Jim Huylebroek para The New York Times
Jim Huylebroek para The New York Times

Encontrando a liberdade nas cafeterias de Cabul

Ao longo dos últimos anos, cafés se tornaram um símbolo do progresso feminino, locais onde mulheres falam livremente e o uso de lenços é opcional

David Zucchino e Fatima Faizi, The New York Times

05 de junho de 2019 | 06h00

CABUL, AFEGANISTÃO - Em alguns dias, a vida de uma jovem em Cabul pode parecer sufocante para Hadis Lessani Delijam, uma estudante do Ensino Médio de 17 anos. Certa vez, um homem na rua lhe deu um sermão por usar maquiagem e roupas ocidentais. "Isso é vergonhoso", berrou ele. Uma mulher de meia-idade amaldiçoou-a por conversar com um rapaz. "Ela me chamou de coisas que são tão terríveis que não posso repetir", disse Delijam.

Para consolo, Delijam se refugia em um local improvável - a humilde cafeteria. "Este é o único lugar onde posso relaxar e me sentir livre", explicou Delijam, ao sentar-se em uma cafeteria, com os cabelos descobertos e conversando com dois homens.

Novos cafés da moda surgiram em toda a Cabul nos últimos três anos, transformando-se em emblemas do progresso das mulheres.

Os cafés são santuários para mulheres em uma cultura islâmica que ainda dita como elas devem se vestir e interagir com os homens. Essas tradições perduram 18 anos após a queda do Taleban, que baniu a educação de meninas, confinou mulheres em suas casas e as obrigou a usar burcas em público.

Atualmente, as conversas nas cafeterias muitas vezes se voltam para as negociações de paz afegãs em Doha, no Catar, entre os Estados Unidos e o Taleban. As mulheres temem que seus direitos sejam negociados. 

"Estamos tão assustadas", disse a artista Maryam Ghulam Ali, 28, em uma cafeteria. "Quando chegamos aos cafés, nos sentimos livres. Ninguém nos força a colocar nossos lenços na cabeça".

Muitas mulheres na emergente sociedade de cafés ainda não eram nascidas ou eram apenas crianças durante o domínio do Taleban. Elas cresceram com celulares e mídias sociais. Por isso não conseguem imaginar voltar a viver segundo os ditames do Taleban, que às vezes apedrejam mulheres até a morte por suspeita de adultério, como ainda o fazem em áreas que controlam.

A jornalista Farahnaz Forotan, 26, criou uma campanha nas redes sociais chamada #myredline (em tradução livre, algo como #meulimite, que enfatiza até que ponto se está disposto a negociar ou não), que implora às mulheres que defendam seus direitos. Sua página no Facebook está repleta de fotos dela dentro de cafés, símbolos de sua própria red line. 

"Ir a um café e conversar com amigos me faz muito feliz", disse Forotan.

Mas essas liberdades podem desaparecer se as negociações de paz trouxerem o Taleban de volta ao governo, comentou a jornalista. "Não quero ser reconhecida como irmã ou filha de alguém. Quero ser reconhecida como um ser humano", afirmou.

Em 2014, o Taleban lançou ataques contra cafés e restaurantes em Cabul, incluindo um atentado suicida e um tiroteio que mataram 21 clientes no popular café Taverna du Liban, onde álcool era servido e homens e mulheres afegãos se misturavam entre os ocidentais.

Depois disso, o governo forçou uma série de cafés e pousadas a serem fechados por medo de atrair mais violência. Nos dois anos seguintes, grande parte da vida social ocidentalizada em Cabul mudou-se para casas particulares. Mas em 2016, novas cafeterias começaram a abrir, atendendo a jovens mulheres e homens que estavam ansiosos por socializar em público novamente.

Ainda assim, com exceção de centros urbanos como Cabul, Herat e Mazar-i-Sharif, há poucos cafés no Afeganistão onde as mulheres podem se misturar com os homens. A maioria dos restaurantes reserva seus principais ambientes para homens e separa seções "familiares" para mulheres e crianças.

Mina Rezaee, 30, que abriu a cafeteria Simple em Cabul há um ano, garante que ninguém assedie clientes do sexo feminino.

Ela indicou uma mesa onde várias mulheres sem lenços na cabeça estavam sentadas rindo e conversando com homens jovens.

"Olhe para eles - eu amo isso", disse Rezaee. "É o Taleban que precisa mudar sua ideologia, não nós. Essa é a minha red line". / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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