Matt Chase / The New York Times
Matt Chase / The New York Times

Empresas tecnológicas e a ética na aliança com as Forças Armadas 

Companhias como Amazon, Google e Microsoft estão no centro do debate sobre colaborações com o Exército para fabricação de armas e prisão de imigrantes

Kevin Roose, The New York Times

18 de março de 2019 | 06h00

Nos últimos meses, desencadeou-se no Vale do Silício um violento debate sobre a possibilidade de as grandes companhias de tecnologia, como Amazon, Google e Microsoft trabalharem com as Forças Armadas dos Estados Unidos e agências como a de Imigração e Alfândega.

O debate tem sido conduzido em grande parte pelo aspecto ético. De um lado, estão os executivos  do setor tecnológico e funcionários do governo, onde as gigantes tecnológicas americanas têm um dever patriótico de dar a sua contribuição. E isso acontece em uma época em que tecnologias como a Inteligência Artificial e a aprendizagem automática estão sendo cogitadas para a reformulação de questões, como a guerra de drones ou a segurança das fronteiras.

Jeff Bezos, o diretor executivo da Amazon, resumiu este entendimento no ano passado: “Se as grandes companhias virarem as costas para o Departamento da Defesa dos EUA, este país terá problemas”.

Do outro lado, estão os funcionários destas companhias que não querem que os seus instrumentos sejam usados para a guerra com drones, a prisão de imigrantes e outros projetos por eles considerados imorais.

Este lado se manifestou na Microsoft, no mês passado, quando um grupo de funcionários enviou uma carta aberta aos altos executivos da companhia exigindo que abandonassem um contrato com o Exército  que adaptaria as Hololens, o dispositivo de realidade virtual que ela produz para uso dos soldados no campo de batalha. 

“Nós não assinamos um contrato para a criação de armas, e exigimos que a nossa opinião sobre a utilização do nosso trabalho seja ouvida”, escreveram os funcionários. Entretanto, há uma questão mais pragmática neste debate, e que poucos levantam: a decisão das grandes da tecnologia de cumprir contratos controvertidos para a defesa e a polícia poderia ser um erro financeiro?

O acordo da Microsoft para a fabricação das HoloLens representa cerca de US$ 500 milhões - menos de 1% da receita da companhia em 2018, mas mesmo assim uma soma considerável. Enquanto isso, Amazon, IBM, Micosoft e Oracle disputam o contrato da computação em nuvem do Departamento da Defesa, conhecido como Projeto JEDI, de US$ 10 bilhões. Ocorre que estes contratos podem estar atrelados a enormes custos ocultos que podem superar todos os ganhos no curto prazo.

Substância inflamável

Em 1965, a Dow Chemical, uma fabricante de produtos químicos de Michigan, obteve um contrato de US$ 5 milhões do Departamento da Defesa para produzir napalm, uma substância altamente incendiária usada pelas tropas americanas na Guerra do Vietnã. Até este contrato, a companhia era mais conhecida pela produção de substâncias químicas industriais e plásticos domésticos como o Saran Wrap (filme plástico).

Mas, quando os americanos começaram a ver as imagens de crianças sul-vietnamitas com horríveis queimaduras do napalm, os ativistas que eram contrários à guerra boicotaram os produtos da Dow Chemical, realizaram protestos em seus eventos de recrutamento nos campus das universidades e moveram uma série de ações  contra os seus executivos, acusando-os de exploração antiética da guerra para fins de lucro.

Os executivos da Dow Chemical afirmaram que o napalm era uma pequena parte dos negócios da companhia, cujo dever era produzir materiais necessários às Forças Armadas. Mas sua capacidade de recrutamento foi afetada, e o seu departamento de marketing foi obrigado a empreender uma longa e dispendiosa campanha para reconquistar a confiança do público. “A nossa companhia, que produzia o Saran Wrap para manter os alimentos frescos, tornara-se uma espécie de máquina de guerra”, disse em 2006 o antigo diretor executivo da companhia, Andrew Liveris.

A Dow Chemical parou de fabricar napalm para as Forças Armadas em 1969, quatro anos depois do início de sua produção. Mas os danos à sua reputação a perseguiram anos a fio. No total, os US$ 5 milhões do valor do contrato do napalm muito provavelmente custaram bilhões de dólares à Dow. E isto poderia ter sido evitado se os executivos da companhia tivessem dado ouvidos aos primeiros sinais de oposição, feito alguma análise de risco e mudado o rumo.

Contratos

As companhias de tecnologia de nossos dias enfrentam a mesma escolha com que a Dow Chemical se defrontou em 1965: aceitar contratos polêmicos com o governo e correr o risco de uma reação danosa, ou deixar estes acordos a empreiteiras convencionais da Defesa e proteger a própria reputação. Na realidade, a recusa de contratos controvertidos com o governo pode se tornar um atrativo comercial.

A Affectiva, uma start-up cujo software usa a I.A.  para monitorar as emoções humanas, recebeu inicialmente várias propostas  de agências do governo, como a CIA, que queria usar o produto para melhorar a sua capacidade de vigilância. Embora a Affectiva precisasse de recursos, ela recusou o negócio. Levantou desde então mais de US$ 50 milhões de outras fontes e tornou a utilização da IA um elemento fundamental da sua marca.

“Queremos que o público confie em nós”, disse Rana el Kaliouby, que ajudou a fundar a Affectiva. “Nós usamos o valor fundamental da integridade e respeitamos à privacidade de pessoas". 

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