Daniele Volpe para The New York Times
Daniele Volpe para The New York Times
Kirk Semple, The New York Times

03 de janeiro de 2020 | 06h00

CHOLOMA, Honduras - Mais de 400 pessoas morreram no ano passado enquanto uma das piores epidemias de dengue já vistas varreu a América Central - tipo de surto que, para alguns cientistas e funcionários da saúde pública, deve se tornar mais frequente e generalizado por causa da mudança climática.

Em Honduras, onde ocorreram mais de 40% das mortes decorrentes da dengue na América Central no ano passado, de acordo com a Organização Panamericana de Saúde, os efeitos da mudança climática foram agravados pela disfunção no governo, tumultos políticos e apatia do público.

No ano passado, o país teve mais de 107 mil casos da doença - mais de 13 vezes o número registrado em 2018 - e pelo menos 175 mortes. Em 2018, foram apenas três mortes decorrentes da dengue em Honduras.

A dengue é transmitida pelo mosquito Aedes, que infesta áreas urbanas das regiões tropicais e subtropicais do mundo. Dezenas de milhões de casos ocorrem todo ano em mais de 100 países, e os sintomas incluem febre, sangramento interno e choque.

Em Honduras, as autoridades de saúde determinaram que a epidemia teve início no segundo semestre de 2018. Segue em vigor um estado de emergência de saúde declarado em julho de 2019 pelo governo do presidente Juan Orlando Hernández.

O surto teve início em uma época de turbulência política, com violentos protestos nas ruas contra o governo de Hernández e pedidos de sua renúncia. O país também sofre com o alto índice de homicídios e a pobreza generalizada.

O surto de dengue encontrou pouca resistência de um sistema público de saúde arrasado por cortes no orçamento e pela corrupção.

Os programas criados para detectar surtos de doenças transmitidas por mosquitos foram pífios. As instalações médicas do país careciam da capacidade para lidar com as demandas normais do país, que dirá uma epidemia.

“Em outro país, talvez o número de doentes fosse comparável, mas haveria menos mortes", disse Eduardo Ortíz, assessor da Organização Panamericana de Saúde em Honduras. “A cura para a dengue é política.”

A epidemia tem sido particularmente brutal na província industrial de Cortés, no norte de Honduras. De acordo com as autoridades, Cortés se tornou uma espécie de motor para a crise nacional, pois a grande população migrante de trabalhadores de fábrica ajuda a espalhar a doença a outras regiões quando visitam suas casas.

Wendy Carcamo, que vive na região, disse que sabia pouco a respeito da epidemia em 2018. Então, um dia em fevereiro de 2019, seu filho, Jostin Pineda, 7 anos, adoeceu.

Wendy disse que, nos dias que se seguiram, a doença de Jostin foi diagnosticada equivocadamente por médicos de três clínicas de saúde particulares. O último médico encaminhou o menino ao hospital público principal da região, mas, à essa altura, a doença já tinha avançado demais, e ele morreu na manhã seguinte.

É uma história de oportunidades perdidas que se tornou comum durante a epidemia atual.

“Enquanto mãe, eu não estava preparada", disse Wendy. “E os médicos também demonstraram despreparo.”

A Dra. Dinorah Nolasco, diretora regional de saúde em Cortés, reconheceu que um dos principais fatores contribuindo para a difusão da epidemia foi a falta de profissionais de saúde treinados. Mas ela também disse que suas equipes enfrentavam dificuldade para chegar a bairros controlados por gangues.

No bairro de López Arellano, em Choloma, uma das principais cidades de Cortés, as equipes da Dra. Nolasco conseguiram garantir o acesso regular somente depois que ela se reuniu com líderes comunitários, que negociaram com a liderança das gangues. Mas, enquanto isso, López Arellano se tornou um foco de dengue.

Os cientistas também apontam para outro fator que pode contribuir para a epidemia: condições meteorológicas.

No ano passado Honduras passou por secas intensas somadas a períodos de chuva intensa, parte de um padrão de variabilidade climática cada vez maior que, de acordo com os cientistas, está provavelmente ligado à mudança climática.

Durante os períodos de seca extrema, os moradores de bairros sem fonte de água confiável acabam armazenando água em seus lares, criando potenciais focos para a reprodução dos mosquitos. Durante a chuva pesada, as enchentes podem criar mais ambientes propícios para a reprodução do inseto.

Durante visita recente a López Arellano, a Dra. Nolasco fez uma parada no lar de uma família que tinha perdido uma criança para a dengue. Inspecionou a caixa d’água e encontrou centenas de larvas de mosquito nadando ali. O mesmo foi visto em uma casa do outro lado da rua.

“As pessoas estão pensando em outros problemas", disse a Dra. Nolasco. “Se eu fosse uma mãe com três ou quatro filhos, estaria pensando no que dar de comer a eles, ou preocupada se meu filho está envolvido com as gangues. Sua última preocupação será a dengue.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Tudo o que sabemos sobre:
Honduras [América Central]dengue

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.