Seth Perlman/Associated Press
Seth Perlman/Associated Press

Enxames de insetos despertam o interesse científico

Imensa migração de moscas das flores traz benefícios ecológicos, apontam estudos

Carl Zimmer, The New York Times

08 de julho de 2019 | 06h00

As joaninhas dominaram brevemente os noticiários. Na noite de 4 de junho, os meteorologistas americanos que observavam imagens de radar na Califórnia, viram algo semelhante a uma ampla faixa de forte chuva. Não havia nuvens no céu. Contataram então um observador meteorológico amador diretamente em baixo do misterioso distúrbio. Ele não ficou encharcado de chuva, mas viu uma invasão de joaninhas. Elas estavam em toda parte.

Aparentemente, o radar havia captado uma nuvem destes insetos  em plena migração sobre uma área de 130 quilômetros, com um núcleo denso de 15 quilômetros de largura pairando entre 1.525 a 2.740 metros de altitude. Em seguida, os meteorologistas perderam o enxame de vista, apesar das suas dimensões. As joaninhas desapareceram.

É possível que outras espécies de insetos estejam migrando em massa em outras partes do mundo. Mas são poucos os pesquisadores que estão usando o radar para rastreá-los. Na Austrália, cientistas acompanham a movimentação de gafanhotos e, atualmente, o ecologista Jason Chapman auxilia pesquisadores na China na montagem de uma nova rede de observatórios de insetos.

Em comparação às outras migrações de animais, a dos insetos é um mistério científico. Eles se deslocam em grandes números de um lugar para outro sem aviso prévio. “As migrações são totalmente invisíveis”, explicou Chapman, da Universidade de Exeter na Grã-Bretanha. Ele e seus colegas administram uma rede de pequenas estações de radar na Inglaterra que vasculham o céu 24 horas por dia tentando detectar inseto. “Temos muitas informações a respeito de cada inseto que voa individualmente, inclusive uma medida de sua forma e do seu tamanho”, destacou o cientista.

Recentemente, Chapman e colegas decidiram escanear as suas imagens de moscas das flores. Elas são insetos inócuos, mas evoluíram imitando insetos que picam como as abelhas, uma maneira de desencorajar os predadores. As moscas das flores proporcionam dois grandes benefícios ecológicos. Quando larvas, defendem os jardins e as plantações comendo pulgões. Quando adultas, polinizam as flores comendo o néctar e o pólen.

A fim de fazer a contagem das moscas das flores que migram sobre o sul da Inglaterra, Chapman e sua equipe determinaram a assinatura distinta no radar de uma geleia de moscas das flores no laboratório, e depois a procuraram em imagens feitas por suas estações de radar. Os resultados, divulgados na edição de junho da revista Current Biology, revelaram hordas de insetos voando rápidas. Os cientistas estimam que, anualmente, até 4 bilhões de joaninhas migrem  para o sul da Inglaterra e além das fronteiras.

Esta migração em massa exerce uma importante influência no meio ambiente. A equipe de Chapman estima que as larvas produzidas pelas moscas na sua migração anual no sul da Inglaterra devoram em média 6 trilhões de pulgões - que pesam no total cerca de 6.350 toneladas. As moscas visitam bilhões de flores todos os anos. Segundo os pesquisadores, as s importam de 3 a 8 bilhões de grãos de pólen para o sul da Inglaterra, na primavera, e carregam com elas de 3 a 9 moscas das flore bilhões de grãos quando se dirigem para o sul, no outono.

Além disso, estes insetos são nutrientes. Muitos são comidos pelos predadores; os outros fertilizam o solo depois que morrem. Eles representam cerca de 70 toneladas de biomassa, com 35 milhões de calorias, calculam os pesquisadores. “Acho que as pessoas ficarão impressionadas com a escala das migrações e a importância dos seus serviços para o ecossistema”, afirmou Chapman./ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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