Ivan Alvarado/Reuters
Ivan Alvarado/Reuters

Escândalo na Igreja obriga a uma prestação de contas no Chile

Investigadores chilenos vasculharam os escritórios do Cardeal Ricardo Ezzati

Pascale Bonnefoy, The New York Times

08 Agosto 2018 | 15h15

SANTIAGO, Chile - Os 20 homens e mulheres levantaram-se silenciosamente dos seus bancos durante a Missa na Catedral de Santiago, um dia no mês passado, desenrolaram uma bandeira e levantaram cartazes, um dos quais dizia: “Todos os bispos devem renunciar”.

Olhando para trás do altar estava o Cardeal Ricardo Ezzati, arcebispo de Santiago, ponto focal da operação para estabelecer as responsabilidades nas acusações de que os líderes da Igreja Católica do Chile encobriram reiteradamente abusos sexuais de crianças praticados por padres.

Desde que o papa Francisco admitiu nesta primavera uma “cultura do abuso” no Chile, e os investigadores do Vaticano encontraram um esquema de inação e ocultação, os promotores chilenos intensificaram os seus esforços para investigar dezenas de personalidades da Igreja.

Promotores especiais, nomeados em cada uma das 15 regiões do Chile, estão examinando casos que envolvem 104 vítimas em potencial, a metade das quais eram menores quando os crimes relatados ocorreram. São cerca de 70 os clérigos e leigos que estão sendo investigados, inclusive três bispos.

O Cardeal Ezzati, que negou as acusações de acobertamento dos abusos, é a mais alta autoridade da Igreja do Chile sob investigação.

“Foi quebrado um paradigma,” afirmou José Andrés Murillo, cujas acusações públicas de abusos contribuíram para deflagrar a crise. “É como uma enorme onda que empurra o navio da Igreja para que se mova”.

Nos últimos meses, todos os bispos do país apresentaram sua renúncia a Francisco. Um funcionário de alto escalão foi preso pelas acusações de ter abusado de meninos, e as alegações contra outros sacerdotes aumentaram.

“A Igreja está mergulhada em uma profunda crise, e os que cometeram abusos contra menores devem pagar por estes crimes e enfrentar a justiça, independentemente de quem possa cair”, afirmou Alejandro Álvarez da organização Vozes Católicas, que fala sobe questões da Igreja.

As recentes repercussões começaram não com uma acusação, mas com uma defesa: durante uma visita ao Chile em janeiro, Francisco defendeu Juan Barros Madrid, um bispo chileno que há muito tempo era acusado de encobrir as informações de abusos.

“Tudo isto não passa de difamação”, disse Francisco em comentários que imediatamente provocaram grande estardalhaço. Francisco, estarrecido com a reação, então enviou dois investigadores para o Chile a fim de examinarem como as autoridades da Igreja haviam tratado as informações de abusos sexuais.

Os investigadores do Vaticano apresentaram um relatório de 2.300 páginas baseado em 64 entrevistas, acusando líderes da Igreja Católica de não apurarem acusações que poderiam ser consideradas fidedignas. Eles descobriram que os sacerdotes que eram acusados de tais transgressões eram designados para novas paróquias. O relatório dizia que os líderes da Igreja chegaram a destruir documentos.

Francisco se desculpou, admitindo ter cometido “graves erros de julgamento e de percepção da situação”. Em abril, ele se reuniu com três homens que haviam sofrido abusos sexuais na adolescência, e no mês seguinte convocou toda a Conferência dos Bispos Chilenos em Roma. Foi então que todos os 34 bispos apresentaram as suas renúncias.

“Acredito que o Papa Francisco se deu conta dos desafios sociais e políticos com que a Igreja se defronta no mundo de hoje, e está levando a Igreja chilena para uma crise da qual  acredita que poderá surgir algo novo”, observou Murillo, que foi um dos homens convidados ao Vaticano. Atualmente, ele dirige a Fundação pela Confiança, um grupo que congrega as vítimas de abusos sexuais.

O papa aceitou as renúncias do Bispo Barros e de quatro outros.

Por sua vez, os promotores chilenos reuniram-se regularmente com membros da Conferência dos Bispos e solicitaram formalmente uma cópia do relatório do Vaticano, cujo texto integral não havia sido divulgado. “A Conferência dos Bispos está a disposição para cooperar com os tribunais”, afirmou Jaime Coiro, um porta-voz do grupo.

No entanto, algumas autoridades da Igreja estão alarmadas diante da perspectiva de que o relatório do Vaticano possa ser compartilhado com os promotores.

“Sua divulgação prematura poderá causar um grave prejuízo a pessoas que frequentemente pedem que o seu testemunho seja mantido em sigilo”, afirmou o bispo Juan Ignacio González de San Bernardo à Radio Cooperativa.

Os investigadores chilenos também vasculharam os escritórios das igrejas em várias cidades nas últimas semanas, inclusive os do Cardeal Ezzati. Os promotores estão investigando as acusações segundo as quais o Cardeal Ezzati não denunciou aos tribunais os casos de abusos que envolviam o chanceler do escritório do arcebispo, o Reverendo Óscar Muñoz.

O padre Muñoz, um membro de total confiança da hierarquia da Igreja, tratara dos relatos de abusos e de outras informações confidenciais. Em dezembro, padre Muñoz disse aos seus superiores que ele mesmo havia sido acusado de abusos, informou o escritório do arcebispo, o que levou as autoridades da Igreja a abrir uma sindicância interna, mas não a informar as autoridades sobre o assunto.

Em julho, padre Muñoz foi levado preso pela polícia enquanto uma investigação criminal prosseguia contra ele.

“Estamos perplexos, mas não desesperados”, afirmou o Cardeal Ezzati aos congregados pouco antes que os manifestantes se levantassem. “Perseguidos, mas não abandonados. Derrubados, mas não aniquilados”.

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