Mike Belleme para The New York Times
Mike Belleme para The New York Times

Empresa que fabrica instrumentos musicais emprega ex-presidiários

Participantes - já são 150 - aprendem artes tradicionais como a luthieria - produção e manutenção de instrumentos de cordas - sob a tutela de artesãos habilidosos

Patricia Leigh Brown, The New York Times

22 de janeiro de 2020 | 06h00

HINDMAN, KENTUCKY - A tradição dos instrumentos de cordas artesanais é muito antiga nesse vilarejo dos Montes Apalaches, com 770 habitantes, estendido ao longo das margens do córrego Troublesome Creek. A comunidade é conhecida como lar do saltério dos Apalaches desde o dia em que um reverenciado fabricante desses instrumentos, James Edward Thomas, levou um carrinho cheio de saltérios de timbre angelical para a vendê-los à beira da estrada, deixando uma cadeira por perto para tocar melodias para os transeuntes.

A música está no sangue da região: os moradores locais dizem que não se pode jogar uma pedra para cima sem que ela atinja um músico na queda. Mas essas fortes raízes foram testadas pelos males que devastaram o leste do Kentucky, um dos primeiros epicentros da crise de opioides

Hindman é a sede do condado de Knott, uma das regiões mais pobres dos Estados Unidos, onde a incidência de mortes por overdose é duas vezes maior que a média nacional. O declínio da indústria do carvão trouxe novas dificuldades econômicas para essas colinas e vales isolados - proporcionando um terreno fértil para a epidemia característica dos Apalaches.

Mas, no ano passado, um improvável grupo de renegados - luthiers (realiza reparos nos instrumentos) vestindo suspensórios saídos do Centro de Artesanato dos Apalaches, na cidade - embarcou em uma abordagem inovadora para a falta de esperança trazida pelo vício chamada Culture of Recovery (Cultura da Recuperação), um programa de aprendizado para jovens adultos que tentam escapar do terrível círculo do vício, seja em opioides ou em outras substâncias. 

Os participantes - já são 150 - aprendem artes tradicionais como a luthieria - produção e manutenção de instrumentos de cordas - sob a tutela de artesãos habilidosos. Eles chegam ao programa por meio de uma parceria entre o Centro de Artesanato, um centro residencial de reabilitação para homens e o Tribunal de Drogas do Condado de Knott, que fica a um quarteirão da Escola de Luthieria dos Apalaches. “Somos marceneiros empoeirados, e não terapeutas treinados", disse Doug Naselroad, mestre luthier que ajudou a fundar o programa. “Dar a uma pessoa algo a fazer tem se mostrado um passo importante” na recuperação.

Os fatores que levaram à crise local incluem uma pobreza elevadíssima, o legado de indústrias dadas a acidentes, a alta incidência de trauma infantil, baixa escolaridade generalizada e o fatalismo que decorre da falta de oportunidade e do isolamento geográfico. Esses traiçoeiros fatores sociais de determinação funcionaram como um tapete de boas-vindas para os fabricantes de drogas.

“Esse tal de oxy é fortíssimo", disse Randy Campbell, diretor executivo do Centro de Artesanato, referindo-se à oxicodona. O irmão dele morreu em decorrência do vício. A arte de construir um instrumento musical à mão requer foco, atenção aos detalhes e o compromisso com um objetivo - qualidades que podem ajudar durante a recuperação, acompanhadas de terapia, grupos de ajuda e outras formas de trabalho.

A maioria dos participantes do programa chegou ao tribunal por acusações de roubo, posse ou tráfico de drogas. A taxa de reincidência foi reduzida em mais da metade, de acordo com a juíza Kim Cornett Childers, do círculo judicial local. Um dos formandos é Nathan Smith, 39 anos. Atualmente um promissor luthier, Smith foi arrebatado pelo padrão de comportamento típico segundo o qual as exigências físicas do seu trabalho transportando carvão e operando maquinário pesado o tinham levado além da receita inicial de analgésicos prescritos pelo médico. 

Ele começou a comprar o remédio nas ruas - “Me ajudava a trabalhar e sentir menos dor", explicou ele - e logo começou a revender os comprimidos para sustentar o vício. O resultado foi uma acusação de tráfico de drogas, um período na detenção e uma participação no programa de tratamento para viciados do tribunal, com duração de pelo menos 18 meses.

Smith se aproximou da luthieria, trabalhando como aprendiz da escola por quase um ano. “É algo que me desperta uma paixão até então desconhecida", disse ele. Faz mais de dois anos que ele se afastou das drogas, e trabalha em tempo integral na Empresa de Instrumentos de Cordas de Troublesome Creek. 

A organização sem fins lucrativos foi fundada por Naselroad em uma parceria com o Centro de Artesanato, onde violões e mandolins artesanais de altíssima qualidade são feitos a partir da madeira dos Apalaches. Dois dos seis empregados em período integral da empresa são ex-aprendizes do Culture of Recovery. 

A Troublesome Creek oferece uma carreira que paga bem e não exige diploma de ensino superior. A empresa integra um movimento estadual que tenta oferecer empregos para “facilitar a recuperação” de viciados. “Nossa força de trabalho está morrendo", disse Beth Davisson, diretora executiva do Centro de Mão de Obra da Câmara de Kentucky, referindo-se a dados do governo mostrando que as empresas de remédios saturaram o estado com 1,9 bilhão de comprimidos - cerca de 63 pílulas por pessoa por ano - entre 2006 e 2012. 

Já em 2018, programas de monitoramento de abrangência estadual começaram a fazer efeito, com um pequeno recuo nas mortes por overdose. A ideia por trás da Culture of Recovery foi inspirada em Earl Moore, atualmente com 43 anos, cujo vício começou quando comprava OxyContin nas ruas, o que levou a recaídas, duas tentativas de suicídio e um período na detenção por fraude com cartão de crédito. O pai abandonou a família quando Moore era novo. “Levei isso para o lado pessoal", disse ele. “Descobri que podia usar drogas para apagar aquilo da consciência.”

Moore descobriu que a Escola de Luthieria dos Apalaches tinha aberto uma unidade na cidade e procurou Naselroad. “Earl disse, ‘Eu sei que vocês fazem uma verificação de antecedentes criminais, e eu serei reprovado nela’”, disse Naselroad. “Mas ele me disse para acreditar que aquela oportunidade poderia salvar sua vida.”

Atividades artísticas “podem ser poderosos antídotos para o estresse, a violência emocional e o abuso de drogas", disse Harvey Milkman, professor emérito da Universidade Metropolitan State em Denver. Elas podem ajudar a promover a capacidade natural do cérebro de induzir prazer, cuja sensação é “melhor do que as drogas", diz ele.

O tempo ocioso é prejudicial para as pessoas em processo de recuperação. Mike Nix, diretor do programa do Centro de Recuperação Hickory Hill, em Hindman, disse que, depois de “superar as ruas” com o processo de desintoxicação, talvez eles estejam prontos para aprender uma habilidade. Cerca de 85 moradores participaram do Culture of Recovery uma vez por semana desde o início do programa, e o resultado desse complemento à recuperação estimulada entre pares tem sido positivo.

“Sejamos sinceros - eles não chegaram aqui após uma sequência de acertos na vida", disse ele. “Quando chegam, estão em estado bruto. Pode parecer algo pequeno, mas, quando pensam, ‘Vou construir um violão’, eles começam com o material em estado bruto e trabalham com um objetivo em mente - para alguns deles, é a primeira experiência do tipo em suas vidas.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Tudo o que sabemos sobre:
músicainstrumento musical

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.