Nicole Tung para The New York Times
Nicole Tung para The New York Times

Erdogan promove ensino religioso, enfurecendo população

Líder turco parece promover formação de uma ‘geração de fiéis’

Carlotta Gall, The New York Times

27 de junho de 2018 | 15h15

ISTAMBUL - As escolas públicas estão fechando, com o mínimo de aviso prévio, substituídas por escolas religiosas. Exames são descartados por capricho do presidente. Dezenas de milhares de professores do sistema público de ensino foram demitidos. Grupos religiosos externos estão lecionando nas escolas, sem o consentimento dos pais.

A batalha envolvendo a formação da próxima geração turca tem sido um ponto turbulento para o presidente Recep Tayyip Erdogan, reeleito no dia 24 de junho numa espécie de referendo que aprofunda ainda mais sua marca no país após 15 anos no comando do governo.

Erdogan já enfraqueceu as instituições democráticas da Turquia, promovendo um expurgo nos tribunais e entre os servidores civis para expulsar aqueles suspeitos de fazerem oposição a ele, controlando a mídia e mantendo um estado de emergência após uma tentativa de golpe em 2016.

Os opositores de Erdogan temem que sua reeleição para a presidência, fortalecida após as mudanças constitucionais aprovadas no ano passado, dará a ele um poder quase ilimitado promover sua pauta e alterar fundamentalmente a sociedade turca.

O ensino se tornou uma questão central, com pais do país inteiro protestando contra as mudanças impostas e lutando para encontrar escolas de sua escolha. A jogada mais controvertida é a expansão do ensino religioso promovida por Erdogan.

O presidente deixou claro seu desejo de reformar a Turquia à sua imagem, criando um legado capaz de rivalizar com o de Mustafa Kemal Atatürk, fundador da república e primeiro presidente turco. As visões desses líderes para a Turquia não poderiam ser mais diferentes. Atatürk era um secular e nacionalista. Erdogan é um islamista que subiu da classe trabalhadora conservadora e religiosa.

Mesmo na época em que era primeiro-ministro, há seis anos, Erdogan declarou seu desejo de “criar uma geração de fiéis".

“Alguém espera que um partido de identidade conservadora e democrática crie uma juventude ateia?”, disse ele, desafiando seus opositores quanto aos objetivos de seu Partido da Justiça e do Desenvolvimento. “Talvez vocês tenham esse objetivo, mas nós, não”. 

As palavras revelaram uma causa defendida por Erdogan e seus eleitores. Para eles, a promoção das escolas religiosas representa uma democratização do ensino e uma reversão da discriminação praticada na república secular.

As raízes religiosas da Turquia são profundas, ainda que a separação entre igreja e estado seja bem estabelecida. Nem mesmo o principal desafiante de Erdogan na corrida presidencial, Muharrem Ince, se opôs à promoção do ensino religioso, buscando, em vez disso, incorporar o tema à sua campanha, anunciando que esse ensino seria optativo.

Era uma posição claramente voltada para unir um eleitorado que se viu dividido diante do programa de Erdogan, responsável por substituir muitas escolas púbicas seculares por escolas religiosas, conhecidas como escolas Imã Hatip (o nome significa pregador religioso).

As escolas Imã Hatip lecionam o currículo nacional, mas quase metade dos cursos é de religião e as principais aulas são de árabe e de estudos do Alcorão.

Erdogan promoveu uma vasta expansão das escolas: eram 450 há 15 anos, e hoje são 4.500 em todo o país. Este ano, o governo aumentou o orçamento destinado ao ensino religioso em 68%, chegando a US$ 1,5 bilhão.

Como chefe de governo eleito, Erdogan tem todo o direito de promover as mudanças que quiser, disse Batuhan Aydagul, da organização não governamental Iniciativa para a Reforma do Ensino. Oitenta e sete por cento dos estudantes ainda frequentam escolas seculares, apontou ele. “Não estamos no Paquistão", disse.

Mas, especialmente entre a aspirante classe média de Istambul e outras cidades, os pais se queixaram da promoção agressiva do ensino religioso por parte de Erdogan, tendo como resultado a divisão e o engano em relação aos padrões de ensino, um considerável estrago.

Alguns pais estão tirando seus filhos das escolas religiosas e os mandando para o ensino particular, ou aceitando escolas técnicas e vocacionais, a contragosto.

O ministério da educação reconheceu que 69% das vagas nas escolas Imã Hatip ainda estavam disponíveis em 2016. Mas essas escolas não param de surgir. 

No distrito de Besiktas, os pais lutam há dois anos para impedir que sua escola seja transformada numa Imã Hatip. A escola já foi parcialmente convertida, e o ensino religioso ganhou espaço. No ano passado, uma turma de estudantes de 12 anos assistiu a um filme a respeito de demônios que foi tão violento e assustador a ponto de muitos terem pesadelos, de acordo com os pais. 

“O filme ensina que, ao renunciar à fé, seu destino será este horror", contou um pai, Erdogan Delioglu. Apesar das queixas dos pais, o mesmo filme foi exibido a outra turma em maio.

“Estão roubando o futuro das crianças", disse Delioglu.

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