Emily Kask para The New York Times
Emily Kask para The New York Times

Encontrando asilo antes da fronteira americana

México ofereceu a imigrantes que fugiram da violência na América Central vistos de trabalho e a possibilidade de reconstruir a vida

José A. Del Real, Caitlin Dickerson e Miriam Jordan, The New York Times

20 de fevereiro de 2019 | 06h00

TIJUANA, MÉXICO - Desgastados além de seus limites em razão de longas esperas em condições perigosas e degradantes no norte do México, milhares de centro-americanos da caravana que confiavam na concessão de asilo nos Estados Unidos aparentemente desistiram, informaram autoridades mexicanas.

Cerca de 6 mil pessoas, decididas a viajar até o norte do México, muitas delas desafiando a exigência do presidente Donald J. Trump de que voltassem para os respectivos países, chegaram ao seu destino no final de novembro na caravana que se formou em Honduras.

Desde então, mais de mil aceitaram a oferta do governo mexicano de serem levadas de volta, de acordo com funcionários do governo americano. Outras mil decidiram permanecer no México, aceitando as autorizações de trabalho que lhes foram oferecidas no fim do ano. Os dados fornecidos pelas autoridades sugerem que as duras medidas de Trump visando reprimir os que buscavam asilo podem estar conseguindo em parte o objetivo estabelecido. 

A estas medidas punitivas - que incluem rigorosas limitações do número de pessoas que apresentam diariamente sua solicitação e uma norma ainda mais dura que exige a apresentação de provas de suas qualificações - acrescentou-se a ampliação de uma lei segundo a qual algumas pessoas que solicitam asilo devem aguardar no México enquanto seu caso está sendo estudado, o que pode levar anos. A exigência originalmente se aplicava somente a adultos, mais agora inclui também famílias com crianças.

Entre os que foram dissuadidos está Natali, 32. Ela contou que, juntamente com o marido, fugiu de casa em El Progreso, Honduras, por ter testemunhado um assassinato por uma gangue de criminosos locais. Logo em seguida, ela começou a receber ameaças por e-mail, ordenando que ficasse calada. Uma vez no México, eles ouviram falar de que a demora para a obtenção do asilo nos Estados Unidos poderia ser maior, e ficaram com medo que as autoridades os devolvessem ao seu país de origem.

Em vez de cruzar a fronteira, decidiram solicitar vistos humanitários para permanecer no México por pelo menos um ano. 

"Gosto de Tijuana", disse Natali. "É uma cidade muito bonita, e há muito trabalho aqui". Mais do que qualquer outra coisa, ela teme que os EUA a deportem para Honduras.

Elde Rodríguez, 26, contou que deixou Honduras esperando poder mandar dinheiro para a esposa e a filha. Achando que não se qualificaria para o asilo, tentou cruzar a fronteira ilegalmente, mas ele e um amigo não conseguiram encontrar o caminho certo, então desistiram.

"Há bastante trabalho aqui no México, e uma pessoa consegue viver, se estiver sozinha", disse. "Mas não é suficiente para mandar dinheiro para casa, e a questão é toda esta. Se eu não conseguir entrar, vou continuam tentando".

Muitos migrantes viviam na miséria, dormindo em barracas ou em alojamentos precários no complexo esportivo Benito Juárez. Depois que um temporal devastou o local, foram para um novo abrigo chamado Barretal. Anteriormente lotado com 2.500 pessoas, acabou fechando recentemente porque só restaram menos de 200.

Ela Marina Rodríguez, 49, que chegou a Tijuana há várias semanas com a filha, Duña Ventura, 16, contou que ouvira falar que levando a filha garantiria o ingresso de ambas nos EUA. Quando foi informada de que alguns dos que solicitaram asilo são obrigados a aguardar no México, suspirou e disse: "Não quero ficar aqui".

Ela Marina pretende cruzar a fronteira ilegalmente, se for preciso, para entrar nos Estados Unidos. Mas se não conseguir ingresso, provavelmente voltará para Honduras. "O que mais poderia fazer nesse caso?".

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