Susan Wright / The New York Times
Susan Wright / The New York Times

Entre cicatrizes, a beleza dos Balcãs

Uma terra de conto de fadas resiste em Bósnia e Herzegovina, principalmente na capital Sarajevo

Sarah A. Khan, The New York Times

05 de junho de 2019 | 06h00

Era uma vez, em uma terra distante, picos de esmeralda entrelaçados por rios cristalinos, encostas adornadas com aldeias de pedra e cânions unidos por altas pontes que se projetavam para os céus. Este reino encantador até tinha um nome encantador: Bósnia e Herzegovina.

Mas a Bósnia não é exatamente um conto de fadas: um bloco de apartamentos a poucos minutos do aeroporto de Sarajevo tem uma fachada salpicada de marcas de bala. Logo depois, um prédio tem um abismo e outro tem pedaços de gesso arrancados como dentes perdidos. As cicatrizes remanescentes são lembranças de um mal diferente daqueles dos contos de fadas, e que aconteceu apenas um quarto de século atrás.

E, no entanto, na Bósnia, encontrei cenários dignos de um conto de fadas, pontuado por minúsculos minaretes em vez de cruzes. Em uma época em que grande parte da Europa sofre com a suspeita de minha fé como uma entidade estrangeira violando suas fronteiras, eu vim à Bósnia para ver o que uma comunidade muçulmana local, com 500 anos de história enraizada no coração da Europa, poderia ser.

Em Bascarsija, o antigo quarteirão labiríntico no coração de Sarajevo, passeei pelas ruas do bazar do século XVI, da Era Otomana, que outrora fora demarcado para diferentes artesãos: os caldeireiros levavam as panelas em Kazandziluk; ferreiros forjavam ferramentas de ferro em Kovaci; curtidores vendiam artigos de couro em Saraci e sapateiros convergiram para o Cizmedziluk.

Hoje em dia, as lojas se misturam em uma infinita extensão de jogos de chá, chinelos de couro e obras de arte. Mas o que mais me chamou a atenção foram as aldravas de porta embelezadas com latão e prata. O zvekir é um símbolo da cidade, apresentado no brasão de armas do cantão de Sarajevo; é, me foi dito por um guia, uma homenagem à hospitalidade dos bósnios. "Talvez por causa das raízes islâmicas, as pessoas sejam acolhedoras", disse Reshad Strik, dono de um café chamado Ministry of Cejf. “Talvez seja por isso que há guerra aqui o tempo todo. Somos muito receptivos”.

Os Bálcãs ricochetearam de romanos a godos e de bizantinos a eslavos antes de serem conquistados pelos turcos no século XV, tornando-se o posto mais ocidental do Império Otomano - até ser engolido pelo Império Austro-Húngaro.

A Primeira Guerra Mundial começou após o assassinato do arquiduque Franz Ferdinand perto da Ponte Latina de Sarajevo e após a Segunda Guerra Mundial, a Bósnia se fundiu com a Croácia, Sérvia, Macedônia, Montenegro e Eslovênia na Iugoslávia Comunista. 

Nos anos 90, quando a Iugoslávia se dissolveu, o mesmo aconteceu com a civilidade humana. Sérvios cristãos ortodoxos, católicos croatas e muçulmanos bósnios, que haviam vivido por gerações em uma sociedade multiétnica, subitamente se tornaram perigosamente conscientes de suas diferenças. Por 1.425 dias - de 1992 a 1996 - Sarajevo ardeu sob um conflito que matou mais de 10 mil pessoas.

E ainda assim, o povo de Sarajevo resistiu. Vedran Smailovic, que era violoncelista na Ópera de Sarajevo, tornou-se um símbolo de perseverança quando tocou em meio às ruínas de Vijecnica, a obliterada prefeitura do século XIX de Sarajevo. No espetacular renascimento do átrio de Vijecnica, vi uma noiva e um noivo dançarem para fotos de casamento.

Grande parte da cidade foi reconstruída. Mas a cada passo encontrei relíquias do tempo de guerra: crateras em forma de pétalas deixadas pelo bombardeio, agora embalsamadas em resina vermelha e apelidadas de Rosas de Sarajevo. Tanques de brinquedo feitos de balas em lojas de souvenirs. E cemitérios - muitos cemitérios.

Visitei o ateliê de Nermina Alic, uma caldeireira que está seguindo o ofício de seu pai enquanto reinventa uma forma delicada de fazer gravações em latão e cobre chamada de savat. Perto dali, vi os vestidos da estilista Emina Hodzic Adilovic. Provei o tradicional doce baklava dzandar na confeitaria Baklava Ducan e vi a caligrafia islâmica contemporânea de Smajovic Mirza em Morica Han, um caravansariano (pousada) do século XVIII. No topo do Monte Trebevic, uma pista de trenó dos Jogos Olímpicos de Inverno de 1984 foi dizimada pelos sérvios que usavam o pico como um posto para atirar. Hoje, os moradores de Sarajevo recuperaram-no como um parque de grafite.

Visitei a região sul da Herzegovina, onde os picos escarpados e florestas poderiam ter sido as ilustrações de "Bela Adormecida". Viajantes diurnos enchem o bairro histórico de Mostar para atravessar a ponte Stari Most, do século XVI. O explorador otomano do século XVII, Evliya Celebi, escreveu que “a ponte é como um arco-íris que sobe aos céus, estendendo-se de um penhasco ao outro”.

A cidade de Mostar sofreu alguns dos bombardeios mais intensos da guerra. A Stari Most despencou no rio Neretva em 1993 e foi reconstruída em 2004. Sentada em um restaurante no penhasco oeste de Mostar, com a ponte brilhando sob o crepúsculo, eu me permiti entrar na fantasia de que eu estava em um conto de fadas, e que felizmente para sempre poderia finalmente estar perto da Bósnia./ TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA 

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