Encontrando equilíbrio entre a pressa e a procrastinação

Especialistas explicam que realizar tarefas imediatamente pode ser tão prejudicial quanto adiá-las

Adrienne Harris, The New York Times

06 de abril de 2019 | 06h00

Nossa tendência de adiar tudo para o dia seguinte, mesmo contrariando o que diz o juízo, não significa necessariamente que sejamos preguiçosos ou que tenhamos um problema de gestão do tempo. Procrastinar é humano.

Uma tarefa desafiadora pode conjurar emoções desagradáveis, incluindo tédio, ansiedade, ressentimento e insegurança. Quando atrasamos algo que desencadeia sentimentos negativos, sentimos alívio - nem que seja momentâneo. "Somos recompensados quando procrastinamos", disse ao Times a professora de psicologia Fuschia Sirois, da Universidade de Sheffield, na Inglaterra.

Isso explica por que a procrastinação pode se converter em um hábito. "A procrastinação não é um problema de gestão do tempo, e sim um problema de gestão emocional", explicou o professor de psicologia Tim Pychyl, da Universidade Carleton, no Canadá.

Pychyl descobriu que a procrastinação trata como prioridade a restauração do humor no curto prazo. Os humanos foram treinados para eliminar todas as ameaças do presente. "A verdade é que não fomos projetados para pensar no futuro porque precisamos nos concentrar em satisfazer nossas necessidades no aqui e agora", disse o psicólogo Hal Hershfield, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles.

Essa falta de perspectiva pode explicar por que algumas pessoas tendem a cumprir as tarefas cedo demais, ou precrastinar. Essas pessoas sentem alívio não ao adiar uma tarefa, mas enfrentando-a prematuramente para marcá-la como cumprida.

"É como ir ao mercado, encher a sacola com maçãs e carregá-las pelos corredores enquanto fazemos compras, mesmo sabendo que passaremos por elas novamente a caminho do caixa", disse o professor de psicologia David Rosenbaum, da Universidade da Califórnia, em Riverside.

Segundo ele, pesquisas indicam que fazemos isso para deixar livre nossa memória, explicou. "Mentalmente, é tão desgastante manter uma lista de tarefas que nos dedicamos a comportamentos que possam nos ajudar a reduzir essa carga cognitiva, mesmo que o resultado final seja um esforço maior", disse.

Isso pode ser contraproducente, dificultando o cumprimento de objetivos mais complexos. Para evitar isso, os especialistas recomendam encontrar formas de reduzir a carga, ou definir momentos para responder mensagens de e-mail, em vez de respondê-las assim que chegam à caixa de entrada.

No geral, deixar de lado todos os dispositivos eletrônicos por algum tempo pode melhorar a produtividade, algo que beneficia tanto procrastinadores e precrastinadores. Pesquisas revelaram que, quando distrações afastam nossa consciência da tarefa a ser cumprida, o tempo necessário para retomar o foco se soma ao longo do dia, resultando em fadiga e estresse que acabam interferindo no desempenho.

"Estar disponível para todos o tempo todo é exaustivo", disse Catherine Price, autora de How to Break Up With Your Phone (Como terminar com seu telefone, em tradução livre). "Precisamos criar momentos de indisponibilidade intencional para preservar nossa sanidade".

Ela sugere desligar o celular por períodos de até 24 horas. Os sintomas de abstinência e inquietação passam rápido. "Atenha-se ao plano e, depois de um intervalo surpreendentemente curto, é provável que a ansiedade se transforme numa agradável sensação de calma", acrescentou Catherine.

É então que produtividade e até criatividade podem prosperar, permitindo que o procrastinador enfrente a tarefa que considerar mais importante. "A motivação segue a ação", disse Pychyl. "Comece, e verá que a motivação surge".

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