Adriana Loureiro Fernandez para The New York Times
Adriana Loureiro Fernandez para The New York Times

Fome debilita estudantes e esvazia escolas na Venezuela

Algumas crianças ficam em casa porque muitas escolas deixaram de oferecer refeições, ou porque os pais não podem mais comprar uniformes e material escolar

Anatoly Kurmanaev e Isayen Herrera, The New York Times

07 de dezembro de 2019 | 06h00

BOCA DE UCHIRE, VENEZUELA - Centenas de crianças entraram em fila no pátio da escola para ouvir uma prece do bispo local, que rezaria pelo ensino delas. “Oremos pelos jovens que estão nas ruas e não podem vir à escola", disse o bispo Jorge Quintero, falando aos alunos do Liceu Augusto D’Aubeterre, na cidade litorânea de Boca de Uchire em uma úmida manhã de outubro. “São muitos nessa situação.”

Ao fim dos 15 minutos de cerimônia, cinco crianças tinham desmaiado e duas foram levadas embora de ambulância. Os desmaios na escola do ensino fundamental se tornaram ocorrência comum, pois muitas crianças vêm para a aula sem tomar café da manhã, ou mesmo sem terem jantado na noite anterior. Em outras escolas, as crianças querem saber se algum lanche será servido antes de decidirem se comparecerão.

“É impossível ensinar aos famintos e esqueléticos", disse Maira Marín, professora e líder sindical em Boca de Uchire. A devastadora crise econômica que já dura seis anos na Venezuela está esvaziando o sistema de ensino - antes motivo de orgulho desse país rico em petróleo e, durante décadas, um motor que conferia ao país grande mobilidade social. 

A fome é apenas um dos muitos problemas. Milhões de venezuelanos fugiram dos país nos anos mais recentes, reduzindo o contigente de alunos e professores. Muitos dos educadores que permanecem no país foram afastados da profissão, com salários quase totalmente corroídos por anos de hiperinflação. Em alguns lugares, escolas que antes recebiam milhares de alunos mal reúnem uma centena de estudantes.

O governo parou de publicar estatísticas de ensino em 2014. Mas visitas a mais de uma dúzia de escolas em cinco estados venezuelanos e entrevistas com professores e pais de alunos indicam que a frequência está baixíssima esse ano, e muitas escolas estão fechando. 

Os estudantes começaram a matar aula na Venezuela pouco depois do início da presidência de Nicolás Maduro, em 2013. Uma queda no valor do principal artigo de exportação do país, petróleo bruto, somada à insistência de Maduro em controlar os preços e o câmbio, resultou em uma recessão econômica

Algumas crianças venezuelanas ficam em casa porque muitas escolas deixaram de oferecer refeições, ou porque os pais não podem mais comprar uniformes, material escolar ou pagar a passagem de ônibus. Outros se juntaram aos pais e uma das maiores crises de deslocamento humano do mundo: cerca de quatro milhões de venezuelanos deixaram o país desde 2015, de acordo com as Nações Unidas.

Milhares dos 550 mil professores do país não vieram dar aula quando as escolas reabriram em setembro, de acordo com o sindicato nacional dos professores, abandonando o salário mensal de US$ 8 para tentar a sorte no exterior ou nas minas de ouro ilegais da Venezuela.

No estado mais populoso da Venezuela, Zulia, até 60% dos cerca de 65 mil professores deserdaram nos anos mais recentes, de acordo com Alexander Castro, diretor do sindicato dos professores local. “Eles nos dizem que preferem trabalhar como manicure por alguns dólares em vez de sobreviver com o salário mínimo", disse Castro.

Para manter as escolas abertas, os professores remanescentes acabam ensinando todas as matérias, ou misturam anos diferentes em uma mesma sala de aula. Quase todas as escolas visitadas estão funcionando com horário reduzido; algumas abrem apenas um ou dois dias por semana.

No vilarejo de Parmana, nas planícies centrais da Venezuela, apenas quatro de total de 150 estudantes matriculados vieram às aulas em outubro. Os estudantes, de diferentes idades, usavam a mesma sala de aula desgastada, sem luz, fazendo exercícios que iam do alfabeto até a álgebra sob o comando do único professor da escola. O restante das crianças do vilarejo se juntou aos pais nos campos e navios de pesca na tentativa de ajudar a alimentar suas famílias.

Na segunda maior cidade do país, Maracaibo, uma placa do lado de fora de uma escola quase abandonada dizia: “Venham para a aula, mesmo se não tiverem uniforme". Depois das férias de verão, só metade dos professores voltou para dar aula na cidade de Santa Barbara, obrigando o diretor a recrutar voluntários entre os pais para manter a agenda de aulas.

Durante a década anterior a 2013, o país conseguiu avanços constantes no número de matriculados. O antecessor de Maduro, Hugo Chávez, construiu centenas de novas escolas. Mas as políticas populistas de Chávez estavam mais preocupadas com o número de estudantes na escola e menos com a qualidade do ensino. Então, quando os cofres do país ficaram vazios, esse progresso foi perdido.

Enquanto a evasão escolar fugia ao controle, Maduro seguia alegando que seu governo estava comprometido a fazer investimentos na educação. “Na Venezuela, nunca tivemos uma escola fechada, e nunca teremos, nem mesmo uma sala de aula", discursou o presidente em abril. “Jamais impediremos o acesso ao ensino.”

Em Boca de Uchire, a família Caruto parou de enviar os nove filhos a uma escola próxima quando o refeitório está fechado. “Não posso mandá-los para a sala de aula com fome", disse o desempregado José Luis Caruto, 36 anos e pai de dois. A irmã dele, Yuxi Caruto, 17 anos, foi a última da família a largar a escola.

Ela tentou retomar os estudos em um centro comunitário, mas os professores deixram de vir após cerca de duas semanas de aulas. Ela agora passa o tempo cuidando do filho de um ano. “Quero aprender a fazer contas e a ler e escrever rapidamente", disse ela. “Temo que, quando meu filho crescer e começar a fazer perguntas, não saberei as respostas. Mas, no momento, não temos nem o que comer.” / Sheyla Urdaneta contribuiu com a reportagem. TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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