Zinyange Auntony para The New York Times
Zinyange Auntony para The New York Times

Escassez de água no Zimbábue gera filas e racionamento

Maioria dos moradores da capital do país só recebe água corrente uma vez por semana

Patrick Kingsley e Jeffrey Moyo, The New York Times

10 de agosto de 2019 | 06h00

HARARE, ZIMBÁBUE - Faz cinco dias que a água parou de escorrer das torneiras do bangalô de Eneres Kaitano no sul de Harare, a moderna e organizada capital do Zimbábue. Cinco dias sem lavar a roupa. Cinco dias de racionamento do banheiro, que os filhos só podem usar uma vez por dia.

No sexto dia, ela levantou às três horas da madrugada para buscar água em um poço comunitário. No início da tarde, ainda esperava sua vez de encher os baldes. Boa parte da cidade teve a mesma ideia. Mais da metade dos 4,5 milhões habitantes da área metropolitana da grande Harare tem água corrente apenas uma vez por semana, de acordo com o prefeito, o que obriga as pessoas a formarem filas diante dos poços comunitários e córregos.

“A situação está causando sérios problemas", disse Eneres, 29 anos, vendedora de jeans no atacado. A acentuada escassez de água no Zimbábue é resultado de uma seca particularmente grave este ano, reflexo da mudança climática. A ineficiência na gestão das águas levou ao desperdício de boa parte da água que resta. Dois dos quatro reservatórios de Harare estão vazios por conta da falta de chuvas, mas entre 45% e 60% da água restante são perdidos em vazamentos e roubos, disse Herbert Gomba, prefeito de Harare.

Mas a crise da água é apenas um microcosmo dos males do Zimbábue. Anos de má administração sob o governo de Robert Mugabe, que comandou o Zimbábue por 37 anos até ser deposto em 2017, deixaram a economia em frangalhos. Os moradores enfrentam blecautes diários que duram entre 15 e 18 horas; há escassez de remédios, combustível e notas bancárias; a inflação supera a marca de 175%.

O Zimbábue se tornou o país das filas. Nas semanas mais recentes, os motoristas enfrentaram espera de três horas para abastecer seus veículos com uma gasolina batizada com etanol, de combustão mais rápida. Os trabalhadores esperam por horas em longas filas diante dos bancos para receber o pagamento em dinheiro, pois há falta de dólares zimbabuanos.

O preço do pão aumentou 700% nos últimos 12 meses, e alguns remédios são hoje dez vezes mais caros, enquanto os salários permanecem estagnados. “É um pesadelo", disse o médico Norman Matara. Alguns pacientes não podem mais arcar com o custo dos medicamentos, enquanto outros tomam remédios “uma vez a cada três dias, sendo que deveriam tomá-los diariamente", disse ele.

A escassez de água se tornou um problema anual no Zimbábue, mas a seca deste ano é particularmente séria, pois ocorreu no início do verão e afetou um número de pessoas ainda maior do que o habitual. A precipitação esse ano está aproximadamente 25% abaixo da média anual, de acordo com Washington Zhakata, diretor do Departamento de Gestão da Mudança Climática do governo do Zimbábue.

Harare, uma cidade de subúrbios com bolsões de moradia de baixa renda, tudo isso envolvendo um compacto distrito central de negócios, foi duramente atingida. “Desperdiçamos tanto tempo com esperas… É algo que afeta a parte produtiva da economia", disse Gomba. “Todo o ciclo da vida é impactado.”

O presidente Emmerson Mnangagwa assumiu o governo depois de mobilizar o golpe que depôs Mugabe. Seu gabinete diz estar envolvido no processo de limpeza da economia do Zimbábue, apontando para medidas de austeridade que levaram a um raro superávit orçamentário no primeiro trimestre do ano. Mas, por enquanto, o governo não foi capaz de conter a inflação descontrolada, a desvalorização da moeda e os custos de importação.

A decisão de proibir o uso de moeda estrangeira, adotada em junho na tentativa de estabilizar o valor do recém-criado dólar zimbabuano, resultou em uma dificuldade ainda maior para a importação de mercadorias do exterior. “Tivemos uma janela de oportunidade quando Mugabe deixou o poder", disse Kipson Gundani, economista-chefe da Câmara Nacional do Comércio do Zimbábue. “Mas nós desperdiçamos essa oportunidade.”

O presidente Mnangagwa nega que a responsabilidade seja do seu governo. Ele disse que a má gestão de águas é culpa de políticos locais dos partidos da oposição, como Gomba. O governo nacional está no processo de obter um empréstimo de US$ 71 milhões do governo chinês para reformar o sistema de águas zimbabuano, disse Mnangagwa. “Quando o processo for concluído, as obras começarão", disse ele.

Mas o histórico das autoridades não é muito promissor. Em uma fonte na mata ao sul de Harare, escorria apenas um fio d’água no fim de julho, obrigando os moradores a enfrentarem uma espera de aproximadamente três horas para encher os baldes. Muitos moradores precisam se ausentar do trabalho para garantir que haja água para suas famílias.

Eneres só conseguiu levar suas mercadorias para a venda uma vez desde que as torneiras secaram, perdendo o equivalente a uma semana de renda. A amiga dela, Susan Chinoda, deixava os filhos beberem apenas um copo d’água por dia, indo ao banheiro uma única vez. “É uma séria restrição à nossa vida", disse Susan, 32 anos. “Água é vida.” / Tendai Marima contribuiu com a reportagem. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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