Kamil Bialous para The New York Times
Kamil Bialous para The New York Times

Empresas investem em bem-estar para aliviar tensão no trabalho

'Em vez de sonecas, dê às pessoas a oportunidade de dormir o suficiente', disse Jeffrey Pfeffer, professor da Escola de Administração de Stanford

Tom Brady, The New York Times

15 de março de 2020 | 06h00

A Organização Mundial da Saúde chamou o burnout de "fenômeno ocupacional", causado pelo estresse crônico no local de trabalho. Então, algumas empresas reagiram propondo programas de bem-estar. Os funcionários da WayUp, uma empresa recrutadora de empregos em Nova York, participaram recentemente de sessões em que aprendiam a respirar fundo, compartilhar pensamentos sobre "fluxo" e "poderosos estados criativos", além de testar a auto-hipnose. "Banhe-se na alegria de se amar verdadeiramente", um ex-monge budista tibetano os incentivava.

Os trabalhadores então conversaram sobre privação do sono e excesso de trabalho. No final, um deles disse que sentia seu peito mais relaxado; outro afirmou ter as costas menos tensas. "Isso foi incrível", disse Brandon Santulli, gerente do escritório. "Sinto-me muito energizado agora, e isso não é comum, mas só acontece depois de tomar outra xícara de café gelado".

As demais atividades incluem colagem, consultoria energética, banhos de som e hipnoterapia. E as startups formadas por funcionários millenials não são as únicas testando essa abordagem; multinacionais e agências governamentais dos Estados Unidos estão lançando mão dos tapetes de yoga.

Mas os críticos dizem que é improvável que esses programas aliviem o estresse no local de trabalho. Os esforços de bem-estar "têm eficácia limitada ou nenhuma mesmo", disse Jeffrey Pfeffer, professor da Escola de Administração de Stanford, ao The Times. "A prevenção é quase sempre muito mais eficaz e econômica do que o tratamento." Os trabalhos precisam ser repensados para preservar a saúde dos funcionários, ele disse: “Em vez de oficinas de redução de estresse ou meditação, reduza o estresse. Em vez de sonecas, dê às pessoas a oportunidade de dormir o suficiente.”

O setor gastronômico, conhecido por chefs gritando e abuso de substâncias, também está experimentando programas de bem-estar. O chef Sean Brock tem uma sala em seu novo complexo culinário em East Nashville, no Tennessee, para onde os funcionários podem escapar para um tratamento chamado de estimulação da eletroterapia craniana.

Os funcionários do restaurante de comida mexicana Comedor em Austin, no Texas, participam de aulas gratuitas de yoga. Philip Speer, proprietário e confeiteiro, também fundou o clube de corrida do restaurante com o intuito de construir camaradagem entre os colegas, o que costumava acontecer com bebidas alcoólicas, depois dos turnos que terminavam após a meia-noite.

Mas Speer não está mimando os trabalhadores com os extras. "Ainda é um restaurante, e ainda estressante e exigente", disse ele. "Eu posso até esperar mais dos funcionários, por estar proporcionando isso." O jornalista Marc Lacey, editor da editoria de assuntos nacionais do The Times, espera muito de sua equipe, mesmo diante do fluxo diário de más notícias. "Dissecamos desastres naturais", escreveu ele. “Reconstruímos tiroteios em massa. Mergulhamos em escândalos políticos e todo tipo de tumulto doméstico.”

Então, Lacey roubou uma ideia do professor de inglês do Ensino Médio de seu filho. Ele começa a reunião de pauta da manhã com um poema. "A mágica da poesia", disse Morrigan McCarthy, editor de fotografia e estudante do gênero textual na época da faculdade, "é isso que leva sua mente a pensar sobre um assunto ou tema de uma maneira inesperada".

O mundo é demais para nós, de William Wordsworth, e Harlem, de Langston Hughes, estão entre os poemas lidos. Lacey tem uma teoria sobre o seu impacto. "Acredito que nos sentimos mais pensativos todas as manhãs", escreveu ele. "Percebo pelo olhar distante dos meus colegas quando ouvimos verdades profundas comunicadas esparsa e majestosamente." / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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