Michal Cizek/Agence France-Press Getty Images
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Escândalo em torno do primeiro-ministro deixa República Tcheca no limbo

Populista Andrej Babis encara desconfiança e graves acusações

Marc Santora, The New York Times

01 Dezembro 2018 | 06h00

PRAGA - Um bilionário que entrou na políticas subiu ao poder usando a rejeição da população a um sistema que muitos julgavam prejudicial aos cidadãos. Antes mesmo da posse, ele foi alvo de controvérsias em razão de conflitos de interesse relativos à sua companhia. Agora, os seus adversários ameaçam destituí-lo.

Pode parece familiar, mas Andrej Babis, o primeiro-ministro da República Tcheca e a segunda pessoa mais rica do país, há muito vem sendo comparado a Donald Trump por sua política populista, estilo bombástico e exuberante riqueza. Também foi perseguido pelos adversários que acusa de quererem derrubá-lo.

No dia 23 de novembro, estas tensões cresceram quando alguns legisladores realizaram um voto de desconfiança na tentativa de tirá-lo do governo, pela segunda vez desde que ele chegou ao poder, há mais de um ano.

Embora Babis tenha sobrevivido à ameaça, todos concordam que o conflito paralisou a política deste país da Europa central em um momento em que as forças populistas ameaçam destruir as conquistas democráticas obtidas desde a queda do comunismo, há quase 30 anos.

Para Babis, a política se tornou algo pessoal. Em uma guinada bizarra do escândalo, a mídia noticiou que o filho mais velho de Babis - Andrej Babis Jr., de 35 anos - declarou que o pai mandou sequestrá-lo e o mantém fora do país contra a sua vontade para impedir que converse com os investigadores.

Babis declarou que, em 2015, os médicos diagnosticaram que seu filho sofre de esquizofrenia, e acusou os repórteres, que chamou de “hienas”, de explorar o filho mentalmente doente seguindo-o na Suíça para entrevistá-lo na porta de sua casa.

Wojciech Przybylski, editor da revista “Visegrad Insight”, afirmou que a política tcheca se encontra atualmente em um limbo - entre o fortalecimento de suas instituições democráticas e, ao mesmo tempo, seguindo um rumo iliberal.

A situação do país “não se compara ainda à da Hungria ou da Polônia, mas, se continuar por este caminho, poderá muito em breve equiparar-se a elas”, ele disse.

Babis chegou ao poder com a promessa de limpar a política, e declarou que era tão rico que não seria tentado pela corrupção.

Entretanto, nunca conseguiu se livrar de um escândalo, ocorrido há mais de dez anos, relacionado ao conglomerado que construiu, a Agrofert, e que fez a sua fortuna - em particular, por nunca ter explicado devidamente se fez ou não mau uso dos subsídios da União Europeia.

Tomas Pergler, o autor do livro “Babis - The Story of an Oligarch”, afirmou que o primeiro-ministro se tornou o maior empregador do país - ele tem cerca de 34 mil funcionários na sua folha de pagamentos - graças ao trabalho duro e a táticas astutas.

“A mágica é a estrutura da holding que está dividida em mais de 250 companhias”, afirmou Pergler. “À primeira vista, empresas agrícolas menores do grupo recebem individualmente somas menores”. Mas somando-se tudo isto, prosseguiu, o total chega a bilhões.

Babis disse que não há nada de errado com a maneira como ele estruturou sua antiga companhia. No entanto, é uma dessas subsidiárias que está no centro do escândalo que assola Babis.

Em 2007, a companhia tentou investir em uma fazenda conhecida como Capi Hnizdo, ou Ninho da Cegonha, nos arredores de Praga. Babis disse que o projeto era ideia de sua filha, que adorava cavalos.

Mediante a criação de uma subsidiária, ele pôde usar cerca de 2 milhões de dólares dos fundos da União Europeia para o projeto. No entanto, na época, ele não revelou os nomes dos acionistas da companhia recém-criada.

Somente mais tarde, pressionado pelo Parlamento, ele informou que entre eles estavam seus dois filhos do primeiro casamento, sua esposa atual e seu irmão. A revelação ocorreu depois que a antiga fazenda foi transformada em resort.

Babis disse que o projeto nunca foi questionado até depois de ele entrar na política. O questionamento se intensificou quando o Partido ANO de Babis se apresentou às eleições para o Parlamento em 2017. A esta altura, a polícia tcheca o acusou de fraude juntamente com outras dez pessoas, inclusive seus dois filhos do primeiro casamento.

Quando os investigadores tentaram entrevistar os filhos, o advogado destes declarou que ambos sofriam de uma doença mental e não podiam testemunhar.

Babis afirmou que todas as acusações contra ele faziam parte de uma campanha e que as mesmas pessoas agora tentavam colocar sua família contra ele.

Indagado se agora lamenta ter-se envolvido na política, ele disse que “todos os dias”. Mas rapidamente deixou claro que não irá a parte alguma, custe o que custar.

“A verdade está do meu lado”, declarou Babis. “Sinto muito se isto está sendo uma publicidade negativa, porque todas estas pessoas que querem me destruir com base em mentiras, me odeiam, porque ninguém pode me corromper”. /Hana de Goeij contribuiu para a reportagem

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