Ksenia Kuleshova / The New York Times
Ksenia Kuleshova / The New York Times

Equipe policial alemã desmente boato sobre estupro de jovem

Notícia circulou na plataforma Facebook e provocou ondas de medo e de revolta. Policiais empreenderam campanha de porta em porta para alertar moradores do sul do país sobre a desinformação 

Max Fisher e Amanda Taub, The New York Times

23 de março de 2019 | 06h00

TRAUNSTEIN, ALEMANHA - O boato começou, como agora acontece frequentemente, no Facebook. Um grupo de refugiados muçulmanos no sul da Alemanha, segundo o post, teria arrastado uma menina de 11 anos em baixo de um viaduto onde foi estuprada. Quando a polícia desmentiu a acusação, falou-se que políticos ligados à União Europeia os teriam obrigado a encobrir o ataque.

O boato, que saiu no início deste ano, provocou ondas de medo e de revolta em toda a Alemanha pelo News Feed do Facebook. Os usuários ficaram cada vez mais preocupados, e concluíram que estes perigosos refugiados, e esses políticos ambíguos, deviam ser enxotados.

No mundo, em geral, os descalabros alimentados pela boataria são tomados como fatos verídicos. Mas Andreas Guske, inspetor de polícia da cidade  de Traunstein, na Baviera, onde há um grande número de refugiados, achou que sua comunidade não poderia se mostrar complacente. Os ataques aos refugiados já estavam aumentando. E a Alemanha meridional está na linha de frente na luta pela identidade na Europa. “O Facebook não é apenas um quadro de avisos onde as pessoas penduram coisas e outras as leem”, disse Guske. “O Facebook, com os seus algoritmos, influencia as pessoas”.

Segundo pesquisadores, a plataforma faz vir à tona emoções primitivas, negativas, e isto pode até distorcer a percepção dos usuários do que é certo e do que é errado. E boatos viajam mais depressa com a mídia social, tornando-se frequentemente mais prejudiciais à medida que se espalham. “Nada disso acontecia antes do Facebook”, acrescentou.

Desmentindo o boato

Por isso, o inspetor de polícia e os seus dois assistentes empreenderam uma campanha de porta em porta, erradicando o boato online ou não. A equipe de Guske não prende as pessoas que postam boatos incendiários, nem os multa. Os seus integrantes atuam mais como funcionários da saúde pública, preparando as comunidades a se precaverem contra a desinformação viral.

A iniciativa reflete a crescente preocupação dos governos com a intensificação da violência e do extremismo por meio do Facebook. Ela reflete também a falta de fé da companhia na possível correção do problema. Um executivo da rede social disse que a companhia “colabora com as autoridades alemãs”.  Apesar disso, Guske disse que tem tido pouca ajuda da empresa. 

Para parar com o boato do estupro, Guske identificou os moradores que haviam compartilhado o post. E foi atrás da história desde que ela penetrou na mídia social e nas fábricas de boatos fora da internet. Ele tinha dois objetivos: persuadir os criadores da falsa notícia a repudiar suas afirmações, e encontrar o eventual elemento verídico que se transformara em uma história mentirosa. Estava convencido de que mostrar aos moradores como o Facebook distorcera a realidade era a única maneira de convencê-los a rejeitar o que haviam identificado como falso.

Início da desisformação

O boato começou quando a polícia prendeu um cidadão afegão acusado de tocar uma moça de 17 anos. Quando os usuários do Facebook compartilharam os relatos do incidente, acrescentaram detalhes espúrios. Um mal-intencionado virou vários. Um toque virou estupro. E uma vítima de 17 anos passou a ser uma menina de 11.

A polícia postou uma declaração reconstituindo a difusão do boato. Mas Guske sabia que a verificação de um fato jamais  se tornaria tão grande quanto um boato obsceno na linda do tempo do Facebook, que promove conteúdo baseado em parte na possibilidade de manter os usuários envolvidos.

A sua equipe foi nas casas dos usuários que haviam espalhado o boato, mostrando a cada um as evidências de que eles haviam se equivocado. Todos, com a exceção de um, retiraram ou corrigiram os seus posts. No fim do ano passado, um chefe de polícia da cidade de Gadwal, na Índia, chamou a atenção por adotar uma estratégia muito semelhante à de Guske para combater a boataria. Países da Ásia e da África, que representam o futuro dos negócios do Facebook, revelaram-se mais suscetíveis à violência ligada à plataforma, afirmam os especialistas.

A mídia social permite que qualquer pessoa, em qualquer país, espalhe rumores a respeito do que ocorre no lugar em que mora. Vários nacionalistas brancos, interessados particularmente nos conflitos culturais da Baviera, fizeram exatamente isto. E Guske está impotente para detê-los. “É difícil impedir o surgimento de notícias falsas, porque uma vez que o Facebook as transmite...” - ele prosseguiu, balançando a cabeça e batendo com a palma da mão sobre a mesa. “O que mais se pode fazer?”. / Shane Thomas McMillan colaborou com a reportagem

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