Gracia Lam
Gracia Lam

Estudos sobre envelhecimento identificam uma vilã: a inflamação

Especialistas identificaram uma inflamação crônica, mas raramente reconhecida, que contribui para uma ampla variedade de doenças, como depressão e Alzheimer

Jane E. Brody, The New York Times

03 de janeiro de 2020 | 06h00

A busca da fonte da juventude data de vários séculos e está marcada por muitos falsos começos e promessas não cumpridas. Mas a moderna ciência médica está chegando gradativamente a algo que poderá permitir realisticamente que as pessoas tenham uma vida mais longa e mais saudável – desde que elas estejam dispostas a abrir mão de alguns prazeres edonísticos.

Especialistas da área de biologia do envelhecimento identificaram um distúrbio universal, mas raramente reconhecido, que contribui de maneira considerável para uma ampla variedade de doenças que destroem a saúde: cardíacas, diabetes, câncer, artrite, depressão e mal de Alzheimer. Trata-se de uma inflamação crônica, uma irritação menor que pode minar o bem-estar praticamente do organismo como um todo.

Esta inflamação ocorre em graus variados com a idade e em todos os  mamíferos, independentemente de todas as infecções existentes. Os pesquisadores a chamam de “inflammaging (inflammation+aging)”. “Embora o inflamação crônica avance de maneira lenta, é a causa da maioria das doenças crônicas e constitui uma grave ameaça à saúde e à longevidade dos indivíduos”, explicam Roma Pahwa, do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos, e o especialista Ishwarlal Jialal, da California Northstate University, em um trabalho recente.

Como reverter a inflamação

Entretanto, estudos identificaram medidas que podem minimizar a potência da inflamação crônica e bloquear – e possivelmente reverter - o seu avanço: a adoção de uma dieta saudável, a prática regular de exercícios físicos, redução do excesso de peso, um número adequado de horas de sono, controle do stress e abstenção do tabagismo.

A inflamação crônica decorre  da incapacidade do sistema imunológico de bloquear completamente a sua resposta a uma doença, insulto ou ferimento. Entre os fatores que a causam está a incapacidade do organismo de eliminar um agente que induz a inflamação, como uma bactéria ou um fungo; a exposição a uma substância externa, como amianto, que não pode ser eliminada; e a presença de uma doença autoimune como a artrite reumatoide.

Com o envelhecimento, as respostas do sistema imunitário das pessoas passam a ser reguladas de maneira menos adequada, o que produz níveis elevados de substâncias inflamatórias  no sangue, como a proteína C reativa e as quimiocinas, e permite que agentes inflamatórios como a interleuquina-6 (IL-6) e o fator de necrose tumoral (TNF-alfa) persistam nos tecidos do corpo.

A droga metformin, usada comumente no tratamento do diabetes Tipo 2, tem um efeito anti-inflamatório e será testado  para observar sua capacidade de adiar o desenvolvimento de doenças relativas à idade em um experimento futuro.

Outra consequência do envelhecimento é o acúmulo de células chamadas senescentes, células normais que param de se dividir, contribuindo para o envelhecimento dos tecidos, e secretam substâncias como as citoquinas, que induzem a inflamação. A eliminação dessas células pode combater a inflamação crônica, segundo Steven N. Austad, diretor de estudos do envelhecimento da Universidade de Alabama, em Birmingham.

Uma combinação de dois medicamentos, dasatinib e quercetina, foi mostrada em um estudo realizado pela Clínica Mayo em camundongos obesos para remover as células senescentes e permitir a retomada do crescimento das células no cérebro. Mas os consumidores não precisarão esperar os resultados de estudos de medicamentos para adotar medidas que possam evitar a inflamação crônica.

Além do controle do peso, Stephen Kritchevsky, professor de gerontologia da Wake Forest School of Medicine da Carolina do Norte, recomenda a limpeza regular dos dentes para controlar a doença periodontal que pode ser uma causa da inflamação crônica.

Ele aconselhou também cautela na utilização de antibióticos, antiácidos e medicamentos anti-inflamatórios não esteroides (NSAIDs) que podem destruir a população de microrganismos normalmente saudáveis dos intestinos e gerar um “intestino poroso que permite que as bactérias entrem na circulação, e é muito favorável à inflamação”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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