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Você tem dificuldades em entender o jargão científico? Os cientistas também

Artigos científicos com muita terminologia técnica são menos propensos a serem citados por outros pesquisadores

Katherine Kornei, The New York Times - Life/Style

06 de maio de 2021 | 05h00

Polje, nappe, vuggy, psammite. Alguns cientistas que estudam cavernas talvez não esbocem qualquer dúvida quanto aos significados desses termos, mas para o resto de nós, eles podem muito bem ser palavras gregas antigas.

A terminologia técnica não é exclusiva do mundo dos cientistas - basta perguntar a um confeiteiro sobre técnicas de como rechear uma torta ou a um arborista o que são brácteas, por exemplo. Entretanto, ela é dominante na academia, e agora uma equipe de pesquisadores analisou o jargão em um conjunto de mais de 21 mil manuscritos científicos.

Eles descobriram que artigos contendo quantidades maiores de jargão em seus títulos e resumos eram citados com menos frequência por outros pesquisadores. A divulgação científica - com o público em geral, mas também entre os cientistas - sofre quando um artigo de pesquisa é escrito com muita terminologia técnica, concluiu a equipe. Esses resultados foram publicados na quarta-feira na revista acadêmica Proceedings of the Royal Society B.

O jargão pode ser um problema, mas também serve a um propósito, disse Hillary Shulman, cientista da comunicação da Universidade do Estado de Ohio. “À medida que nossas ideias se tornam mais refinadas, faz sentido que isso aconteça com nossos conceitos também.” Esse vocabulário próprio pode economizar tempo, e ser uma forma de transmitir um significado com precisão, disse ela. No entanto, ele também corre o risco de lembrar as pessoas - até mesmo alguns pesquisadores experientes - que elas não estão "por dentro".

“Isso afasta as pessoas”, disse Hillary.

Dois cientistas investigaram recentemente como o uso de jargão afeta a probabilidade de uma pesquisa ser citada em outros artigos de revistas científicas. Essas citações são um reconhecimento da importância e relevância de um estudo e são usadas para estimar a produtividade de um pesquisador.

Alejandro Martínez, biólogo evolucionista, e Stefano Mammola, ecologista, ambos do Conselho Nacional de Pesquisa em Pallanza, Itália, começaram reunindo artigos científicos. Usando a Web of Science, uma plataforma online que permite aos assinantes acessar bancos de dados de publicações acadêmicas, eles analisaram 21.486 manuscritos focados em pesquisas sobre cavernas.

A espeleologia, campo de estudo das cavernas, é uma área particularmente rica em jargões, disse Martínez. Isso porque atrai um grupo diversificado de pesquisadores, cada um dos quais traz sua própria terminologia. Antropólogos, geólogos, zoólogos e ecologistas acabam se encontrando em cavernas, disse. “Eles gostam das rochas ou dos insetos ou dos restos humanos ou das pinturas nas paredes”.

Para compilar uma lista de jargões relacionados às cavernas, Martínez analisou os glossários de livros sobre cavernas e revisões de estudos. Ele focou em cerca de 1.500 termos (incluindo os quatro que aparecem no início deste texto).

Mammola então desenvolveu um programa de computador para calcular a proporção de palavras do jargão no título e no resumo de cada manuscrito. Artigos com uma quantidade maior de jargão receberam menos citações, descobriram os pesquisadores. E nenhum dos artigos mais citados - com mais de 450 citações - usava jargão em seus títulos, enquanto quase todos tinham resumos em que menos de 1% das palavras eram jargões.

Como as citações são frequentemente vistas como uma métrica de sucesso acadêmico, o jargão tem um efeito negativo no artigo, Martínez e Mammola propõem. Menos citações podem significar que um artigo não está sendo lido e lembrado, o que é uma má notícia para a divulgação científica em geral, concluiu a equipe.

Outros pesquisadores descobriram, no entanto, que usar palavras menos comuns - uma espécie de jargão - pode ser benéfico. David Markowitz, pesquisador de psicologia da linguagem da Universidade de Oregon, analisou os resumos de quase 20 mil propostas para apoio financeiro da Fundação Nacional da Ciência dos Estados Unidos. Seus resultados, publicados em 2019, revelaram que os resumos que tinham menos palavras comuns tendiam a angariar mais verbas para apoio financeiro. “O jargão nem sempre está associado a resultados negativos”, afirmou Markowitz.

Mas a comunicação clara deve sempre ser um objetivo na ciência, disse Sabine Stanley, cientista planetária da Universidade Johns Hopkins. “É importante dar um passo atrás e sempre lembrar para o cientista que você é: como posso descrever o que estou fazendo para alguém que não está fazendo isso 24 horas por dia, 7 dias por semana como eu?”.

Sabine recentemente participou do Desafio Up-Goer Five na reunião anual da União Geofísica Americana. Inspirado por um quadrinho de xkcd explicando o foguete Saturn V em linguagem simples por Randall Munroe (um colaborador ocasional do The New York Times), o evento desafia os participantes a explicar seu trabalho usando apenas as mil palavras mais comuns da língua inglesa (usando um editor de texto).

“É bastante desafiador”, disse Sabine, que apresentou os novos resultados da sonda InSight em Marte. O título de seu texto? “Um computador espacial com o nome de In Sight pousou no mundo vermelho no ano passado e aqui está o que encontramos até agora”. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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