, o diretor-executivo, não quiseram dar informações para este artigo).

"Não temos um direito divino de existir, e, a não ser que mudemos e atualizemos esta companhia como pretendemos fazer, daqui a algumas décadas não haverá mais M&S”, disse Norman ainda na reunião.

Fundada em 1884, a companhia começou a florescer depois que Marks se associou a Thomas Spencer, então na função de caixa. Posteriormente, sob a direção do filho de Marks, Simon, e do sócio de Simon, Israel Sieff, o negócio familiar estourou.

A loja produzia itens exóticos, como frutas frescas e agasalhos de caxemira para as massas. Os corredores ofereciam aos clientes as primeiras degustações de delícias importadas, desde mandarinas nos anos 1930, avocados nos anos 1960 e frango Kiev nos anos 1970.

A M&S teve colaborações de sucesso com celebridades britânicas como Rosie Huntington-Whiteley e Alexa Chung. Quando Gareth Southgate, que treinou a seleção inglesa de futebol para as semifinais da Copa do Mundo, apareceu na margem do campo usando um colete totalmente abotoado, as redes sociais espalharam a notícia de que era um original da M&S, o que provocou uma corrida às lojas.

Mais tarde, porém, poucas de suas colaborações no campo da moda impressionaram muito a geração do milênio. E clientes de meia idade e mais velhos continuam resmungando por causa da queda da qualidade.

Em Stockton, o fim da M&S provocou um enorme impacto nas pessoas que por mais de 100 anos contaram com sua presença no centro da cidade.

"Ao longo dos anos, muitas lojas fecharam, embora também tenha havido algum investimento na cidade também", observou o cliente Joe Harland. "No entanto, nunca imaginei que a M&S fosse desaparecer um dia".

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