Rebecca Conway para The New York Times
Rebecca Conway para The New York Times

Empresas de aluguel de moto expandem mercado na Índia

Startups apostam que veículos de duas rodas compartilhados são mais adequados que carros

Vindu Goel, The New York Times

27 de maio de 2019 | 06h00

BANGALORE, ÍNDIA - Na visão do futuro imaginada pela Uber, carros autônomos nos levarão a toda parte, eliminando a necessidade de seus milhões de motoristas humanos. A gigante dos transportes particulares abriu seu capital no dia 10 de maio para com isso obter financiamento para a construção desses veículos. Mas uma abordagem de baixa tecnologia para o futuro dos veículos autônomos já está surgindo na Índia: motocicletas que os clientes alugam e pilotam eles mesmos.

Várias startups - financiadas por grandes firmas investidoras do Vale do Silício e pela Ola, concorrente indiana da Uber - estão apostando que veículos de duas rodas compartilhados são mais adequados para as necessidades de transporte do que os carros que estão no centro da indústria de transportes particulares.

O modelo tradicional da Uber e da Ola está chegando ao seu limite, disse Vivekananda Hallekere, cofundador e diretor executivo da Bounce, que opera mais de seis mil motocicletas que as pessoas podem alugar e deixar em qualquer lugar da cidade de Bangalore, sul da Índia.

O transporte de carro é caro demais para a maioria dos indianos, os motoristas se queixam da pouca compensação para as longas jornadas de trabalho, e as plataformas de transporte particular encontrar dificuldade para lucrar, disse ele. “É impossível tornar o serviço acessível com um motorista", disse Hallekere. “E, se os usuários sabem como pilotar, qual a necessidade de um motorista?”

Nos países em desenvolvimento como a Índia, onde veículos de duas rodas são seis vezes mais vendidos do que os carros, a Uber e suas concorrentes precisam desenvolver uma abordagem diferente, ou correm o risco de serem superadas no segmento inferior. A Índia, com seu 1,3 bilhão de habitantes, é o maior mercado mundial de motocicletas. Cerca de 20 milhões de novas unidades são vendidas anualmente, entre mobiletes de baixa potência e pesadas Harley-Davidsons. Os participantes da indústria calculam que 200 milhões de pessoas tenham habilitação para pilotar veículo de duas rodas.

Em uma manhã recente, o engenheiro de software Mallikarjun D. sacou o celular e contratou uma motocicleta elétrica da Vogo, concorrente da Bounce, para percorrer os 14 quilômetros até o trabalho, da gigante prestadora de serviços terceirizados Infosys.

Ele disse que, normalmente, pega o ônibus da própria Infosys. Mas estava atrasado e, ao preço especial de 10 rúpias, ou US$ 0,14, por dia de uso, a mobilete seria a solução perfeita. “É um preço razoável", disse ele. “E não afeta o meio-ambiente.”

Vogo e Bounce disputam o mercado em Bangalore, centro de tecnologia da Índia, onde também fica a sede da Ola. A Vogo requer que os usuários retirem e devolvam as motocicletas em locais específicos, enquanto a Bounce oferece motos que podem ser ativadas e deixadas em qualquer lugar. Nomita D.P., que estava fazendo compras com a filha de 10 anos, disse usar a Bounce há cerca de cinco meses.

De acordo com ela, é uma alternativa mais barata que um riquixá e mais confiável do que um carro da Uber ou da Ola. “Ficamos esperando, e o motorista cancela", disse Nomita, editora da área de medicina. “O riquixá se recusa a nos levar se não formos na direção que ele quer.” Vogo e Bounce estão em uma corrida para levar às ruas um número de motocicletas (o objetivo é 50 mil cada) capaz de tornar seus serviços realmente convenientes em Bangalore. Outras grandes cidades virão a seguir.

Ainda não se sabe até que ponto esses serviços serão viáveis no longo prazo. Como Uber e Ola em seus primeiros dias, as duas empresas oferecem promoções. Há também o exemplo das bicicletas compartilhadas na Índia, anunciadas como grande ideia, mas que nunca chegaram a decolar. O trânsito caótico do país e as longas distâncias entre os destinos foram fatores que afetaram o compartilhamento de bicicletas, obrigando várias operadoras a fechar.

Vogo e Bounce esperam reduzir custos usando motocicletas elétricas, cujo custo por quilômetro é inferior ao dos modelos à gasolina. Estão recorrendo a outra startup de Bangalore, Ather Energy, para o fornecimento de uma lambreta elétrica de qualidade em um projeto que se qualifique para captar os subsídios de energia limpa do governo.

Ainda assim, a Ather só consegue produzir cerca de 500 lambretas por mês. Bounce e Vogo se preparam para uma nova etapa na sua luta com a captação de financiamento. A Bounce obteve US$ 18,9 milhões de firmas investidoras como Sequoia e Accel, de acordo com documentos corporativos, e está captando outros US$ 80 milhões.

A Vogo obteve US$ 17,8 milhões da Ola, da firma americana de investimentos Matrix Partners e de várias outras firmas indianas. A Ola também planeja oferecer até US$ 100 milhões para ajudar a Vogo a levar às ruas até 100 mil motocicletas, e prometeu incluir os veículos como opção no seu popular aplicativo de transporte particular.

“Como criar opções de mobilidade para os próximos 900 milhões?” indagou Anand Shah, vice-presidente sênior da Ola encarregado das iniciativas de mobilidade elétrica. “Não é preciso olhar longe para ver qual é a escolha da Índia.” “É um negócio muito difícil e complicado. Dito isso, a demanda a ser atendida é inacreditável", disse Shailesh Lakhani, sócio da firma de investimentos Sequoia Capital. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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