Sara Krulwich/The New York Times
Sara Krulwich/The New York Times

Além do entretenimento: a cortina se fecha sobre 'Miss Saigon'

Novamente em cartaz, musical da Broadway mostra as entranhas do patriarcado nas relações entre Ocidente e Oriente

Viet Thanh Nguyen, The New York Times

10 de agosto de 2019 | 06h00

Miss Saigon revive e está novamente excursionando. Esta é uma notícia animadora para alguns fãs dos musicais da Broadway, e para atores asiáticos e asiático-americanos diante da chance de conseguirem importantes papéis. Para outros, para os quais a obra perpetua conceitos profundamente arraigados de inferioridade asiática, não é uma boa notícia.

O musical fala de uma prostituta vietnamita de Saigon, durante os anos da guerra, que se apaixona por um soldado americano branco. O soldado volta aos Estados Unidos sem saber que ela espera um filho. A criança nasce e, quando ele retorna, entrega o filho para ele a fim de que o salve e o leve aos Estados Unidos, bem longe do Vietnã. Sozinha, a prostituta tira a própria vida. Assisti ao musical em Nova York em 1996. No meu idealismo sincero, acreditava que deveria ver a obra antes de criticá-la. Mas às vezes, as coisas são como a ficção nos mostra.

O público ao meu redor soluçava com a trágica história de amor. Fiquei indignado. Não podia deixar de pensar que Miss Saigon se inspirara na ópera de Puccini, Madama Butterfly, ambientada no Japão. Na história de Puccini, os dois infelizes amantes, uma japonesa e um americano branco, personificam a máxima de Rudyard Kipling: “O Oriente é o Oriente e o Ocidente é o Ocidente; jamais os dois deverão se encontrar”. Como Oriente e Ocidente se opõem fundamentalmente, os amantes estão condenados, ou, mais precisamente, um deles é condenado - a mulher japonesa.  Feliz com a perspectiva de que seu filho possa ter uma vida melhor no Ocidente, ela tira a própria vida sem valor.

O dramaturgo David Henry Hwang viu o absurdo da história. A sua peça M. Butterfly precede Miss Saigon, mas poderia também ser vista como uma sátira. Nesta última versão da fantasia realizada de 'Madama Butterfly' do desejo do branco, ele inverte os papéis do sedutor e do seduzido. Na peça de Hwang, o homem branco, Gallimard, um diplomata francês, é enganado por Song Liling, um belo cantor de ópera chinês que faz o papel de Madama Butterfly.

“O que você diria se uma rainha loira que volta para casa se apaixonasse por um homem de negócios japonês, baixinho?”, questiona Song. “Ele a trata com crueldade, depois vai para casa por  três anos,  durante os quais ela ora diante do seu retrato e recusa o casamento com o jovem Kennedy. Então, quando fica sabendo que ele casou, ela se mata. Acredito que você acharia esta moça completamente idiota, certo? Mas como ela é uma oriental que se mata por um ocidental - ah! - você acha lindo”.

Ocorre que, na verdade, Song Liling não é uma mulher. A fantasia de Gallimard é a fantasia do Ocidente a respeito do Oriente, em que as mulheres asiáticas representam a Ásia como um todo - feminilizadas, fracas, precisando de uma mão forte para resgatá-las de um patriarcado asiático opressor. O dom do resgate é tão apreciado por esta fraca mulher asiática que ela decide fazer a coisa mais anticonvencional e se mata por gratidão porque sua vida foi salva.  Hwang traça uma relação direta entre estas fantasias e a maneira como os Estados Unidos conduzem a guerra no Vietnã. O maior erro dos EUA naquela guerra foi achar, como Gallimard, que os asiáticos eram baixinhos, fracos, efeminados que poderiam ser acovardados pelo forte poder masculino do Ocidente.

Alguns que se irritam com estas críticas de Miss Saigon dirão: É só um espetáculo, nada mais do que isso. Mas o prazer da fantasia do espetáculo está exatamente na razão pela qual o espetáculo é importante. A fantasia não pode ser reduzida a mero entretenimento. A fantasia, e o prazer que ela nos proporciona, expressa algo em que queremos profundamente acreditar. O prazer provocado por este espetáculo baseia-se no privilégio experimentado pelo público, o privilégio  de não ser uma mulher asiática que se mata, o privilégio de ver o mundo do ponto de vista do poderoso homem branco, o salvador.

Racismo e sexismo não são incompatíveis com a arte. O prazer que uma obra de arte desperta não significa  que a obra não possa ser racista ou sexista, ou que o nosso prazer  não seja despertado pelas inúmeras imagens depreciativas profundamente arraigadas de asiáticos e de mulheres asiáticas. O paradoxo perturbador neste caso é o fato de que, na realidade, podemos amar e desejar pessoas que vemos como totalmente racistas e sexistas. Esta é a verdade verdadeira, não intencional de Miss Saigon.

Então, Miss Saigon deveria ser censurada ou cancelada? A questão irá nos distrair da resposta real, porque a censura ou o cancelamento não resolve as desigualdades da Broadway e de Hollywood. Talvez os que detestam o musical não devessem sentir-se tão perturbados se houvesse outras histórias sobre asiáticos ou vietnamitas para nos mostrar a sua diversidade. Se outras mil histórias fossem encenadas e filmadas sobre a nossa realidade, poderíamos perdoar a obra.

Em 1993, não muito depois da estreia na Broadway de Miss Saigon, a escritora Jessica Hagedorn intitulou sua antologia de literatura asiático-americana Charlie Chan morreu. Na realidade, parece que Charlie Chan está morto. Agora é a vez de Miss Saigon morrer.

Viet Thanh Nguyen é o autor  do livro 'The Refugees' e editor de' The Displaced Refugee Writers on Refugee Lives'. Além disso, ensina inglês na University of Southern California. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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