Stephanie Gengotti / The New York Times
Stephanie Gengotti / The New York Times

Celebridades italianas tentam salvar sua fatia do paraíso

Os moradores de Castel Giorgio, na Itália, perto do lago Bolsena, temem que a instalação de uma usina geotérmica deixe a área em ruínas

Jason Horowitz, The New York Times

07 de fevereiro de 2020 | 06h00

CASTEL GIORGIO, ITÁLIA - Fausto Carotenuto, proprietário de um centro de bem-estar espiritual e ioga na Úmbria, o antigo coração etrusco da Itália, sente uma energia ruim sob os pés. Uma empresa geotérmica deseja construir uma usina em uma área próxima ao seu terreno. Ele prevê consequências apocalípticas se ele e seus aliados não conseguirem impedir isso.

Haveria terremotos provocados artificialmente, fontes envenenadas, jardins estéreis, lagos em ruínas. "Um desastre", garantiu ele. Por quase uma década, Carotenuto tem lutado contra a usina de energia com a ajuda do prefeito de Castel Giorgio, na margem do lago Bolsena. Mas em julho, após inúmeras ações judiciais, acusações de conflitos de interesse e manobras políticas, o escritório do primeiro-ministro da Itália decidiu que o projeto experimental poderia ir adiante e cavar fundo no território vulcânico.

Em setembro, Carotenuto reuniu uma série de aliados. Longe das multidões de Roma, Milão e da Toscana, amada por magnatas de fundos de cobertura, essa área se tornara para eles sinônimo da essência de um ideal italiano - um paraíso rústico e imaculado. Eles não queriam que uma usina geotérmica a estragasse.

Uma aliada-chave para se ter ao lado foi Alice Rohrwacher, a diretora vencedora do Grande Prêmio de Cannes, que cresceu em uma fazenda de mel na região. A diretora já havia travado uma batalha contra a invasão das lucrativas árvores de avelãs plantadas para alimentar a fome da Itália por Nutella.

Então, se juntou ao grupo Jonathan Nossiter, diretor de cinema cujos documentários se opõem ao Big Wine e apoiam a agricultura natural. (O irmão de Nossiter, Adam, é correspondente do The Times na França.)

Carotenuto também bateu no parceiro de Nossiter em uma fazenda, Massimiliano Petrini, que uma vez tratou a mordida de uma víbora com choques elétricos. E também havia o interesse de Alessandro Michele, o designer-chefe da Gucci e dono de um castelo nas proximidades. Ele concordou em contribuir financeiramente para um advogado ambiental processar e paralisar a construção da usina. "Não sou geólogo, tenho outro emprego", disse Michele. “Meu trabalho é preservar a beleza. E a beleza não tem seu valor?";

Zero emissão de carbono

A empresa que constrói a usina diz que usa um sistema com zero emissão de carbono para produzir eletricidade. E afirma que nunca provocaria um terremoto. "Os abastados querem que tudo continue do jeito que está, para que possam continuar sendo os melhores", justificou Diego Righini, gerente-geral da companhia de energia.

Righini argumentou que os mais de €10 milhões, ou US$ 11,1 milhões, investidos para construir a fábrica atrairiam trabalhadores, criando famílias e creches. Ele disse que a construção começará neste mês, apesar do processo. E sugeriu que a gigante italiana de energia Enel, que havia buscado, sem sucesso, energia geotérmica na área décadas atrás, havia comprado a oposição para esmagar concorrentes independentes como ele.

Luigi Parisi, chefe de operações geotérmicas da empresa de energia verde da Enel, classificou as acusações como "infundadas". Todo esse processo envolvendo o mundo dos negócios e política deixou Michele desgostoso. "A Itália está passando por um momento sombrio, pior que o colapso do Império Romano", afirmou.

Ele falou de sua casa, do cervo que encontrou, do "bom carma" da terra e da fazenda de queijos onde um siciliano toca música clássica para suas cabras. “Eu me pergunto: em 2020, realmente precisamos destruir tudo?”. / ANNA MOMIGLIANO CONTRIBUIU PARA A REPORTAGEM

 

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