Tom Jamieson para The New York Times
Tom Jamieson para The New York Times

Escolas britânicas reformam parquinhos para incluir sensação de perigo

No lugar das casinhas de plástico foram colocados tijolos, tábuas, facas e martelos

Ellen Barry, The New York Times

17 Março 2018 | 10h00

SHOEBURYNESS, INGLATERRA - Os educadores da Grã-Bretanha, depois de passarem décadas em um esforço coletivo para minimizar riscos, agora decidiram oferecê-lo de forma controlada.

Há quatro anos, por exemplo, os professores da Richmond Avenue Primary and Nursery School analisaram com olhos críticos o ambiente escolar e, começaram, como disse um deles, “a trazer o risco para dentro da escola”.

Acabaram-se as casinhas de brinquedo de plástico e foram introduzidos os materiais perigosos: tábuas de 2x4 polegadas, cestos e tijolos soltos. O pátio da escola tem espaço para um lamaçal, um balanço de pneus, tocos de árvores e mesas de atividades com martelos e serrotes. “Refletimos de que maneira poderíamos introduzir estes elementos de risco no nosso ambiente de todos os dias?” disse Leah Morris, que trabalha na escola de Schoeburyness, no sudeste da Grã-Bretanha.

Agora, ela afirma com orgulho, “temos fogueiras, usamos facas, serrotes, ferramentas diversas”, todos com supervisão de adultos. Dentro das salas, há uma quantidade de tesouras, e suportes de fitas adesivas com uma parte afiada que corta (“em geral, eles se cortam só uma vez”, ela afirma).

Riscos limitados vão sendo, cada vez mais, considerados pelos especialistas como essenciais ao desenvolvimento da criança, por serem úteis à formação da resistência e da força de caráter.

Na fachada do Princess Diana Playground em Londres, um cartaz informa os pais de que os riscos foram “introduzidos propositalmente para que o seu filho aprenda a avaliar o perigo em um ambiente controlado, em lugar de se deparar com riscos semelhantes no mundo como um todo sem nenhum controle e sem nenhuma regra”.

Esta visão está marcada pela nostalgia de uma Grã-Bretanha de outras épocas, em que as crianças eram mais fortes e mais confiantes em si mesmas. Ela se identifica tanto com os tabloides da direita, que a consideram uma retificação de um Estado babá liberal, quanto com os progressistas, que a destinam a  uma infância mais livre e natural. Também é respaldada por uma lista cada vez mais extensa de autoridades, entre elas Amanda Spielman, inspetora chefe da Ofsted, a agência que fiscaliza as escolas britânicas.

No final do ano passado, ela anunciou que os inspetores da agência serão submetidos a treinamento sobre o lado positivo do risco. “As inspeções serão introduzidas paulatinamente e serão um pouco mais avessas ao risco, a não ser que os preparemos explicitamente a adquirirem uma compreensão mais sofisticada do equilíbrio entre os benefícios e o perigo”, ela disse. “O que não significa que nos comportemos de maneira imprudente e mandemos crianças de dois anos caminharem na beira de um penhasco de 60 metros sem acompanhamento”.

A Grã-Bretanha é um dos vários países em que educadores e reguladores afirmam que a filosofia protetora foi longe demais. No fim do ano passado, a Austrália introduziu novas normas para os equipamentos usados nos parquinhos, instruindo os operadores a avaliarem os benefícios de atividades que poderiam dar margem a machucados. As prefeituras e os distritos escolares do Canadá e da Suécia estão seguindo o seu exemplo.

Desde o final dos anos 70, os pais foram praticamente submersos por avisos sobre os perigos ocultos nos parquinhos e sobre os predadores escondidos nos bairros suburbanos.

Os espaços para os jogos mudaram: os balanços de tábuas e os carrosséis de aço desapareceram, e superfícies de borrachas que absorviam o impacto se espalharam para as chamadas áreas de salto. Surgiu um mercado para pedras de plástico com certificado de segurança. O resultado tem sido uma gradativa esterilização do jogo, disse Meghan Talarowski, especialista em projetos de paisagismo.

“O parquinho é um piso de borracha, uma pequena estrutura fechada por uma cerca, uma espécie de pequena prisão para brincar”, ela disse referindo-se aos Estados Unidos. “O adulto senta ali com o seu celular esperando que as crianças terminem”.

Por outro lado, o parquinho de Tumbling Bay em Londres aterrorizaria o gerente de um parque  preocupado com a segurança. Suas torres para escalada de seis metros de altura, com galhos naturais, ásperos, amarrados juntos a varinhas de salgueiro, foram feitos à mão. O mato agitado pela brisa é mais alto do que um adulto, o que chega a impedir a visão, além disso, no pedregulho e nas áreas cobertas de areia talvez contenham fezes de animais ou objetos cortantes.

Na Grã-Bretanha, o apoio a brinquedos mais arriscados cresceu a tal ponto que mesmo os mais importantes defensores da segurança endossaram a ideia.

Entretanto, a mudança em si não é igual, e a sociedade se retrai toda vez que uma criança se fere seriamente. As mortes em parquinhos são extremamente raras - elas ocorrem a cada três ou quatro anos na Grã-Bretanha - mas contribuem  para aumentar o medo dos pais.

A reavaliação da segurança ocorre regularmente depois das tragédias nos parquinhos, disse David Yearley, da Royal Society for the Prevention of Accidents. “Para a sociedade, é difícil dizer: ‘Precisamos aceitar uma em cada 60 milhões de possibilidades de morte’”, observou.

Entretanto, perguntem aos professores da Richmond Avenue Primary School, e eles dirão que expor as crianças a riscos limitados enquanto são pequenas as ajudará a sobreviver.

“O indivíduo precisa sair por aí e encontrar o seu lugar no mundo”, disse Debbie Hughes, a supervisora dos professores da escola. “Se você não dá a estas crianças a capacidade de criar, o perigo, condições para arriscar, se elas não experimentarem este risco aos quatro anos, o adulto não conseguirá fazer isto”.

 

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