Saul Martinez para The New York Times
Saul Martinez para The New York Times

Escândalo sexual coloca paraíso americano na mira dos tabloides

Robert K. Kroft, dono da equipe de futebol americano New England Patriots, foi detido em uma casa de prostituição

Patricia Mazzei e Ken Belson, The New York Times

20 de março de 2019 | 06h00

PALM BEACH, FLÓRIDA - Neste refúgio exclusivo, zeloso de sua imagem, onde enormes cercas rodeiam grandes mansões e valets estacionam carros no supermercado, os moradores ricos pagam cifras consideráveis para proteger sua vida privada dos olhares dos outros, embora o seu maior desejo seja serem vistos em eventos beneficentes e espetáculos de gala que ocorrem quase diariamente de novembro a maio, uma época cheia de brilho conhecida como “a temporada”.

A realidade um pouco mais turbulenta mostra que a história desta ilha de 29 quilômetros de extensão que serve de barreira ao continente, playground dos ricos há mais de um século, está repleta de histórias de aristocratas americanos que não conseguem se manter fora dos tabloides locais. Barões de Wall Street fugiram com empregadas, celebridades se divorciaram de maneira escandalosa, e, o que não chega a surpreender, escorts remunerados trabalham nos bares e hotéis exclusivos.

O episódio escandaloso mais recente vazou ao público no mês passado, quando Robert K. Kroft, o proprietário da equipe de futebol americano New England Patriots, em um spa clandestino neste refúgio dos ricos, foi acusado de dois crimes menores por solicitar os favores de uma prostituta em uma casa de massagem na cidade de Jupiter, a 30 minutos de distância de automóvel. Ali os policiais disseram ter flagrado, por duas vezes Kraft, 77, em um vídeo, no ato de pagar uma mulher por serviços sexuais.

Kraft negou as acusações. Mas a simples sugestão de que um destacado empresário e filantropo possa ter buscado companhia em um salão de massagem de quinta categoria, na sua própria rua, levou muitos moradores a se perguntarem por que um homem com uma fortuna estimada em US$ 6,6 bilhões arriscaria sua reputação de maneira tão imprudente em um salão de massagem de US$ 79 a hora.

“Não é comum se ouvir falar de algo tão baixo como este em Palm Beach”, disse Ronald Kessler, que há 20 anos escreveu um livro sobre o comportamento dos herdeiros mais ricos da ilha. Naquela época, a notícia da prisão de garotas de programa em Palm Beash não era tão inusitada, ele disse. Na era dos tabloides, das câmeras de celulares e da internet, aparentemente os moradores se tornaram mais cuidadosos. E no entanto alguns ainda não se importam com a cautela.

A maioria das celebridades costuma ser discreta, na medida do possível, disse Jim Ausem, um policial aposentado que trabalhou por dez anos como segurança do ator Burt Reynolds, um frequentador assíduo da região de Jupiter até a morte, no ano passado. “Quando  eles vão para um local público, entram pela porta dos fundos. Sempre há um quarto reservado para eles, e ninguém saberá quem está ali. A coisa funciona assim”.

Os ricos barões do nordeste do país, que são donos de mansões à beira-mar e luxuosos condomínios nesta parte da Flórida com edifícios de vários andares, vêm para cá fugindo da estação fria e dos elevados impostos do seu estado de origem. Embora more em Boston e viaje com frequência, Kraft tornou-se uma presença regular que aparece em eventos beneficentes para gastar consideráveis quantias de dinheiro e jantar em Mar-a-Lago, o clube exclusivo de propriedade do presidente Donald Trump.

Recentemente, Kraft foi visto em um teste de som para outro de seus amigos, o astro do rock Jon Bon Jovi, que estava se apresentando no The Breakers, um resort da era de ouro de Palm Beach, onde Kraft se hospeda em um condomínio quando está na cidade.

Uma das atrações para os ricos, na Flórida ensolarada, nada tem a ver com as praias: não há imposto de renda estadual, e a redução dos impostos sobre as propriedades no Estado limita os aumentos do imposto predial. Esta é a grande atração para os que fizeram fortunas no setor financeiro.

Com dinheiro para torrar, eles adquiriram imóveis e construíram mansões em ruas apelidadas Bankers Row. “Eles vêm para cá por causa do sol, do lazer e de impostos menores”, disse Joel Cohen, proprietário de uma galeria de arte em Palm Beach. “É a grande família dos ricos”.

Quanto à razão pela qual empresários de sucesso podem requentar um local de massagens barato em um shopping a céu aberto, é a pergunta que muitos moradores não conseguem responder. “É isto que na realidade me choca tremendamente em todo este caso”, disse Ausem. “O fato de Robert Kraft frequentar um lugar como este, por US$ 69 ou US$ 79 dólares e dar à mulher uma gorjeta de US$ 100 - é o que me surpreende. É uma coisa idiota”.

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