Murat Cetinmuhurdar/Palácio Presidencial, via Reuters
Murat Cetinmuhurdar/Palácio Presidencial, via Reuters

Erdogan adota insultos e sermões para manter fascínio da população

O presidente da Turquia faz diversos discursos por semana, transmitidos ao vivo em diversos canais, em um estilo adequado a líderes linha-dura

Carlotta Gall, The New York Times

12 Abril 2018 | 15h00

NIKARA, TURQUIA - O Presidente Recep Tayyip Erdogan faz até três discursos todos os dias da semana. Nessas conversas carismáticas e combativas, que são o principal veículo de seu sucesso, ele chama os defensores da democracia de “saqueadores”. Ele zomba do ministro das Relações Exteriores alemão dizendo que é um “desastre”. Ele chama seus inimigos publicamente pelo nome e tece comentários desde os piedosos aos mais agressivos.

Mesmo depois de 15 anos no poder, Erdogan, cujas habilidades como orador até mesmo seus oponentes invejam, trata cada evento como um comício de campanha. Ele continua sendo o político mais popular do país e está pronto para buscar a reeleição, possivelmente este ano, com pesquisas de opinião mostrando mais de 40% de apoio.

Muito desse apelo pode ser creditado a um estilo de fala que os partidários consideram inspirador, e os detratores, faccioso. Nenhum dos lados duvida que ele tenha atingido a classe trabalhadora da Turquia.

Neste aspecto, Erdogan se encaixa perfeitamente na crescente tendência global em direção a autocratas e homens fortes.

Os discursos de Erdogan são frequentemente transmitidos ao vivo por vários canais, quase universalmente pró-governo. Sua receita favorita: atacar pessoas que seus partidários adoram odiar, sejam os Estados Unidos, líderes europeus ou a elite liberal.

Para seus defensores, Erdogan fala como um pai ou alguém próximo, como um vizinho. Eles acreditam que ele diz o que pensa, em linguagem salgada e cotidiana, como aqueles que o escutam.

“Estilisticamente ele é sempre cheio de surpresas”, disse Asli Aydintasbas, ex-jornalista e membro sênior do Conselho Europeu de Relações Exteriores. “Ele não se importa em chocar as pessoas e engajá-las de uma maneira pública”.

Mas Erdogan também se inspira em poesia e contos da vida do profeta Maomé. Ele abaixa a voz como reverência para honrar os soldados mortos e depois volta para um tom mais alto para agitar o orgulho nacional.

Dar sermões faz parte do treinamento de Erdogan. Ele frequentou uma escola religiosa e estudou a pregação islâmica.

“Para os conservadores, isso é alguém que defende seu estilo de vida”, disse Aydintasbas.

Em quase todos os discursos há um momento em que ele de repente muda de marcha. Ele passa do discurso declarativo para abordar diretamente, em estilo imperativo ou interrogativo, quem quer que seja seu alvo do dia.

Ayhan Bilgen, porta-voz do partido de oposição curdo, o Partido Democrático do Povo, disse que Erdogan demonstrou uma personalidade combativa desde seus primeiros dias na política.

“Sempre criando tensão, tentando argumentar sobre tudo”, disse ele, “e na tensão assumindo o controle.”

Quando, uma vez por semana, Erdogan se dirige a legisladores de sua Câmara Parlamentar do Partido Justiça e Desenvolvimento, o evento parece menos uma reunião política do que uma partida de futebol - apoiadores acenam bandeiras e cantam.

Mas há tanto aqueles que são inspirados por seus discursos como outros tantos que estão cansados deles.

“Ele está sempre gritando”, disse um lojista que pediu para não ser identificado pelo nome, já que pessoas foram presas por denegrir o presidente.

Uma política da oposição, Meral Aksener, que está se preparando para desafiar Erdogan nas próximas eleições, ridicularizou os discursos do presidente no Twitter. 

"Quero me dirigir ao sr. Erdogan na sua presença", disse ela, pegando emprestado seu truque retórico favorito. “Amigo, por favor, fique em silêncio por um momento, poupe um pouco de tempo para sua família, fique em casa”, disse ela.

"Você não precisa falar sobre todos os problemas. Você não precisa apontar o dedo para todos os lugares. Fique em casa um pouco, tire uma folga. Respire fundo, para que possamos fazer o mesmo e a Turquia também.”

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