Sara Krulwich The New York Times
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Igualitário na teoria, elenco sem distinção racial exclui intérpretes não-brancos

Mesmo os esforços bem-intencionados para aumentar a diversidade criam complicações

Maya Phillips, The New York Times - Life/Style

01 de agosto de 2020 | 05h00

No final de junho, surgiram notícias de que as séries animadas Os Simpsons, Uma Família da Pesada, Guy, Big Mouth e Central Park veriam uma reformulação dos dubladores brancos que interpretam personagens não-brancos nos programas. Uma semana depois, Hamilton dominou a discussão no âmbito cultural no fim de semana do Dia da Independência dos Estados Unidos, quando a Disney+ lançou a versão para cinema do fenômeno da Broadway.

Em ambas as situações, os atores encarnam personagens com diversidade racial, no que foi chamado de “elenco sem preconceito de raça”. Mas se uma situação levou às desculpas habituais e às promessas de agir melhor, a outra foi comemorada como um exemplo corajoso de diversidade, embora no final apresente um conjunto de problemas mais complexos.

Mas a diferença entres os dois casos está no seu enfoque da natureza universal do branco nas narrativas e no setor de entretenimento dos Estados Unidos. Embora o mundo da dublagem na animação seja dominado por dubladores negros, selecionar uma pessoa não-branca para interpretar um personagem branco é um ato de subversão, uma normalização de algo que não é o padrão branco. Os líderes negros da Independência dos EUA, como apresentados em Hamilton, fazem com que a história dos EUA se torne algo que finalmente pertence às pessoas negras, ao contrário da realidade que com frequência refuta a relevância de suas vidas e suas contribuições.

Embora igualitário em teoria, o elenco sem distinção racial na prática é mais frequentemente usado para excluir intérpretes não-brancos. É um conceito moralista que produtores e criadores usam para se libertarem de qualquer responsabilidade social quanto a apresentarem um elenco diversificado de atores. A história na prática de live-action é mais escandalosa e isso tem sido bem documentado: o famoso proprietário de terras asiático de Mickey Rooney no filme Bonequinha de Luxo, o príncipe árabe de Alec Guinness em Lawrence da Arábia, Laurence Olivier com blackface (rosto pintado de preto) em Otelo.

Só na década passada, Natalie Portman, Emma Stone e Scarlett Johansson, entre outros, interpretaram personagens na tela que eram descendentes de asiáticos no texto original. E apesar desta tendência favorecer, com frequência, os atores brancos, ela certamente não se limita a eles. Pessoas não-brancas quase sempre são escaladas para assumir no palco ou na tela uma identidade diferente da sua própria, como se chinês fosse sinônimo de coreano, ou mexicano sinônimo de indiano.

Desnecessário dizer, mas o fato é que qualquer seleção de um artista para um papel de um personagem cuja raça não é a dele supõe que o artista mergulhe na experiência de vida de uma pessoa cuja cultura não é a sua, e assim seu desempenho inevitavelmente será uma aproximação. Kristen Bell, cuja Molly Tillerman, personagem multirracial da série da Apple TV Central Park, Jenny Slate que dubla Missy Foreman-Greenwald em Big Mouth e Mike Henry, que faz a voz de Uma Família da Pesada e do personagem Cleveland Brown em The Cleveland Show, anunciaram sua decisão de se retirar em nome da representação correta.

Hank Azaria, que durante anos dublou o personagem indiano Apu em Os Simpsons, renunciou ao papel no começo deste ano; no mês passado foi anunciado que a série não mais usará atores brancos para dublarem personagens não-brancos. Apesar desta tendência mais recente, atores e criadores têm defendido suas decisões com base em argumentos baseados no mérito. No começo deste ano, de fato, Loren Bouchard, um dos criadores de Central Park, explicou a decisão de Bell dizendo que “Kristen precisava ser Molly; não conseguimos torna-lá Molly”.

Com mais frequência, quando a defesa não é de que “não era a melhor pessoa para o papel”, essa “melhor pessoa” é branca. Não é coincidência. Outra defesa que ouvimos muito frequentemente no discurso da internet envolve o argumento padrão de que a história, o texto sagrado, precisa ser preservada como foi escrita. Mas mesmo que não deva ser reinterpretada ou contestada, ainda assim é um erro reconhecer que, em muitas histórias, a natureza branca do personagem não é importante para a narrativa.

Então, por que não usar essa oportunidade para recriar o personagem como alguém que não se insere na maioria? O fato de que Ariel é branca não tem nada a ver com a história dela quanto a querer estar com seu amor e andar em terra. A seleção de uma atriz negra para interpretar Hermione Granger na peça Harry Potter e a Criança Amaldiçoada provocou gritaria dos fãs, mas a natureza branca da personagem nunca foi relevante para seu brilho.

Mas por mais bem intencionados, complicações surgem no caso de trabalhos que pretendem usar um elenco sem preconceitos de raça para destacar pessoas não-brancas que do contrário não seriam representadas. Os criadores podem fazer isto achando que seu trabalho foi feito, mas não consideram que um homem negro selecionado para ser um criminoso ou uma mulher latina como uma sedutora descarada – mesmo quando escalados sem nenhum olhar para seu rosto – ainda assim é problemático.

Uma falta de visão que pode levar a outra. E também há o problema de Hamilton. O musical pode ter corpos diversos no palco, mas a produção que pretenderia subverter uma narrativa tradicionalmente branca não deve se basear somente em atores não-brancos, mas reavaliar a maneira fundamental como esse novo elenco vai mudar a história.

Em Hamilton, a revisão da história dos Estados Unidos é deslumbrante e importante, mas a peça também negligencia e nega trechos da história original que se ajustam de modo excelente neste novo modelo. A relação dos personagens com a escravidão, por exemplo, mal é mencionada porque não seria coerente com a reformulação triunfante em termos do elenco dos primeiros líderes do nosso país (Lin-Manuel Miranda, criador e estrela de Hamilton disse que esta crítica é “válida”).

O problema de uma produção sem preconceito racial talvez seja mais o fato de que o elenco ainda necessita eliminar a identidade dos personagens reimaginados. A seleção dos atores de modo descuidado, tanto em papéis nas séries de animação como nos filmes de ação na TV, no cinema ou no palco, supõe que as identidades não valem nada e que todas as experiências são transferíveis, o que está muito longe da realidade. Falta de visão não é desculpa. Num momento em que reavaliamos tudo, envolvendo a representação, talvez seja o momento de todos nós finalmente abrirmos nossos olhos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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