Billy H.C. Kwok para The New York Times
Billy H.C. Kwok para The New York Times

Restrição de crédito está custando caro à economia chinesa

Foco do governo na redução da dívida deixa pequenas empresas em uma situação complicada

Keith Bradsher, The New York Times

26 de junho de 2018 | 10h00

XANGAI - O governo da China vem tentando romper a dependência do país de um endividamento crescente, mas seu esforço começa a afetar o crescimento da segunda maior economia mundial.

Pequim se preocupa com o aumento da dependência do crédito para manter a economia em rápida expansão, temendo que isso possa levar a uma crise financeira, ou a um longo período de estagnação, como ocorreu no Japão depois da explosão da bolha imobiliária, no início dos anos 1990.

Mas a contenção do endividamento poderá ter sérias consequências na China e em outras partes do globo. Vários países ao redor do mundo estabeleceram vínculos mais fortes com a China do que vinha acontecendo anteriormente, em razão do seu papel não apenas de maior fabricante mundial, mas também, cada vez mais, de país consumidor. Uma redução do ritmo da produção econômica da China - somada  às disputas trabalhistas cada vez mais numerosas e à queda do crescimento na Europa - pode ser ruim para a economia global.

Acima de tudo, são cada vez maiores as evidências de que a restrição ao crédito está custando caro à economia chinesa. O Departamento Nacional de Estatística divulgou dados que mostram que, em maio, os investimentos, as vendas no varejo e a produção industrial sofreram uma contração. A queda dos investimentos e das vendas no varejo foram particularmente significativas e inesperadas.

Com este ambiente de redução da expansão econômica, o Banco Popular da China, o banco central do país, não acompanhou o recente aumento das taxas de juros do Federal Reserve dos Estados Unidos. Pelo menos em parte, ele vinha acompanhando os aumentos anteriores dos juros do banco central americano desde o outono.

Com a economia chinesa mostrando sinais de desaceleração e as autoridades dificultando o empréstimo, as pequenas empresas tornam-se particularmente vulneráveis. Elas representam cerca de 60% da produção econômica na China, em comparação com cerca de 50% na Alemanha, Japão e Estados Unidos, segundo Yi Gang, o presidente do Banco Popular da China.

No ano passado, tanto a Moody’s quanto a Standard & Poor’s rebaixaram o rating do crédito soberano da China preocupadas com a elevada dívida pública do país. O rebaixamento foi uma das razões pelas quais o governo intensificou algumas das recentes restrições aos empréstimos.

Pequim se mostrou rigorosa particularmente com os empréstimos concedidos por empresas financeiras online e outras empresas do setor privado, que passam por cima do sistema bancário controlado pelo Estado.

Embora os bancos comerciais tenham continuado a emprestar os recursos que têm nos depósitos, estes empréstimos convencionais destinam-se principalmente a empresas estatais. Ao mesmo tempo, credores privados cobram taxas de juros que são o dobro ou o triplo dos 6% cobrados pelos bancos, mas muitas vezes são as únicas fontes de financiamento para as pequenas empresas.

Apesar da elevação dos juros, “deveríamos reiterar também a enorme importância dos empréstimos privados, que são um importante suplemento do crédito bancário na economia chinesa”, disse Yi, falando no Fórum Lujiazui, um encontro realizado em Xangai das mais altas autoridades reguladoras do setor financeiro da China. O fórum, que ocorre no início de cada verão chinês, é um dos principais canais do governo para sinalizar os rumos da política monetária e financeira.

Os estrategistas financeiros da China deixaram claro que não se preocupam com as eventuais falhas e algumas tensões do sistema. Em maio, as vendas de automóveis no varejo caíram, e os carros não vendidos começaram a se acumular nas concessionárias. A decisão oficial de permitir pelo menos uma dúzia de inadimplências no pagamento de debêntures nas últimas semanas, depois de tentarem impedi-las durante anos, aborreceram alguns investidores.

Entretanto, a economia chinesa não está entrando em colapso. Pelos padrões internacionais, o ritmo das inadimplências no pagamento dos debêntures é ainda negligenciável. Embora as vendas de automóveis tenham se estabilizado, encontram-se em um patamar muito elevado depois de 20 anos de forte crescimento, o que provoca engarrafamentos crônicos do trânsito. A demanda de imóveis continua vigorosa, assim como a construção civil.

Mas diante de um alto patamar da dívida em toda a economia, “as autoridades reguladores precisam ser cautelosas e não reagir com medidas duras que poderiam aumentar essencialmente os riscos”, aconselhou Fred Hu, um respeitado economista chinês que atualmente é “chairman” de um fundo de cobertura de Hong Kong.

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