Jeon Heon-Kyun/EPA, via ShutterstocK
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'Escândalo acadêmico' do governo sul-coreano causa protestos de jovens

Polêmica se tornou o maior constrangimento da presidência de Moon, que enfrenta uma economia enfraquecida e a falta de oportunidades para muitos jovens

Choe Sang-Hun, The New York Times

03 de novembro de 2019 | 06h00

SEUL, COREIA DO SUL - A maior crise política enfrentada pelo presidente Moon Jae-in, da Coreia do Sul - semanas de grandes protestos que mancharam a imagem dele e forçaram a renúncia do ministro da justiça do seu governo - teve início com um obscuro trabalho de pesquisa na área da medicina. Publicado em 2009, o estudo citava como sua principal autora a filha de um professor, Cho Kuk, que se tornou ministro da justiça no governo Moon.

Mas, em agosto, um jornal descobriu que o feito da filha ocorreu quando ela passou apenas duas semanas fazendo um estágio com a equipe de pesquisas quando ainda estava no ensino médio.A revelação enfureceu os estudantes sul-coreanos, para quem não seriam necessárias mais provas para que exigissem a demissão de Cho, denunciando como mentirosa a promessa de Moon de criar “um mundo sem privilégios”.

O escândalo explodiu e se tornou o maior constrangimento da presidência de Moon, que enfrenta uma economia enfraquecida e a falta de oportunidades para muitos jovens. Um dos focos da indignação é o tratamento extremamente privilegiado oferecido aos filhos da elite, que têm acesso fácil às melhores universidades e empregos, enquanto o restante da juventude precisa disputar espaço na enfraquecida economia da Coreia do Sul.

A história do implausível feito acadêmico ligado à filha do ministro da justiça cristalizou esse ressentimento. “O estudo é tão técnico que não consigo entender nem mesmo o título, e estou me especializando na área de engenharia bioquímica", disse Hong Jin-woo, estudante de pós-graduação da Universidade Nacional de Seul.

Cho era um professor famoso da Faculdade de Direito da Universidade Nacional de Seul até Moon fazer dele secretário da presidência, no ano passado, promovendo-o a ministro da justiça em agosto. Os estudantes suspeitavam que a influência de Cho teria ajudado a filha dele, Cho Min, a ser apontada como principal autora do projeto de pesquisa, um estudo que a teria ajudado a conseguir vaga na prestigiada Universidade Coreana de Seul em 2010. O estudo foi tirado de circulação em setembro.

A mulher de Cho, professora, já está sob julgamento acusada de ter fabricado um certificado de honra ao mérito do presidente da universidade dela para facilitar a entrada da filha na faculdade de medicina em 2015. Depois de ingressar no curso, a filha de Cho foi premiada com bolsas de estudos por seis semestres, mesmo sem apresentar notas dignas disso.

As revelações produziram convulsões em um país que, há dois anos e meio, testemunhou a deposição da adversária conservadora de Moon, Park Geun-hye, em um escândalo que teve início com o favoritismo demonstrado em relação à filha de uma amiga próxima de Park.

Quando Moon assumiu o governo, no ano seguinte, sua promessa central era criar um patamar de igualdade para todos os coreanos. A confiança dos sul-coreanos no ensino como grande fator de promoção da igualdade se dissipou com os escândalos nos anos mais recentes, vendo que os ricos e poderosos trapaceiam o processo seletivo das universidades em favor dos próprios filhos.

As auditorias do ministério da educação desde 2017 revelaram 794 trabalhos de pesquisa nos quais alunos do ensino fundamental ou médio eram apontados com coautores, incluindo pelo menos 11 casos em que professores apontaram os próprios filhos como coautores.

“A geração millenial sul-coreana considera a justiça o valor mais importante - uma atitude que as gerações mais velhas não compreendem", disse o cientista político Ahn Byong-jin, da Universidade Kyung Hee, em Seul. Com a desaceleração da economia, os jovens se mostrara mais sensíveis “ao quanto as regras do jogo são justas ou não", disse Ahn. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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