Suzie Howell / The New York Times
Suzie Howell / The New York Times

Batalhas comerciais afetam a produção de uísque de malte na Escócia

Enquanto o Brexit já afetava profundamente as relações da Grã-Bretanha com seus parceiros comerciais, o governo Trump impôs tarifas de 25% a uma série de produtos

Annie Tsang, The New York Times

02 de novembro de 2019 | 06h00

ISLAY, ESCÓCIA - O divórcio da Grã-Bretanha da União Europeia transformou o trabalho do destilador Anthony Wills em uma façanha logística. Durante meses, ele esteve em contato com importadores para garantir que o seu uísque de malte, destilado da cevada colhida em suas terras na ilha de Islay, fosse enviado para o Continente e para os Estados Unidos a tempo para as festas de fim de ano.

Então, enquanto o Brexit já afetava profundamente as relações da Grã-Bretanha com seus parceiros comerciais, o governo do presidente Donald J. Trump impôs tarifas de 25% a uma série de produtos, como os vinhos franceses, queijos italianos e, infelizmente para Wills, ao seu uísque de malte. “É um verdadeiro golpe”, afirmou Wills, proprietário da Kilchoman Distillery no oeste da Escócia. “Não importa quanto você se esforça para reduzir o problema, é sempre um golpe”.

O uísque sustenta a economia de Islay e de grande parte da Escócia. As vendas anuais de uísque escocês no valor de 4,7 bilhões de libras esterlinas, ou cerca de US$ 5,9 bilhões, representam 70% das exportações de alimentos e bebidas da Escócia e 21% das da Grã-Bretanha. O uísque escocês, no valor de mais de US$ 1,3 bilhão vai para os Estados Unidos, enquanto cerca de US$ 1,8 bilhão corresponde ao que é vendido na União Europeia.

Turismo do uísque

O entusiasmo pelo uísque de malte cresceu, e o turismo do uísque disparou. Kilchoman e oito outras destilarias concorrentes de uísque escocês floresceram nos últimos dez anos. Turistas dos Estados Unidos, Europa e Japão vêm admirar as belezas do litoral de Islay e saborear abundantemente as caras bebidas locais. Este ano, foram cerca de dois milhões de visitantes, o dobro dos que se viam há cerca de dez anos, informou a Associação Escocesa do Uísque.

O uísque de malte de Wills tornou-se um produto de exportação famoso, mas ele está preocupado com o ônus representado pelas tarifas de 25%. Ele vende para o exterior 80% de tudo o que produz, e cerca de 40 mil garrafas ao ano para os Estados Unidos, o que contribuiu para estimular o crescimento nos últimos nove anos.

Brexit

O  Brexit é uma espécie de sofrimento que o Reino Unido impôs a si mesmo. As tarifas são um ônus a mais. “O nosso é um negócio em expansão, e nós precisamos de todo o apoio possível”, disse Wills.

Karen Betts, diretora executiva da Associação do Uísque Escocês, disse que com as tarifas, que se aplicam somente aos uísques de malte, os mais afetados serão provavelmente os pequenos produtores. Destiladores como Wills não podem pensar em atrair os cientes americanos para produtos alternativos, os uísques blended, porque não são eles que os produzem, e os de malte são comercializados como um produto distinto, que baseia a sua fama na origem.

Liam Hughes, diretor executivo de uma pequena destiladora de Glasgow, contou que a sua companhia acabara de concluir um acordo para vender uísque aos EUA quando foi divulgado o anúncio das tarifas, no dia 2 de outubro. “Todos estávamos comemorando, e então acordamos no dia seguinte e descobrimos que uma tarifa havia sido introduzida na equação da noite para o dia”, assustou-se.

Sua destilaria gastou mais de 100 mil libras e se preparou durante 18 meses para começar a exportar para os Estados Unidos. No ano passado, a companhia instalou dois novos  alambiques no intuito de dobrar a produção para 1,2 milhões de garrafas ao ano. E contratou mais seis pessoas.

Ele comparou a economia da Escócia a um pequeno barco em mares tempestuosos “jogado à direita, à esquerda e para o centro”. “É óbvio que estamos extremamente nervosos, porque o problema nos coloca em uma disputa comercial que não tem nada a ver conosco”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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