Adam Dean para The New York Times
Adam Dean para The New York Times

Empresas encontram poucas opções fora da China

Companhias que fogem da guerra comercial com os EUA não encontram na Ásia a estrutura logística oferecida pelos chineses

Alexandra Stevenson, The New York Times

02 Outubro 2018 | 10h00

PHNOM PENH, CAMBOJA - O agravamento da guerra comercial entre Estados Unidos e China aumentou a pressão sobre as companhias para que deixem o país asiático e abram fábricas em lugares como o Camboja, país com 16 milhões de habitantes, baixos salários e grandes esperanças.

Mas quem se mudar para lá terá de lidar com o búfalo marinho. Bufando, farejando e sem a menor pressa de se mexer, esses bovinos de longos chifres ocasionalmente andam pelos 225 quilômetros de extensão da empoeirada Estrada da Amizade Khmer-Americana, que liga as fábricas de Phnom Penh à cidade portuária de Sihanoukville.

Os operários das fábricas que vão para casa a pé ou de motocicletas também contribuem para criar engarrafamentos. Para os proprietários da fábrica, as estradas cheias podem significar atrasos frustrantes.

"Hoje, o Camboja está localizado onde, há 25 anos, estava a China", disse Piet Holten, que fabrica tecidos de microfibra, bolsas para esportes e óculos para marcas como a Oakley. Para que sua roupa esportiva que sai Phnom Penh chegue ao mercado, ele a despacha de avião pela empresa de logística DHL.

Como as tarifas começam a tornar a China mais cara, muitas companhias estudam a transferência para países onde seja mais barato para fabricar seus produtos, como Vietnã, Camboja, Bangladesh e Etiópia. Companhias como a do estilista Steve Madden e a marca alemã Puma disseram que procurarão transferir a produção fora da China.

Mas será difícil deixar a China. De zíperes e arrebites usados em jaquetas jeans aos minerais utilizados nos iPhones, a China faz ou processa muitos dos componentes dos bens de consumo. O país tem um exército de mão de obra de reserva e estradas e ferrovias confiáveis que ligam os fornecedores a plantas de montagem e portos. Países como Vietnã e Camboja carecem da vasta base de fornecedores da China e de estradas confiáveis. Além disso, será necessário treinar um número maior de trabalhadores.

"Quando cheguei aqui, no começo, foi um pesadelo", contou Elli Bobrovizki, dono de uma fábrica em Phnom Penh que produz sapatilhas de balé Bloch. Segundo ele, enviar os sapatos de balé e os de jazz para outros lugares leva um dia ou dois a mais do que na China. Para chegar à sua fábrica, um visitante precisa percorrer uma estrada de terra esburacada.

Alguns anos atrás, Bobrovizki chegou à sua fábrica e constatou que havia sido fechada por vários sindicatos. As negociações levaram semanas. No Camboja, alguns sindicatos têm o apoio do partido do primeiro-ministro Hun Sem, o que representa mais um risco político para as companhias estrangeiras. "Perdi meio milhão de dólares enquanto eles bloquearam os meus portões", contou Bobrovizki.

As empresas não querem deixar a China apenas por causa da guerra comercial. Dados oficias apontam que os salários médios subiram cerca de 33% nos últimos anos. Os dados mostram que o operário médio de uma fábrica chinesa ganha US$ 10 mil ao ano. O salário mínimo dos trabalhadores da fábrica de vestuário cambojana é de cerca de 20% dessa cifra.

"As pessoas estão desesperadas para sair da China", afirmou Spencer Fung da Li & Fung, que trabalha para companhias e fábricas ocidentais em países em desenvolvimento.

Uma empresa americana disse recentemente a um fornecedor com fábrica em Phnom Penh que deseja que sua produção na China chegue a zero para evitar as tarifas, disse Bradley Gordon, um advogado que assessora empresas multinacionais. Essa fábrica de Phnom Penh planeja contratar mais mil operários e empregar cerca de 10 mil no próximo ano.

No entanto, a capacidade da produção industrial da China não tem rivais. Sua rede logística é vasta e rápida. Nos últimos 30 anos, o país construiu 4,7 milhões de quilômetros de rodovias. Além disso, tem 13 dos 50 maiores portos do mundo - e três deles entre os cinco maiores.

Uma medida de suas medidas protecionistas, chamada valor industrial agregado, mostra que a China fabrica aproximadamente tanto quanto Estados Unidos e Japão juntos.

A Inventerc, uma empresa de Taiwan que fabrica laptops e dispositivos para companhias como HP, Toshiba e Acer, elaborou planos de contingência para transferir a produção da China para Taiwan, República Checa, México e Houston, no Texas, segundo sua porta-voz, Ada Chang.

Peter Baum, proprietário da Baum-Essex, que fabrica guarda-chuvas para a Costco e sacolas de algodão para a Walmart em fábricas no Vietnã e no Camboja, fica frustrado quando precisa recorrer a vários países para a produção de peças e do material de que necessita porque isso significa mais atrasos. Baum concluiu recentemente uma encomenda de guarda-chuvas para a Costco. Os cabos de madeira da Itália atrasaram. O poliéster de Taiwan estava com a estampa errada. "Provavelmente perdi várias centenas de milhares de dólares nesta transação", afirmou.

Outras companhias contataram Ken Loo, secretário-geral da Associação de Fabricantes de Vestuário no Camboja, sobre a possibilidade de fazer negócios no país. Ele aconselhou essas empresas a serem realistas.

"Não é como entrar numa loja para comprar alguma coisa e depois ir para outra loja", explicou Loo. Começar uma fábrica, segundo ele, "leva meses, ou até um ano e meio".

//Cao Li contribuiu para a pesquisa

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