Sergey Ponomarev para The New York Times
Sergey Ponomarev para The New York Times

Encenando uma antiga peça grega em meio à tragédia iraquiana

Atores europeus e iraquianos se reúnem para atuar em 'The Oresteia' na cidade de Mosul

Alissa J. Rubin, The New York Times

28 de abril de 2019 | 06h00

MOSUL, IRAQUE - Nesta cidade arrasada pela guerra, no final de março, alguns estudantes de teatro dirigiram-se para o local dos ensaios caminhando com dificuldade entre escombros de concreto, evitando escadas que poderiam ceder, contornando poças de água fétida e sempre mantendo distância de homens armados.

“Não precisamos encenar uma tragédia”, disse Mustafa Dargham, 19, indicando o que restou do Instituto de Belas Artes depois das explosões, em uma pausa dos ensaios da Oréstia, a antiga trilogia grega de Ésquilo. “Esta tragédia fala exatamente da realidade de Mosul”. As tragédias gregas datam de 2.500 anos atrás, mas para os diretores de teatro elas continuam extraordinariamente atuais, e às vezes as encenam em ambientes modernos ou encontram outras maneiras de enfatizar como o orgulho e a paixão, o antigo e o moderno, podem fazer sangrar e deixar uma sociedade em ruínas.

Milo Rau, um diretor de teatro suíço, vai mais um passo à frente. Em um manifesto provocador que divulgou ao assumir a companhia teatral NTGent Theater sediada em Ghent, na Bélgica, ele prometeu ensaiar ou apresentar um espetáculo ao ano em uma zona de conflito. Neste caso, procurou fundir a tragédia de Mosul com a da Casa de Atreu, a dinastia no centro da trilogia. A sua versão, Orestes em Mosul, trata do eterno tema: o ciclo de vingança e a dificuldade de exorcizá-lo. Mosul praticamente se torna um personagem.

Os atores iraquianos não conseguem com facilidade vistos para o Ocidente, por isso a produção completa mescla videoclipes destes jovens discutindo e ensaiando a obra em Mosul com representações ao vivo de sete atores europeus. A estreia da peça foi no dia 17 de abril no NTGent, e ela excursionará pela Europa até o fim do ano.

“Eu queria mostrar o que significa uma tragédia, onde toda decisão é errada, onde inexiste uma boa escolha”, disse Rau. Ele não poderia ter vindo para um lugar melhor para apresentá-la. Aqui, a invasão do Estado Islâmico, a tomada e a derrota resultaram em uma cidade de vítimas e perpetradores, em que alguns foram ambas as coisas.

Atores como Dargham viram a equipe de Rau chegando com preconceitos, concentrada na invasão do Estado Islâmico, mas esquecida de outros episódios. Como o “grupo belga”, como o chama, não perguntou, Dargham nunca mencionou que seu pai, um coronel do exército iraquiano, foi morto pela Al Qaeda quando ele tinha 10 anos.

O ensaio começou com a equipe do NTGent arrastando uma mesa de fora. Stefan Bläske e Rau prepararam os computadores para trabalhar no script. A abordagem de Rau para o roteiro é solta, e com “Orestes em Mosul” ele mescla partes do texto original com material extraído das pesquisas e das discussões da sua equipe com os atores.

Mosul, uma das cidades mais cultas do Iraque, ainda funciona de maneira muito precária, e os moradores temem mergulhar novamente na guerra. O governo do EI roubou não apenas seu modo de vida, mas a alma de sua cidade. Livros foram queimados, a arte foi proibida, assim como os prazeres.

Os estudantes de teatro, que em sua maioria não haviam lido a Oréstia, precisaram de um quadro para anotar o diagrama do enredo, os personagens, e o que estava em jogo. Em resumo: Agamenon, que sacrificou a filha a fim de apressar a sua viagem para as Guerras de Troia, retorna depois de dez anos, e é morto pela esposa na primeira peça. Na segunda, o filho de ambos Orestes e a filha Electra descobrem como o pai morreu, e Orestes se vinga da mãe. 

Na peça final, Orestes é perseguido no templo de Atenas pelas Fúrias, antigas deusas que querem que ele pague pelo assassinato da mãe. Lá, Atena preside ao seu julgamento; mas por fim, são os cidadãos de Atenas que decidem o que será feito dele. A decisão de Rau de fazer com que Orestes e Pílades, grandes amigos na segunda parte, se beijassem na boca causou furor. Alguns dos estudantes de teatro iraquianos não se sentiram à vontade. Os europeus e os iraquianos trabalharam - ou tentaram trabalhar - a divergência entre um beijo no palco e um beijo real.

A última cena da peça - o julgamento de Orestes - foi a da visão do mundo como teatro de Rau e de Bläske revelou-se mais emocionante. Ésquilo pergunta se Orestes deveria sofrer a morte por matar a mãe, ou ser perdoado. Na versão gravada em vídeo, Dargham e sete dos seus colegas da escola, que representam o júri, tomaram uma decisão que dividiu o grupo.

Khitam Idress, 59, uma professora cujo marido foi morto pela Al Qaeda, foi Atena. “O meu voto vai para a paz. O ciclo de matanças deve acabar”. Naquele momento, pareceu um voto à esperança para Atenas e Mosul. Mas o que acontece quando o voto diz respeito a algo real e o júri experimentou pessoalmente o sofrimento das vítimas?

Nos videoclipes com o mesmo júri de estudantes de teatro discutindo o destino dos assassinos do EI, a ira e a paixão foram reais. Na hora de votar, nenhum deles levantou a mão a favor da pena de morte, mas também nenhum conseguiu votar pelo perdão. / Kamil Kakol contribuiu para a reportagem.

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